OPINIÃO
“Cuidado com o populismo!”, dizem eles. É preciso lata
Acreditem: a história da venda pela EDP de seis barragens
no Douro ainda mal saiu do adro. Nós cá estaremos para acompanhar a procissão.
João Miguel
Tavares
25 de Março de
2021, 0:00
https://www.publico.pt/2021/03/25/opiniao/opiniao/cuidado-populismo-preciso-lata-1955823
De cada vez que
um político recorre ao argumento do populismo quando está a ser escrutinado
pelas suas acções, a minha convicção sobre a existência de negócios manhosos
reforça-se substancialmente. Na terça-feira, durante a audição do ministro do
Ambiente, do ministro das Finanças e do secretário de Estado dos Assuntos
Fiscais acerca da venda pela EDP de seis barragens no Douro, perdi a conta à
quantidade de vezes que os senhores membros do Governo chamaram a atenção aos
senhores deputados para os perigos do populismo. Olhando para aquilo que está
em causa, é como se João Leão, Matos Fernandes e Mendonça Mendes saíssem aos
tiros para o meio da rua e ao chegar a polícia alertassem para o perigo das
armas de fogo. Alguém lhes devia ter explicado que nas últimas duas décadas
ninguém promoveu tanto o populismo como os governos do Partido Socialista, e
que a principal razão foram negócios muito parecidos com este.
No seu editorial
de ontem, Manuel Carvalho escreveu a frase que resume o fundamental desta
questão: “Se o Estado não cobrou 110 milhões de euros de imposto de selo, foi
porque o Governo não quis.” Vale a pena repetir: porque não quis. Ponto. Tudo o
resto, e em particular a estratégia de recorrer à Autoridade Tributária
empurrando para cima de técnicos aquilo que foi claramente uma opção política,
é apenas areia atirada para os nossos olhos.
Não sei porque é
que o Estado aceitou a imoralidade de uma transacção astronómica de 2,2 mil
milhões de euros ficar dispensada de imposto de selo e de outros impostos. Pode
ser porque é um velho hábito nacional e a Iberdrola já tinha beneficiado do
mesmo esquema. Pode ser porque a EDP desistiu de contestar em tribunal os 388
milhões de euros da taxa de energia, e uma mão dá o que a outra tira (as datas
batem certo). Pode ser porque o Governo, a EDP e a Engie se irão encontrar em
breve em Sines no mega-projecto do hidrogénio e querem todos ser amigos. Pode
ser porque algum dos envolvidos neste processo ambicione um dia ter um
magnífico cargo numa eléctrica, e todos sabemos como historicamente as
eléctricas souberam ser generosas para quem foi generoso.
E o que não falta
aqui é generosidade. Generosidade na forma como se possibilitou o negócio, e
ainda mais generosidade na forma como se procura encobrir todos os seus
procedimentos. Infelizmente, as partes mais interessantes da audição de
terça-feira não passaram nos telejornais: foi quando Mariana Mortágua mostrou
documentação rasurada vinda do Ministério do Ambiente e nos informou que o
parecer de que toda a gente fala, assinado pela directora de Recursos Hídricos
da Agência Portuguesa do Ambiente (APA) em Agosto de 2020, que dizia, preto no
branco, “não estão reunidas as condições para autorizar a venda das barragens”,
esse parecer, vá lá saber-se porquê, não foi enviado para o Parlamento, e só
entrou pela porta do cavalo da denúncia anónima.
Eu escrevi
“parecer”? Erro meu – não é um parecer, porque a generosidade continua. Nuno
Lacasta, o solícito presidente da APA, já foi à SIC Notícias explicar que
aquilo que é parecido com um parecer não é parecer coisíssima nenhuma. É apenas
um “memorando interno de controlo”. Sabem qual é a outra altura em que a minha
convicção sobre a existência de negócios manhosos se reforça substancialmente?
É quando as pessoas envolvidas começam a brincar com as palavras.
Acreditem: esta
história ainda mal saiu do adro. Nós cá estaremos para acompanhar a procissão.


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