domingo, 4 de abril de 2021

A Europa corre o risco de aumentar ainda mais a distância em relação às economias americana e chinesa.

 



A Europa corre o risco de aumentar ainda mais a distância em relação às economias americana e chinesa.

 

Teresa de Sousa

4 de Abril de 2021, 0:30

https://www.publico.pt/2021/04/04/opiniao/analise/correu-mal-1957068

 

1. Há dias, uma notícia surpreendente passou quase desapercebida por cá. A Comissão Europeia prepara legislação destinada a vedar ao Reino Unido a participação no desenvolvimento europeu de tecnologia quântica (o novo grande salto na computação) e da investigação espacial, alegando questões de segurança. Os britânicos fazem parte de uma lista que também inclui a China e a Suíça. No acordo de saída, Londres manteve o acesso ao programa de investigação Horizon Europe (o programa de investigação e inovação para 2021-2027). A Comissão alega que a União precisa de manter o controlo sobre a propriedade intelectual em projectos-chave no domínio da segurança e que trabalhar com países como o Reino Unido ou a Suíça coloca um risco inaceitável. O Reino Unido é, como sabemos, um dos países mais avançados no domínio da ciência e tecnologia. Representa quase 40% do investimento europeu em I&D no domínio militar.

 

A Europa corre o sério risco de ficar para trás na corrida com a América e a China, num domínio que é vital para o futuro e que tem um impacto enorme nas transformações económicas em curso. Os EUA têm plena consciência deste desafio. A China aposta cada vez mais nele. Os europeus debatem se o Reino Unido deve ficar de fora de um sector fundamental. A boa notícia é que a proposta teve até agora a oposição frontal de 19 países.

 

 

Michel Barnier, que deixou de trabalhar para a Comissão como negociador do “Brexit” na semana passada, voltava na mesma semana à sua tese predilecta, numa conferência em Genebra sobre o balanço da “separação”: agora é que os britânicos começam a dar-se conta do que lhes vai custar terem saído da União Europeia. A sua grande motivação durante as negociações foi mostrar aos outros países com idêntica tentação que o preço que a União os obrigaria a pagar seria grande. O antigo negociador prepara-se agora para fundar um partido – Patriotas e Europeus – e acalenta a ideia de vir a candidatar-se às presidenciais de 2022. Num país em que o amor-ódio pelos ingleses faz parte da sua cultura histórica, imaginará que a forma “implacável” como liderou as negociações será um trunfo eleitoral. Não passa pela cabeça de Barnier que a fraqueza do Reino Unido contribui para a fraqueza da Europa, que já é grande, em muitos domínios fundamentais.

 

2. Entretanto, o chanceler austríaco, Sebastian Kurz, voltou a ameaçar os seus parceiros europeus que negociará directamente com Moscovo a compra da vacina russa Sputnik V, se não receber da União aquelas a que se acha com direito. Outros países do Leste, como a Hungria, já compraram a vacina russa e uma das duas chinesas. Kurz já tinha proposto a Israel uma cooperação bilateral para fabricar vacinas. Por sua vez, o ministro da Saúde alemão anunciou que Berlim não voltará a participar em qualquer compra conjunta de vacinas, terminada que esteja esta fase.

 

Também na Alemanha, mais exactamente em Karlsruhe, o nosso bem conhecido Tribunal Constitucional suspendeu a promulgação do Fundo de Recuperação e Resiliência, aprovado em Julho do ano passado e em processo de ratificação nacional, na sequência de uma queixa apresentada por um conjunto de cidadãos eurocépticos, alegando que o fundo viola o Tratado da União Europeia e a autonomia orçamental alemã. Embora seja opinião generalizada na Alemanha de que o tribunal vai rejeitar o recurso, é mais uma sombra e um eventual atraso no já muito atrasado fundo de 750 mil milhões de euros para ajudar à recuperação das economias europeias, sobretudo as mais frágeis e mais atingidas pelos efeitos económicos e sociais da pandemia.

 

 

 

 

A saga das vacinas continua, com a Europa a ficar cada vez mais para trás em relação aos Estados Unidos e ao Reino Unido, mesmo que haja a perspectiva de uma clara melhoria da situação já neste segundo trimestre. Enquanto isso não acontece, cada país europeu lida com a AstraZeneca à sua maneira – uns proíbem-na para os maiores de 65, outros para os menores de 65, outros, ainda, proíbem-na em absoluto. A EMA continua a garantir a segurança e a eficácia da vacina. Os cientistas defendem a segurança e a eficácia da vacina. A Europa proíbe a sua exportação para o Reino Unido. A confusão e as contradições reinam livremente sem proveito para ninguém.

