quarta-feira, 21 de abril de 2021

Ministério Público acusa 31 pessoas. Falsificaram documentos para poderem construir moradias de luxo no Gerês

 



URBANISMO

Ministério Público acusa 31 pessoas. Falsificaram documentos para poderem construir moradias de luxo no Gerês

 

Entre os arguidos, estão, além dos proprietários dos terrenos e das moradias ilegais, autarcas, nomeadamente presidentes de juntas de freguesia e técnicos das câmaras municipais de Terras de Bouro e de Vieira do Minho.

 

Sónia Trigueirão

21 de Abril de 2021, 16:07

https://www.publico.pt/2021/04/21/local/noticia/ministerio-publico-acusa-31-pessoas-falsificaram-documentos-construir-moradias-luxo-geres-1959033

 

Foram investigadas construções junto à Albufeira da Caniçada e no Parque Nacional da Peneda-Gerês

 

Ao todo, são 31 os acusados pelo Ministério Público (MP) de Braga no âmbito de dois processos relacionados com construções ilegais no Gerês, nomeadamente na área envolvente da Albufeira da Caniçada, “violando normas legais de condicionante urbanística”. Entre os arguidos, além dos proprietários das construções ilegais, na sua maioria moradias, algumas de luxo e com piscinas, estão também presidentes de junta de freguesia e técnicos das câmaras municipais de Terras de Bouro e de Vieira do Minho.

 

Em causa estão crimes de violação de regras urbanísticas, de falsificação ou contrafacção de documento, crimes de abuso de poder e crimes de prevaricação de titular de cargo político.

 

No caso de Vieira do Minho, são 18 os acusados e, entre eles, estão o antigo vice-presidente e vereador da câmara Pedro Álvares e a notária Susana Sousa, assim como António Barbosa, presidente da Junta de Freguesia de Louredo. Já no que diz respeito a Terras de Bouro, há 13 acusados, estando entre eles João Paulo Araújo, presidente da Junta de Valdosende, e Serafim Alves, presidente da Junta de Rio Caldo.

 

A investigação teve origem numa comunicação da Inspecção-Geral da Agricultura, do Mar, do Ambiente e do Ordenamento do Território (Igamaot) com o objectivo de averiguar a legalidade de diversas operações urbanísticas (edificações de moradias e muros) levadas a cabo na área da Albufeira da Caniçada e do Parque Nacional da Peneda-Gerês, entre 2008 e 2017, compreendendo a área territorial dos municípios Terras de Bouro e Vieira do Minho.

 

A comunicação deu origem a dois processos diferentes. De acordo com os respectivos despachos de acusações a que o PÚBLICO teve acesso, em ambos os casos, segundo o MP, terão sido violados o Plano de Ordenamento da Albufeira da Caniçada e procedimentos de intervenção imperativa de autoridades administrativas, nomeadamente a Agência Portuguesa do Ambiente, a Entidade Regional do Norte da Reserva Agrícola Nacional e a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte.

 

Preexistências inexistentes

Nos dois municípios, foram detectados casos em que —​ estando os terrenos em zonas de protecção onde estava interdita a construção de novos edifícios, sendo apenas permitidas obras limitadas, como ampliação ou alteração de edificações existentes — “foi simulada a preexistência nos terrenos de construções que nunca lá existiram”.

 

Há casos em que se inventaram, através da falsificação de documentos, construções com mais de 60 e até 80 anos para provar que as edificações eram anteriores à data de entrada em vigor do Regulamento Geral das Edificações Urbanas. Foi com estes falsos documentos que depois foram instruídos os processos de licenciamento de obras.

 

Por exemplo, segundo a acusação do processo referente ao município de Terras de Bouro, em que o MP pede a demolição de três moradias unifamiliares, assim como dos muros que envolvem as mesmas, um dos arguidos tinha um terreno com 460 metros quadrados sem qualquer construção. Em 2014, queria construir uma moradia para habitação temporária, mas naquele local apenas era possível fazer reconstrução de edifícios já existentes.

