ANÁLISE
A América de regresso à Europa
A China e a Rússia fazem parte da agenda da conversa que
Joe Biden terá com os líderes europeus quando participar logo à noite no
Conselho Europeu. É mais um gesto de reconciliação transatlântica que desta vez
partiu de Bruxelas. O Presidente terá, pelo menos, a satisfação de ver a sua
política dar frutos numa das questões essenciais da sua política externa — unir
as democracias para defender a democracia.
Teresa de Sousa
25 de Março de
2021, 5:17
https://www.publico.pt/2021/03/25/mundo/analise/america-regresso-europa-1955827
1. Na terça-feira
passada, o secretário de Estado americano, Antony Blinken, participou em
Bruxelas na primeira reunião da NATO da administração Biden. No dia seguinte
encontrou-se com Ursula von der Leyen e Josep Borrell. Veio garantir aos
aliados europeus o empenho dos EUA na Aliança Atlântica e na União Europeia,
mas a sua visita não foi de mera cortesia. Blinken não se limitou a reafirmar o
empenho americano na Aliança. Explicou também a utilidade que os EUA vêem nela,
num mundo que é radicalmente diferente do que existia quando a NATO foi criada
e nos anos posteriores ao fim da Guerra Fria. Para Washington, a Aliança faz sentido
no quadro mais geral da resistência das democracias à ofensiva dos regimes
autoritários no mundo, o mais ameaçador dos quais se chama China. É esta a
linha-mestra da nova política externa de Joe Biden — unir as democracias para
conter a influência crescente da China (e de outras potências autoritárias,
como a Rússia), que se manifesta hoje de forma mais ou menos agressiva à escala
global. Foi a mesma mensagem que deixou nos encontros com a União Europeia.
A segunda
mensagem de Blinken foi igualmente clara. Num debate público com o
secretário-geral da NATO, Jens Stoltenberg, o secretário de Estado voltou a
lembrar que a construção do Nord Stream 2, o novo gasoduto que liga a Rússia
directamente à Alemanha, contornando a Polónia e a Ucrânia, é uma ameaça à
segurança europeia. “O Presidente Biden foi muito claro quando disse que o
gasoduto é uma má ideia para a Europa e para os EUA, pondo em causa, em última
análise, os próprios objectivos de segurança da Europa.” O gasoduto é uma
gigantesca pedra no sapato nas relações entre Washington e Berlim. Desde a
invasão da Ucrânia e a anexação da Crimeia, a Rússia passou a ser vista como
uma ameaça à segurança europeia. A Europa juntou-se aos EUA de Obama para impor
sanções a Moscovo, que se mantiveram até hoje, mas que evitaram sempre atingir
o sector energético.
A construção do
Nord Stream 2 está quase concluída. Escrevia Constanze Stelzenmuller, da
Brookings Institution, no Financial Times: “A inflexibilidade de Berlim
arrisca-se a alienar a administração americana, que quer fazer frente à Rússia.
(…) A nova administração insiste na necessidade dos aliados democráticos se
unirem contra as grandes potências autoritárias, como a Rússia de Vladimir
Putin e a China de Xi Jinping.”
2. A China e a
Rússia fazem parte da agenda da conversa que Joe Biden terá com os líderes
europeus quando participar logo à noite no Conselho Europeu. É mais um gesto de
reconciliação transatlântica que desta vez partiu de Bruxelas. O Presidente
terá, pelo menos, a satisfação de ver a sua política dar frutos numa das
questões essenciais da sua política externa — unir as democracias para defender
a democracia.
União Europeia, EUA, Reino Unido e Canadá decidiram em
simultâneo aplicar sanções a um conjunto de dirigentes chineses directamente
implicados na repressão violenta dos uigures do Xinjiang. O que se passa nessa
região é demasiado brutal para que os europeus pudessem continuar a olhar para
o lado
Na segunda-feira
passada, União Europeia, EUA, Reino Unido e Canadá decidiram em simultâneo
aplicar sanções a um conjunto de dirigentes chineses directamente implicados na
repressão violenta dos uigures do Xinjiang. Os EUA já tinham aplicado sanções
há um ano, tendo agora ampliado o número de dirigentes visados. O que se passa
nessa região autónoma habitada por uma população na sua maioria muçulmana é
demasiado brutal para que os europeus pudessem continuar a olhar para o lado. É
a primeira vez que a União aplica sanções a Pequim desde o massacre de
Tiananmen, em 1989.
A retaliação
chinesa chegou no mesmo dia, através de sanções dirigidas directamente a
responsáveis europeus, entre os quais estão cinco eurodeputados de várias
bancadas do Parlamento Europeu, acompanhadas por uma linguagem agressiva e
ameaçadora que caiu mal em Bruxelas. Curiosamente, a retaliação foi apenas
contra a Europa, poupando os EUA. A China sabe quem tem força e quem não tem,
mas terá, desta vez, ido longe demais, habituada à complacência europeia. Cabe
ao Parlamento Europeu ratificar o polémico Acordo de Investimento entre a União
e a China que Angela Merkel fechou no último dia da presidência alemã e a 20
dias da posse de Joe Biden. A pressa não caiu bem em Washington. A Alemanha, a
grande beneficiária do acordo, garantiu que a sua política comercial não seria
prejudicada com a chegada do novo Presidente. O regime chinês averbou uma
enorme vitória diplomática.
Se já havia
alguma reserva no Parlamento Europeu sobre o acordo, agora a má vontade dos
eurodeputados viu-se multiplicada por cem. Ou China levanta as sanções, ou não
há condições nem sequer para discutir o acordo, dizem os representantes de
quase todos os grupos políticos. “O custo potencial que a China pode vir a
pagar é relativamente alto”, escrevia o Wall Street Journal. Não é apenas o acordo
que está em causa. A atitude agressiva de Pequim pode “levar a União a
aproximar-se de Washington depois de um período em que a distância entre os
dois lados do Atlântico foi altamente benéfica para Pequim”.
tp.ocilbup@asuos.ed.aseret


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