Teresa, Cláudia, Clémence: retalhos do desemprego
galopante de Lisboa
Os dados do Observatório de Luta contra a Pobreza na
Cidade de Lisboa mostram uma “situação preocupante”, com grande aumento do
desemprego sobretudo entre os mais jovens e menos qualificados.
João Pedro Pincha
5 de Abril de
2021, 7:07
Foi logo no
início da pandemia que Teresa perdeu o emprego. Duas ou três semanas depois de
identificados os primeiros casos de covid-19 em Portugal, o país a fechar-se em
casa e os turistas a não vir, a empresa para a qual trabalhava há poucos meses
comunicou-lhe que era preciso reduzir pessoal. Ela, que nos últimos anos se
especializara em receber hóspedes em apartamentos turísticos e em garantir-lhes
uma estada agradável, viu-se de repente sem rendimentos e sem subsídio de
desemprego.
De então para cá,
e já lá vai um ano, os meses sucedem-se num horizonte de incerteza. “A oferta
de trabalho é pouca para a procura”, conclui. Tem-se candidatado a muitos
empregos, já tem feito entrevistas, mas até agora sem sucesso. “Ontem fui
contactada por um hostel e disseram-me que não havia ordenado base, era
consoante os clientes que conseguíssemos angariar”, relata. Pelas suas contas,
fazendo turnos de oito horas, não conseguiria trazer para casa mais do que 400
euros por mês.
Durante uns meses
no ano passado ainda trabalhou como empregada doméstica numa casa. Já tinha
alguma experiência porque sempre aproveitou as épocas baixas do alojamento
local para fazer umas horas que lhe permitissem um dinheiro extra.
Desentendeu-se com a patroa, teve de se vir embora. “Fui forçada a escolher
entre ter com que me sustentar e a minha saúde. Não há dinheiro que pague a
nossa dignidade.”
Agora, Teresa
Guedes engrossa as estatísticas daqueles que perderam o emprego em 2020 e não
recebem qualquer prestação social. No concelho de Lisboa, quase um quarto dos
desempregados está nesta situação. “É um dado preocupante”, diz Sónia Costa,
técnica do Observatório de Luta contra a Pobreza na Cidade de Lisboa (OLCPL). O
valor registado no ano passado (24,2%) até é o mais baixo dos últimos cinco
anos, mas isso não é necessariamente bom. Significa apenas que “há uma grande
fatia de desempregados recentes e que, portanto, ainda estão no tempo para
receber prestação social”. Quando ela terminar, e se o desemprego não diminuir,
“a proporção vai voltar a aumentar.”
Às pessoas nestas
circunstâncias resta pedir o Rendimento Social de Inserção ou procurar ajuda de
instituições. Teresa está desde o mês passado a receber um apoio de 188 euros
da Santa Casa e 250 euros da filha mais velha, que já trabalha. O que lhe tem
valido é que a renda da casa, de 317 euros, está suspensa desde o Verão devido
a um imbróglio jurídico que envolve o prédio em que mora. Suspensa, mas não
perdoada. “Estamos a dever. Não sei a quem, mas estamos a dever. Quando me for
exigido o valor das rendas, vou dizer simplesmente que estou desempregada”,
desabafa.
Uma cidade
desigual
É nas
estatísticas do mercado de trabalho e das prestações sociais que o Observatório
mais tem notado os efeitos da pandemia. Entre o fim de 2019 e o fim de 2020
houve um aumento de 32,1% do desemprego em Lisboa, um valor maior do que o
crescimento nacional (30,2%) mas inferior ao verificado no distrito (54,7%).
Nenhuma freguesia
da cidade passou incólume. Em todas houve um aumento superior a 10% no número
de pessoas inscritas em centros de emprego. As campeãs foram Santa Maria Maior
(63,7%), Santo António (62,7%) e Arroios (57,6%). “A cidade é muito diversa
entre as suas freguesias e até mesmo dentro das freguesias há realidades
distintas”, sublinha Sónia Costa. Por exemplo, a freguesia onde se registou o
maior aumento do desemprego masculino foi Santa Maria Maior (86,8%) e aquela
onde o feminino cresceu mais foi Carnide (55,2%). O desemprego entre
estrangeiros, considerados ambos os sexos, teve o seu maior crescimento em
Arroios (22,2%), mas em Santo António as mulheres foram particularmente
atingidas. No fim de 2019 havia 26 desempregadas estrangeiras naquela
freguesia, em 2020 eram 235.
