EDITORIAL
O capitalismo português no seu esplendor
Se um empresário judicioso e fora das relações sociais
com a banca conspícua e o poder político volátil jamais avançaria com uma
proposta de controlo da Groundforce sem uma sólida reserva de capital, Alfredo
Casimiro pôde fazê-lo sem problemas.
Manuel Carvalho
24 de Março de
2021, 21:41
https://www.publico.pt/2021/03/24/economia/editorial/capitalismo-portugues-esplendor-1955832
O conflito áspero
entre o ministro que tutela a TAP, Pedro Nuno Santos, e o dono da participação
maioritária na Groundforce, Alfredo Casimiro, pode irritar muita gente pela
forma truculenta como se discutem na praça pública as ameaças sobre o futuro de
uma empresa importante e dos seus 2400 trabalhadores. Todavia, está também a
ter o mérito de nos desvendar a maneira como o Estado gere a venda dos bens que
integram o domínio público – e de provar como em Portugal se criam e protegem
capitalistas sob o manto da proximidade política. Honra seja feita ao ministro
Pedro Nuno Santos: ele é truculento, e por vezes provocador, mas ao revelar que
Alfredo Casimiro pagou 3,7 milhões de euros por 50,1% da Groundforce depois de
ter recebido da empresa 7,6 milhões de comissões de gestão, o ministro pôs a nu
uma vez mais o pantanoso mundo dos negócios patrocinado pelo Estado português.
Numa feliz
expressão, a jornalista Helena Garrido descreveu no Observador a extraordinária
conquista da maioria do capital da Groundforce por Alfredo Casimiro como “o regresso
de capitalistas sem capital”. Mais do que o génio negocial do empresário ou o
seu sentido de oportunidade, a expressão revela a permeabilidade do Estado a
negócios duvidosos. A iminência da bancarrota em 2012 ajuda a explicar a forma
desesperada como se vendeu a parte de leão da Groundforce a quem se dispôs a
pagá-la não com o seu dinheiro, mas com o dinheiro que viesse a tirar da
empresa. Mas não é preciso muita memória ou imaginação para concluir que o
Estado dá quase sempre parte de fraco nas negociações em que se envolve.
Veja-se o caso das barragens da EDP.
O exemplo
revelado por Pedro Nuno Santos é grave não apenas porque expõe as
vulnerabilidades de quem deve defender o sector público; é-o também por nos
provar que Portugal é um paraíso para os videirinhos. Por muito mérito que
Alfredo Casimiro tenha tido ao criar um grupo empresarial a partir do zero,
temos razões de sobra para suspeitar que, como tantos outros, o seu caminho de
sucesso não dispensou o tradicional sistema de patrocinato que o Estado lhe
concedeu no controlo da Groundforce. Se um empresário judicioso e fora das
relações sociais com a banca conspícua e o poder político volátil jamais
avançaria com uma proposta de controlo da Groundforce sem uma sólida reserva de
capital, Casimiro pôde fazê-lo sem problemas. No esplendoroso mundo do
capitalismo pátrio, o mérito, o esforço, a frugalidade ou a transparência
sempre valeram menos do que a esperteza que mantém portas sempre abertas no
Terreiro do Paço.


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