quinta-feira, 25 de março de 2021

Ministra das Finanças da Suécia: “A nossa paciência terminou”

 


ENTREVISTA

Ministra das Finanças da Suécia: “A nossa paciência terminou”

 

Ministra das Finanças sueca, Magdalena Andersson, anuncia o fim de uma convenção fiscal com Portugal. Admite recuar, mas, para isso, Lisboa tem de agir “agora” e ratificar o acordo fechado em 2019.

 

Pedro Crisóstomo

23 de Março de 2021, 6:18

https://www.publico.pt/2021/03/23/economia/noticia/ministra-financas-suecia-paciencia-terminou-1955523?fbclid=IwAR35BSgE3ktnNse8Xa4o5e6NFpVcCqW-x-qz9XErbfBModzTu_6z6zdEpqM

 

A Suécia quer rasgar uma convenção fiscal celebrada com Portugal em 2002 e passar a tributar IRS, a partir de 1 de Janeiro de 2022, aos seus pensionistas que escolheram viver em Portugal nos últimos anos.

 

Os dois governos assinaram em Maio de 2019 um acordo que altera as regras dessa convenção e dá margem à administração tributária sueca para aplicar IRS aos pensionistas agora residentes em Portugal. Mas, ao contrário de Estocolmo, que não demorou a ratificar o acordo, Lisboa ainda não o fez. E, perante a espera, o Governo sueco anunciou nesta segunda-feira uma proposta de lei para rasgar a convenção original.

 

Em entrevista ao PÚBLICO, a ministra das Finanças da Suécia, Magdalena Andersson, acredita que, apesar deste episódio, os dois países manterão boas relações. Andersson considera “fascinante” que os portugueses aceitem que os pensionistas suecos beneficiem de um IRS especial em Portugal e pede maior cooperação, em nome do mercado interno e da “justiça” fiscal.

 

Para alguns países, como a Suécia, o regime português dos residentes não habituais é problemático porque os cidadãos nacionais que se mudaram para Portugal ficam isentos de IRS nos dois países. Se tivesse recebido um sinal claro de Lisboa de que a ratificação do acordo [assinado em 2019] decorreria em breve, isso teria evitado que a Suécia agisse unilateralmente e pusesse termo à convenção fiscal de 2002?

Sim, esperámos bastante tempo. Fizemos um acordo em 2019. Esperámos dois anos e a nossa paciência terminou. Há uma possibilidade [de recuarmos], se Portugal garantir que o acordo é uma realidade. Aí, poderíamos retirar a nossa proposta [apresentada ao Parlamento sueco], mas o Governo português teria de agir agora. Seria preferível. É muito melhor do que acabar com uma convenção fiscal. Não podemos simplesmente sentar-nos e ficar à espera quando vemos que nada acontece. É uma injustiça fiscal que pessoas que auferem milhões de euros de rendimento, ao mudarem-se para Portugal, não paguem imposto [IRS], enquanto pessoas [com rendimentos] comuns na Suécia — e em Portugal — pagam imposto.

 

 

O regime português é um instrumento de concorrência fiscal prejudicial?

Portugal é livre de ter esse regime fiscal. E a Suécia também é livre de rescindir o tratado. [A convenção de 2002] prevê uma taxa de imposto para evitar a dupla tributação, mas o resultado, depois de Portugal ter alterado o seu regime fiscal, é uma não tributação. E isso é inaceitável. De uma perspectiva sueca, é muito interessante [observar] a forma como os cidadãos comuns em Portugal aceitam isto. É fascinante. Se um paciente sueco e um paciente português estiverem lado a lado num hospital [português], o português pagou impostos pelos dois, porque os suecos têm todos os direitos — cuidados de saúde, transportes públicos —, mas não pagam impostos. É fascinante que isto seja aceite pelos cidadãos portugueses.

 

Recebeu alguma explicação de Lisboa sobre a razão pela qual o Governo português estava a adiar a ratificação do novo acordo?

Não tive uma explicação suficientemente satisfatória.

 

Portugal está a quebrar um compromisso internacional?

