“Gato por lebre” no peixe e no marisco que comemos: Uma
fraude à escala mundial
18.03.2021 às
08h40
RUI ANTUNES
JORNALISTA
Carne de porco em vez de camarão, vieiras de segunda
linha vendidas como sendo de primeira água, pargo que raramente é pargo,
linguado à mesa que afinal não o é. As práticas fraudulentas continuam a minar
a confiança naquilo que nos cai no prato
Uma análise do
jornal The Guardian a 44 estudos recentes, realizados de 2018 em diante, revela
como a fraude alimentar é prática comum em vários pontos do globo: num total de
mais de 9 mil amostras de peixe e marisco recolhidas em peixarias,
supermercados e restaurantes, em mais de 30 países, 36% não correspondiam, na
verdade, ao produto anunciado. A América do Norte é a região mais afectada, com
41% do pescado a não ter correspondência com a informação presente nos rótulos,
seguida da Europa (38%), América do Sul (36%) e Ásia (31%). Como alerta o
jornal britânico, não é rigoroso inferir destes dados que cerca de um terço dos
alimentos provenientes do mar são adulterados, uma vez que a maioria dos
estudos incide sobre espécies sobre as quais é já conhecida uma tendência para
ludibriar o consumidor final, mas não deixam de ser resultados com uma dimensão
preocupante.
Entre muitos
casos de manipulação quanto à origem do produto – se o peixe ou o marisco foram
criados em viveiros ou no mar selvagem -, nada se sobrepõe ao volume de casos
em que o alimento vendido não corresponde ao anunciado. Comprar “gato por
lebre” é, de longe, a fraude mais vezes identificada. Alguns exemplos: bolas de
camarão que afinal eram carne de porco, uma prática detetada “com frequência”
em Singapura; vieiras vendidas na Alemanha como pertencendo a uma espécie mais
cara e apreciada do que na realidade eram, o que foi comprovado em 48% das
amostras; quase 70% do pargo comercializado no Reino Unido não era pargo mas
outra espécie qualquer, num total de 38 encontradas; ou os lombos de tubarão em
Itália de uma subespécie menos cobiçada descobertos em 45% de 130 amostras.
Para saber mais
O mundo escondido
da fraude alimentar: Sabe mesmo o que come?
Numa pesquisa que
recolheu 293 amostras de 180 restaurantes em 23 países europeus, os cem
cientistas envolvidos, depois de as analisarem em laboratório, chegaram à
conclusão que um em cada três estabelecimentos vendia peixe e marisco que nem
constavam nas ementas. Ou seja, o que aparecia nos menus não correspondia ao
que chegava às mesas. Em países como Espanha, Islândia, Finlândia ou Alemanha,
isto aconteceu em 40 a 50% das amostras. Podia dar-se o caso de não passarem de
infelizes coincidências, mas “a esmagadora maioria” das trocas são de espécies
mais caras por outras mais baratas – não por acaso o mero, o atum rabilho ou o
linguado, por exemplo, espécies com alta cotação, são das mais deturpadas -, o
que indicia um modus operandi fraudulento. Ou os proprietários dos restaurantes
enganam os clientes ou são eles próprios enganados pelos fornecedores.
O certo é que,
como sublinha o jornal britânico, o peixe e o marisco são dos alimentos mais
fáceis de manipular, devido à sua comercialização à escala planetária, “muitas
vezes através de cadeias de distribuição complexas e opacas”. De barco em
barco, até chegar ao consumidor, não faltam oportunidades para adulterar a
informação verdadeira.
A fraude
alimentar é um problema que tem vindo a ser denunciado, sobretudo desde que, em
2013, ganhou atenção mediática na Europa, quando uma investigação na Irlanda,
depois ampliada a outros países europeus, detetou a presença carne de cavalo em
hambúrgueres e lasanhas. Em 2018, uma reportagem da VISÃO explicava como a ASAE
tentava combater este tipo de fraudes em Portugal.

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