OPINIÃO
A comédia do aeroporto do Montijo
Já se percebeu como o PSD e o Governo estão a tentar
cozinhar uma saída para o imbróglio que salve a face de Rui Rio e do seu
programa eleitoral.
Helena Pereira
26 de Março de
2021, 8:02
https://www.publico.pt/2021/03/26/politica/opiniao/comedia-aeroporto-montijo-1955910
A polémica da
construção do novo aeroporto do Montijo é um exemplo dos mecanismos da política
em todo o seu esplendor.
Exactamente, há
um ano e perante a inevitabilidade do parecer negativo dos autarcas da Moita e
Seixal à construção do novo aeroporto do Montijo, o ministro das
Infra-estruturas, Pedro Nuno Santos, ligava ao líder do PSD, Rui Rio, para lhe
pedir ajuda para resolver a embrulhada. Tinha-se que alterar a lei que, feita
pelo Governo de Sócrates, que dava poder de veto às autarquias para a
construção de qualquer aeródromo ou aeroporto.
Na altura, o PSD
declarou-se indisponível porque isso seria alterar “uma lei, que deve ser geral
e abstracta, para solucionar um problema concreto e avulso”.
Aliás, se
atentarmos no programa eleitoral do PSD, este partido candidatou-se em 2019,
defendendo “ser avisado a reapreciação da solução Alcochete, mesmo que tal
obrigue a uma renegociação das condições contratuais da concessão”. Montijo
nunca agradou à actual direcção dos sociais-democratas.
Já em Novembro do
ano passado, durante a discussão do Orçamento do Estado, PSD foi um dos
partidos que votou a favor de uma recomendação do PAN e de Os Verdes para que
fosse estudada outra localização alternativa ao Montijo. Na verdade, apenas o
PS votou contra o artigo que diz explicitamente: “Durante o ano de 2021, o
Governo promove a realização de uma avaliação ambiental estratégica que afira as
diversas opções de localização de respostas aeroportuárias”.
Esse assunto
ficou a marinar até que no início deste mês, e após a Autoridade Nacional da
Aviação Civil (ANAC) ter chumbado o pedido de apreciação prévia de viabilidade
da construção do Aeroporto Complementar no Montijo, o ministro Pedro Nuno
Santos lembrou-se de que, afinal, era uma boa ideia fazer o tal estudo de
Avaliação Ambiental Estratégica (AAE), mas especificando três cenários.
“O Governo
compromete-se a respeitar a solução que vier a ser identificada na Avaliação
Ambiental Estratégica”, garantia o ministério das Infra-estruturas, em
comunicado, propondo que fossem avaliadas em concreto estas alternativas:
Aeroporto Humberto Delgado como aeroporto principal e Montijo como
complementar; Montijo a adquirir, progressivamente, o estatuto de aeroporto principal
e o Aeroporto Humberto Delgado como complementar; e o Campo de Tiro de
Alcochete. E, assim, o PSD já veio dar o seu OK à mudança da lei que dava poder
aos autarcas e travou o Montijo no primeiro momento.
O chairman da ANA
(detida pela francesa Vinci) já assumiu na semana passada, em entrevista ao
PÚBLICO/Renascença, que é preferível a solução 2 e que até chegou a haver
acordo entre o ministro antecessor de Pedro Nuno Santos, Pedro Marques, e o
líder do PSD antecessor de Rio, Pedro Passos Coelho, para se mudar a lei que dá
direito de veto aos autarcas. Já se percebeu que o caminho preferido era esse.
Vamos ver o que diz a entidade que fará o tal estudo estratégico. Mas também já
se percebeu como o PSD e o Governo estão a tentar cozinhar uma saída para o
imbróglio que salve a face de Rui Rio e do seu programa eleitoral e permita
fazer a alteração legislativa, abrindo caminho eventualmente, na mesma, para o
Montijo. Como escreveu esta semana o vice-presidente, David Justino, aqui no
PÚBLICO, “há uma diferença entre alterar um diploma para resolver um problema
específico e fazê-lo para um novo quadro de competências partilhadas entre
administração central e local em relação a projectos de interesse nacional”.
Sim, tem toda a razão. Mas, no fundo, o que os portugueses querem saber é se,
no final de contas, todos os caminhos vão ou não dar ao Montijo, localização
que as populações locais tanto contestaram.

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