quarta-feira, 5 de maio de 2021

Maioria de imigrantes da Ásia paga 10 mil euros para chegar ao Alentejo, diz estudo

 



IMIGRAÇÃO

Maioria de imigrantes da Ásia paga 10 mil euros para chegar ao Alentejo, diz estudo

 

São os imigrantes que pagam os custos da desregulamentação do mercado, mostra projecto financiado pelo Fundo de Asilo, Migrações e Integração. Autor identifica Alentejo como “plataforma giratória de mão-de-obra”.

 

Joana Gorjão Henriques

4 de Maio de 2021, 21:48

https://www.publico.pt/2021/05/04/sociedade/noticia/maioria-imigrantes-asia-paga-10-mil-euros-chegar-alentejo-estudo-1961170

 

Imigrante em Portugal desde 2015, dono de uma mercearia na Zambujeira do Mar (Odemira), Nanda Kendal veio para Portugal, a partir da Bélgica, com a mulher. Pagaram mil euros pelos dois lugares num carro onde viajaram cinco pessoas. No mesmo ano, conseguiu arrendar uma casa naquela localidade por cerca de 250 euros. Hoje isso não seria possível, diz. “Os preços não estão normais. Por isso os imigrantes têm que partilhar quartos. E é quase impossível arranjar neste momento uma casa ou quarto, se encontrar é mais do dobro do preço. Hoje um quarto onde estão várias pessoas custa 200 euros por pessoa, por mês, e mesmo assim é difícil encontrar”, relata ao PÚBLICO.

 

Se o valor pago por Nanda Kendal com partida de um país da Europa é elevado, não se compara aos custos de quem vem da Ásia. Há trabalhadores que chegam a Portugal pagando 10 mil euros pelo processo de imigração a redes criadas para o efeito: esta foi a média de valor apurada pelo projecto de investigação O impacto da imigração no sector agrícola: o caso do Alentejo, de João Carvalho e Sandro Teixeira, financiado pelo Fundo de Asilo, Migrações e Integração, do Alto Comissariado para as Migrações.

 

E é o valor que a maioria dos imigrantes do sudoeste asiático paga, garante ao PÚBLICO o investigador João Carvalho. “O grande enclave da costa vicentina está associado à necessidade de frutos vermelhos, que requer muita mão-de-obra. É uma espécie de plataforma giratória de mão-de-obra: as pessoas entram em Portugal para aceder à regularização, mas o objectivo não é ficar em Odemira”, afirma o investigador.

 

Doutorado em Ciência Política pela Universidade de Sheffield (Reino Unido), este investigador do ISCTE-UL que tem estudado o impacto da imigração na extrema-direita refere que em Odemira operam “redes que estão estabelecidas nos países de origem” e tratam do processo de imigração a quem se coloca nas suas mãos. “Os imigrantes imaginam o El Dorado da Suécia e não o ordenado mínimo de 600 euros que vêm ganhar em Portugal, onde podem regularizar-se se conseguirem integrar o mercado de trabalho. A vulnerabilidade das pessoas quando estão ao serviço destas empresas é elevada, roça o ilegal e legal”, afirma.

 

Porém, não tem dúvidas de que, uma vez regularizados, os imigrantes ficam mais protegidos. “Os custos da regularização pagam os imigrantes, os custos da sobrelotação da habitação pagam os imigrantes e o custo da desregulamentação do mercado de trabalho pagam os imigrantes.”

 

O estudo faz uma análise macro e uma análise micro com base em entrevistas em profundidade e inquéritos por questionário online com empresas e trabalhadores estrangeiros. No total, a equipa conseguiu recolher 57 inquéritos válidos com trabalhadores, mas não conseguiu obter respostas de empresas de frutos vermelhos por resistências destas, afirma o investigador.

 

Dificuldades em fiscalizar

Aquela não é a única situação de abusos identificada. Foi reportado o aproveitamento de portugueses que cobravam “valores financeiros exorbitantes pelo mero preenchimento de um formulário” necessário à regularização, conta. “Estamos a falar de 50 euros para preencher um formulário que demora dois minutos.” Algo que depois muitos imigrantes, por não conhecerem o sistema, internalizam como sendo normal, refere.