 

A pergunta inscrita na capa do último número da Economist é óbvia: o que correu mal? E porquê, sabendo nós que a Europa, depois de uma falsa partida, começou por reagir bem ao desafio brutal que a pandemia representa, alimentando a esperança de que a crise se revelaria uma oportunidade para reforçar a sua coesão interna.

 

 

3. A razão mais imediata parece estar no facto de a União estar sem direcção política. A Alemanha está mergulhada numa já indisfarçável crise política que agrava ainda mais as suas hesitações sobre o que quer da Europa e o que está disposta a dar-lhe. A sucessão de Merkel ajuda a explicar esta desorientação, mas já não chega. Berlim e Paris não falam a mesma linguagem em matéria de pandemia nem tiram dela as mesmas conclusões. Macron impacienta-se cada vez mais com a falta de ambição e a falta de colaboração de Berlim. Olha com cada vez mais inveja (no bom sentido da palavra) para a ambição de Biden. Mas enfrenta uma situação interna difícil, com o recrudescimento da pandemia e a pressão sobre os hospitais (de resto, como na Alemanha), o fracasso da sua estratégia para evitar um confinamento geral e, naturalmente, a aproximação das eleições presidenciais, dentro de um ano, sobre as quais paira o espectro de Marine Le Pen.

 

Com o eixo Paris-Berlim a funcionar aos soluços e o fracasso do processo de vacinação, que seria a luz ao fundo do túnel que todos os governos ansiavam, a falhar, ninguém se entende no Conselho Europeu, que é o órgão de direcção política da União. A presidência portuguesa tem conseguido, ao nível do Conselho da União Europeia, fechar alguns dossiers importantes que se arrastavam há anos. Pode ainda obter alguns resultados políticos em Maio, com a cimeira social e a visita de Narendra Modi ao Porto. Não tem, nem podia ter, a força suficiente para impor alguma ordem no caos. O governo português tem optado por dar a mão a Ursula von der Leyen, perante as críticas cada vez mais audíveis de muitas capitais.

 

Não se vislumbram grandes esperanças de uma renovação da liderança política da Europa no curto prazo. Corremos o risco de continuar a ouvir falar de leis que excluem o Reino Unido da mais avançada investigação científica, como se a ciência tivesse fronteiras

 

4. O problema é que este vazio de liderança tende a ser preenchido pela eurocracia de Bruxelas, que raramente resiste à tentação de se ver a si própria como uma “tecnocracia iluminada” e se entretém a jogar com os comandos da União Europeia nem sempre da melhor maneira. O caso da compra das vacinas é exemplar. A Comissão, ao contrário dos governos, não tem qualquer experiência na aquisição pública de bens e serviços. Conhecem-se hoje o número suficiente de episódios dessas negociações para avaliar os erros cometidos. A compra conjunta de vacinas, que foi uma decisão exemplar e que seria um contributo enorme para o sentimento de coesão e de solidariedade entre os europeus, acabou por transformar-se num pesadelo. Em Bruxelas, argumenta-se que este desaire será rapidamente esquecido, quando as pessoas estiverem vacinadas. Não será bem assim. As pessoas têm memória, haverá alguns candidatos a avivarem essa memória e, sobretudo, o atraso na vacinação quer dizer atraso na recuperação económica. Numa perspectiva de mais longo prazo, a Europa corre o risco de aumentar ainda mais a distância em relação às economias americana e chinesa.

 

Acresce que, ao contrário dos governos e do Conselho Europeu que os representa ao mais alto nível, a Comissão não sofre o escrutínio directo das opiniões públicas (mesmo que seja escrutinada pelo Parlamento Europeu), o que tende a agravar um certo sentimento de “infalibilidade” em que normalmente vive mergulhada.

 

O problema é que não se vislumbram grandes esperanças de uma renovação da liderança política da Europa no curto prazo. Corremos o risco de continuar a ouvir falar de leis que excluem o Reino Unido da mais avançada investigação científica, como se a ciência tivesse fronteiras.

 

tp.ocilbup@asuos.ed.aseret

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