 

Porém, o arguido deu entrada de um processo de licenciamento de obras particulares, indicando como tipo de operação a realizar “reconstrução de uma habitação familiar”, juntando uma caderneta predial onde constava, segundo o MP, falsamente, que ali já existia uma edificação destinada a habitação com 110 metros quadrados de área de implantação.

 

Para tratar do licenciamento, contou, segundo o MP, com a ajuda de um técnico da câmara municipal, Alfredo Machado, que no exercício das suas funções e em conluio com o proprietário, mesmo sabendo que nunca ali existiu qualquer edificação naquele terreno, “como aliás decorria das plantas de localização juntas pelo proprietário, onde não era visível qualquer polígono alusivo à alegada preexistência, elabora uma proposta de decisão no sentido favorável sobre a admissibilidade da operação urbanística ali requerida”.

 

Este é apenas um dos exemplos que levaram o MP a deduzir acusação contra 13 arguidos. Neste processo, Serafim Alves, presidente da Junta de Rio Caldo, está acusado de cinco crimes de falsificação ou contrafacção de documento agravado em concurso aparente com um crime de abuso de poder, incorrendo o arguido na pena acessória de proibição de exercício de função.

 

João Paulo Araújo, presidente da Junta de Valdosende, está acusado de um crime de falsificação ou contrafacção de documento agravado em concurso aparente com um crime de abuso de poder, incorrendo o arguido na pena acessória de proibição de exercício de função. Já Alfredo Machado, técnico da câmara municipal, responde por um crime de violação de regras urbanísticas por funcionário, em concurso aparente com um crime de abuso de poder, incorrendo o arguido na pena acessória de proibição de exercício de função. O MP acusou ainda dois arquitectos ligados à elaboração de projectos de obras e os proprietários de violação de regras urbanísticas e falsificação.

 

E do estábulo se fizeram casas

No caso do município de Vieira do Minho, um dos exemplos relatados pelo MP, que pede a demolição de seis moradias e acusação de 18 arguidos, está relacionado com um terreno com a área de 2300m2, identificado como Outeiro de Maria Sobrinha, e composto por pinhal e mata de carvalhos. Neste terreno, até 2012, existia apenas um pequeno estábulo para abrigo de animais, com uma área nunca superior a 15m2 e que foi construído entre 1965 e 1982.

 

Porém, o representante da empresa proprietária do terreno fez um pedido de inscrição dum prédio destinado à habitação com 55 m2 de área de implantação, com duas divisões, com 80 anos de existência. A empresa proprietária, com a ajuda da notária Susana Sousa e de Pedro Alvares, conseguiu a legalização das obras que veio a fazer.

 

Segundo o MP, depois de proceder “ao arranque e corte de um número indeterminado de árvores, bem como a uma movimentação de terras que alterou significativamente a morfologia do terreno, procedeu à construção de raiz de duas moradias unifamiliares, T3, com dois pisos, uma com área de implantação de 158m2 e outra com 172m2, com espaços exteriores, escadas, passeios, miradouros e duas piscinas”.

 

Neste processo, Pedro Álvares, que exerceu funções de vice-presidente da Câmara de Vieira do Minho no mandato 2009-2013, está acusado da prática de dois crimes de prevaricação. O MP acusou quatro sociedades dedicadas ao negócio do imobiliário e outros quatro empresários ligados às mesmas empresas pelos crimes de violação de regras urbanísticas, falsificação e prevaricação.

 

A notária Susana Sousa está acusada de dois crimes de falsificação e o presidente da Junta de Freguesia de Louredo, António Barbosa, responde por um crime de falsificação. Os dois técnicos superiores da câmara vão responder por falsificação e um deles também por violação de regras urbanísticas. Há ainda dois engenheiros e um arquitecto ligados à elaboração de projectos de obras acusados de violação de regras urbanísticas e falsificação, e dois arguidos, proprietários de terrenos na freguesia de Louredo e promotores de obras particulares, que vão responder por violação de regras urbanísticas e falsificação.

 

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