Não vou fazer um julgamento sobre o Governo português. Apenas posso notar aquilo que está a acontecer, em particular, o que não está a acontecer.

 

Se o Governo português decidir ratificar [em breve], a proposta de lei poderá mudar?

Sim, estamos a apresentar esta proposta ao Parlamento e posso retirá-la se o Governo português implementar o tratado rapidamente.

 

Portugal alterou o regime fiscal no ano passado. Os reformados (suecos, finlandeses, franceses, etc.) serão tributados sobre as pensões pagas no estrangeiro com uma taxa de IRS de 10%. Presumo que esta alteração seja insuficiente para resolver o problema.

Uma taxa de 10% não é solução. Alguns dos cidadãos suecos têm rendimentos de milhões de euros e não pagam qualquer imposto. A taxa de 10% é demasiado baixa, é muito menos do que o que paga um pensionista comum em Portugal.

 

Tem uma estimativa do montante da perda de receita fiscal da Suécia desde 2009?

Não. Só em parte é que esta questão tem que ver com as receitas fiscais. Essa não é a principal razão. Um imposto tem de ser legítimo e justo. A possibilidade dada aos cidadãos mais ricos de pagarem zero ou 10%, enquanto os cidadãos comuns pagam muito mais, é uma injustiça fiscal que mina a credibilidade do sistema fiscal.

 

A questão central é a justiça?

Se queremos que os cidadãos comuns aceitem pagar impostos, também os mais ricos têm de participar. Sobretudo na Europa. Um dos princípios importantes da União Europeia é a liberdade de circulação. Queremos que seja fácil aos cidadãos europeus mudarem-se para outros países. Mas isso torna-se mais problemático se esse tipo de movimento existir apenas com o objectivo de os mais ricos pagarem um imposto muito baixo ou não pagarem imposto. Isso coloca um problema de cooperação europeia.

 

A Comissão Europeia deveria actuar sobre os Estados-membros que têm regimes fiscais [especiais] como o português?

Penso que é importante que o sistema fiscal seja da competência nacional e não europeia.

 

A decisão sueca não se dirige apenas a Portugal, também visa a Grécia. A questão é a mesma?

Sim, eles “copiaram” o vosso regime fiscal. Portanto, estamos a tratar [os dois países] da mesma forma.

 

É a primeira vez que a Suécia quebra uma convenção fiscal?

Não é a primeira vez, mas é invulgar. Normalmente, procuramos resolver o problema.

 

A Suécia toma esta decisão quando Portugal está na presidência do Conselho da União Europeia. Lisboa deveria ter mais responsabilidade no cumprimento dos seus compromissos internacionais?

Este assunto não está relacionado com a presidência portuguesa. Está relacionado com o facto de termos esperado durante dois anos e não termos nenhum sinal de que Portugal irá realmente agir.

 

Durante estes dois anos, falou sobre o tema com os ministros das Finanças portugueses, Mário Centeno e João Leão?

Sim.

 

E qual foi a resposta?

Penso que falei [com ambos] cada vez que estive com eles, mais ou menos…

 

A troca de informações entre as autoridades fiscais portuguesas e suecas está a funcionar bem? Tem informações sobre os pensionistas suecos que vivem em Portugal?

Penso que sim. Temos uma boa cooperação com o Governo português. É lamentável que tenhamos de dar este passo, mas, mesmo com este passo, quero manter a muito boa cooperação com o meu colega português. A outro nível, os nossos primeiros-ministros — que pertencem à mesma família política na Europa — também têm uma cooperação muito zelosa. Continuaremos a ter uma estreita cooperação. A segunda coisa [que gostaria de dizer] é que vejo muitas razões para que os cidadãos suecos se mudem para Portugal. É um país fantástico. É mais quente e mais soalheiro do que a Suécia. É um país muito acolhedor. A comida é óptima. Adoro fado e o vinho do Douro. É um país encantador, com uma grande qualidade de vida. Penso que os suecos continuarão a mudar-se para Portugal, mas [espero que] não seja para terem uma tributação zero ou muito baixa.

 

tp.ocilbup@omotsosirc.ordep

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