 

A investigação identifica também uma intensa desregulamentação do mercado de trabalho decorrente da proliferação de empresas de prestação de serviços e recursos humanos “cuja actividade assenta na exploração ilegal de trabalhadores estrangeiros através da intermediação entre estes últimos e os empregadores nacionais”. Uma das questões sublinhadas é que as “empresas praticam concorrência desleal” e que a própria Autoridade para as Condições do Trabalho (ACT) reportou “dificuldade em fiscalizar e accionar procedimentos jurídicos contra as empresas”, que depois abrem e fecham — o PÚBLICO tentou, sem sucesso, obter dados de sanções aplicadas pela ACT na zona.

 

O cenário laboral traçado é preocupante: a maioria dos trabalhadores agrícolas não consegue trabalhar durante os 12 meses do ano, e os seus rendimentos situam-se em valores inferiores ao limiar da pobreza. “As empresas menos sazonais em Odemira terão produção durante 10 meses; o pico serão cinco meses. A massa de pessoas que fica são as que não têm capacidade de deslocação geográfica ou não encontram o intermediário para o trabalho.”

 

É esta mesma massa de pessoas que trabalha no máximo oito meses. Nos restantes quatro fica sem rendimento. “Qual seria o português que se aguentaava sem qualquer rede familiar forte?”, questiona.

 

"Falha está no Estado"

O projecto propõe soluções para os problemas que identifica. Sugere a celebração de acordos bilaterais de contratação de mão- de-obra estrangeira com os países emissores de emigrantes (Nepal, Índia), de forma a agilizar a regularização de quem é abrangido por esses acordos e a diminuir o valor cobrado pelas redes — ressalvam que estes acordos apenas diminuem os lucros mas não extinguem as redes. Os custos da regularização, em vez de serem suportados totalmente pelos imigrantes, deveriam ser repartidos pelos empregadores, defende. Neste momento há mais de 9600 imigrantes em Odemira, segundo o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF).

 

Os investigadores criticam ainda a legislação portuguesa por negligenciar o carácter sazonal da agricultura e daí a necessidade de o Estado português reconhecer que os trabalhadores estrangeiros deste sector têm dificuldade em ter trabalho, fazer contribuições fiscais e para segurança social durante os 12 meses do ano — sugere-se a criação de um subsídio de desemprego, pago pelos principais empregadores ou e associações agrícolas, que ao mesmo tempo seria uma maneira de promover a fixação dos trabalhadores no território, um dos problemas identificados pelos agentes no terreno e pelo autarca de Odemira.

 

Como está a situação, a entrada e circulação de novos imigrantes no Alentejo continuará a ser de elevada intensidade, “enquanto o projecto de integração desses imigrantes nestas localidades terá um carácter de curto prazo aumentando a sua exclusão social”, afirma João Carvalho.

 

O investigador pede, com “carácter de urgência”, a regulamentação sobre quantas pessoas podem ficar por metro quadrado numa residência, acrescenta. “Tem que se assegurar que a casa é usada de forma condigna”. Por outro lado, para contornar a dificuldade de os trabalhadores arranjarem residências, sugere que sejam as próprias empresas a criar habitação a preços controlados. Neste momento, “temos um parque habitacional reduzidíssimo para as pessoas que lá estão”, comenta.

 

Nem todas as empresas são iguais. As empresas de frutos vermelhos, por exemplo, são essencialmente estrangeiras, produzem para exportação e vêm “certificar-se de que as condições de trabalho são condignas”. Mas não se certificam “das condições de habitação porque não são responsáveis por elas.”

 

A falha está no Estado, critica: não regulamenta, permite que exista excesso de oferta de mão-de-obra, cria “pressão desmesurada” sobre a zona e gera uma “situação incontrolável em que não fazemos ideia de quantas pessoas lá vivem”.

 

Uma das soluções? A criação de albergues para os trabalhadores sazonais, refere. Garantem as condições mínimas? “Se forem geridos por entidades públicas podem ter apoio social, jurídico, protege as pessoas das máfias e da mão-de-obra ilegal. Se estiverem integrados nesses albergues já estão a aceder um pouco aos seus direitos sociais”, defende.

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