“A minha ideia
agora é diversificar as minhas actividades”, diz Clémence Félisaz, que nos
últimos quatro anos trabalhou sobretudo como guia-intérprete em Alfama. Fazia
visitas a pé com um máximo de oito turistas por acreditar que o bairro “não é
feito para grupos de 50 pessoas”. Não dava para viver um ano inteiro, mas era a
sua maior fonte de rendimentos. No ano passado, “tirando umas visitas no Verão,
pouco mais”.
Depois de ter
trabalhado algum tempo num bar da Graça, em Novembro ficou mesmo no desemprego.
Tentou inscrever-se num centro de emprego, diz que nunca lhe responderam ao
e-mail com a documentação. Não sabe se entra nas contagens oficiais. “Vou
começar a dar aulas de francês. Isto ainda é capaz de piorar, é boa ideia ter
outras coisas”, diz. No Verão terá de deixar o apartamento em que vive, o
senhorio que voltar a pô-lo no alojamento local.
Diogo Mazeron,
economista que trabalha no OLCPL, diz que não é possível dizer com certeza em
que sectores se verificou o aumento do desemprego em cada freguesia, mas que se
podem fazer inferências a partir dos dados concretos. E eles dizem que “o
desemprego, primeiramente, é mais impactante no emprego mais precário: dos mais
jovens e com menos escolaridade.”
Em Lisboa, só em
Santa Clara, Alvalade e Belém é que o desemprego de pessoas até aos 25 anos não
aumentou mais do que 50%. E só Marvila, Santa Clara e Parque das Nações é que
registaram crescimentos inferiores a 50% no escalão etário 25-34. Há várias
freguesias em que o desemprego nestes dois grupos mais do que duplicou. “Apesar
de o número de desempregados com menos de 25 anos ser o mais baixo de todas as
faixas etárias, foi o que teve maior aumento: dobrou entre 2019 e 2020”, resume
Diogo Mazeron.
O que leva
novamente à estatística sobre as prestações sociais. “Se o grupo mais afectado
é o dos mais jovens, tendencialmente o período a que têm direito a subsídio de
desemprego é mais curto”, alerta Sónia Costa.
“Situação
preocupante”
Nos últimos
tempos, Teresa Guedes tem aproveitado para fazer o chamado processo RVCC
(Reconhecimento, Validação e Certificação de Competências Profissionais), do
Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP), com o qual espera
conseguir um trabalho mais qualificado e bem pago.
Cláudia
Figueiredo, pelo contrário, tinha até há pouco um emprego que não correspondia
às suas habilitações. Antiga técnica superior de museologia num instituto
público, ficou desempregada em 2012 e foi trabalhar para um restaurante. “Esta
hipótese apareceu por acaso. Não tinha experiência nenhuma, disse isso logo ao
patrão, mas correu bem.” Cinco anos depois, o restaurante fechou. Compreende a
decisão. Se antes tinham “a casa a abarrotar” em todas as refeições, em 2020 o
hábito foi “atender três pessoas ao almoço e duas ao jantar”. E isto no período
em que estiveram abertos.
Está desde
Janeiro à procura de emprego. “Tenho procurado na minha área, em museus, editoras,
secretariado, a tentar lançar mão ao que aparecer”, relata Cláudia. Está com
alguma esperança de que a situação de desemprego dure menos do que da última
vez, em que esteve um ano e meio sem trabalhar. Mas o tempo vai passando e as
folgas terminam. “Tenho-me conseguido manter à tona porque tinha uma moratória
no crédito à habitação. Terminou ontem [31 de Março]. Hoje já a fui pagar.”
A equipa do
Observatório está neste momento a discutir com a Câmara de Lisboa em que
freguesia se vai implementar o projecto-piloto de uma estratégia de combate à
pobreza. Os vereadores de todas as forças políticas foram informados deste
retrato social há algumas semanas.
Ainda sem contar
com os apoios do programa Lisboa Protege, lançado pela autarquia, Diogo Mazeron
explica que dos 183 milhões de euros gastos pelo Estado em apoios sociais no
concelho, em 2020, quase 84 milhões provieram de medidas extraordinárias
criadas especificamente por causa da covid. “Isso denota uma situação
preocupante, significa que houve claramente uma quebra de rendimentos das
pessoas, que se não fosse o apoio do Estado a gente não consegue nem imaginar a
situação em que estas pessoas estariam.”

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