EDITORIAL
Três anos de Rio: uma mão cheia de nada
É natural que uma parte do PSD, por estes dias, ande a
sonhar com Passos Coelho: apesar de tudo, ficou à frente de Costa nas
legislativas de 2015.
Ana Sá Lopes
22 de Fevereiro
de 2021, 7:02
https://www.publico.pt/2021/02/22/politica/editorial/tres-anos-rio-mao-cheia-nada-1951579
É verdade que Rui
Rio tem o cargo mais difícil e mal-amado do país: o de líder da oposição. Nunca
houve um líder da oposição “bom”, com a excepção de Cavaco Silva em 1985 e de
José Sócrates 20 anos depois, em 2005.
Tiveram a seu
favor, tanto Cavaco Silva como José Sócrates, a vantagem de terem estado no
calvário muito pouco tempo. Quando chegou ao poder na Figueira da Foz, Cavaco fez
cair o bloco central e rapidamente se apresentou a eleições. Sócrates
beneficiou do facto de o Governo de Santana Lopes ter sido sumariamente
despedido pelo Presidente Sampaio (a liderança do PS tinha ficado vaga escassos
meses antes, quando Ferro Rodrigues se demitiu, furioso por Sampaio não ter
convocado eleições depois da saída de Durão Barroso e ter dado posse a
Santana).
Durão Barroso foi
uma tragédia como líder da oposição, mas acabou primeiro-ministro. Teve sorte:
Guterres, sem maioria absoluta, demitiu-se depois das famosas autárquicas de
2001 e o pântano favoreceu o PSD e Durão Barroso. Mas o desgaste e a
desagregação do PS eram imensos por essa altura (aliás, é por isso mesmo que
Guterres se demite).
É possível que
aconteça algo inesperado que leve Rui Rio ao poder. O problema é que não parece
que, salvo algo inesperado, isso esteja para ocorrer. Três anos depois de ter
tomado posse como líder do PSD, não se percebe o que Rio quer para o país,
tirando a ideia de que, não fosse Costa ter dito que se tivesse que contar com
o PSD para aprovar orçamentos se demitia, ele estaria pronto.
É difícil
encontrar no mundo o exemplo de um líder da oposição que aprova uma lei para se
prejudicar: foi isso que fez Rio quando aceitou acabar com os debates quinzenais,
o lugar onde podia confrontar o primeiro-ministro, porque achava – palavras
suas – que o primeiro-ministro tinha que “trabalhar”.
É verdade que o
sistema político português não é igual ao britânico, que dá um grande estatuto
político ao líder da oposição (mas já sabemos que, se isso acontecesse, Rui Rio
também ajudava a acabar com isso). Rio parece especialista em tiros no pé: podia
ser um líder capaz de captar o eleitorado centrista, mas alienou esse capital
quando admitiu acordos com o Chega, num enorme favor a Costa (e ao Chega).
O líder do PSD
põe agora a cabeça a prémio nas autárquicas: se é certo que é difícil fazer
pior que em 2017, não se percebe ainda como vai fazer muito melhor. É natural
que uma parte do PSD, por estes dias, ande a sonhar com Passos Coelho: apesar
de tudo, ficou à frente de Costa nas legislativas de 2015.

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