ANÁLISE
O poder da China num mundo pós-americano
Os EUA têm um novo presidente, Joe Biden, mas ainda não
são claros os contornos da actual estratégia para a China, nem qual será o seu
grau de eficácia desta face aos objectivos americanos de preservar o seu poder
e influência globais.
José Pedro
Teixeira Fernandes
6 de Fevereiro de
2021, 12:33
https://www.publico.pt/2021/02/06/mundo/analise/china-mundo-posamericano-1949425
1. Os sinais de
que estamos a entrar num mundo pós-americano são cada vez mais evidentes.
Existem no plano político, económico, militar e tecnológico. São observáveis
quer no hard power, que é um poder de coerção assente sobretudo na força
militar, mas engloba outros instrumentos políticos e económicos como a
capacidade aplicar sanções de forma eficaz; quer no soft power, que é
essencialmente um poder de atracção e de sedução com múltiplas facetas, que vão
desde o comércio à cultura, passando pelo modelo político e institucional. É
ainda necessário clarificar que a expressão mundo pós-americano é aqui usada de
forma neutra, para caracterizar um mundo onde os EUA estão a perder terreno
como potência global sem rival à altura. Todavia, não significa que deixaram de
ser a maior potência militar e/ou económica, ou que uma outra grande potência,
o caso mais óbvio é o da China, os irá substituir automaticamente na hegemonia
global, ocupando a posição por estes detida desde a II Guerra Mundial. Embora
essa seja uma possibilidade em aberto, só nos próximos anos — ou talvez mais
provavelmente décadas —, existirá uma percepção clara sobre o resultado da
enorme transformação de poder em curso e sobre a forma como o mundo se irá
reconfigurar. Para já, importa olhar para os acontecimentos que podemos
observar e analisar as suas implicações.
2. Neste início
de 2021 os EUA têm um novo presidente, Joe Biden, mas ainda não são claros os
contornos da actual estratégia para a China, nem qual será o seu grau de
eficácia desta face aos objectivos americanos de preservar o seu poder e
influência globais. Em qualquer caso, a China e a vasta região da
Ásia-Pacífico, ou Indo-Pacífico, serão certamente um problema maior para os EUA
como potência global. No escasso tempo que o novo governo americano está em funções
já ocorrem dois acontecimentos geopolíticos importantes nessa área: as
demonstrações de força da China ao largo da ilha Formoso (Taiwan) e um golpe de
Estado na Birmânia (Myanmar). No primeiro caso, trata-se de um problema tão
antigo quanto a formação da actual República Popular da China em 1949. Na sua
origem está a derrota militar e fuga para essa ilha dos partidários de Chiang
Kai-shek e do Kuomintang (ou Partido Nacionalista Chinês) após a longa marcha
de Mao Tsé-Tung (ou Mao Zedong) até à conquista do poder. As várias crises de
Taiwan forem sempre grandes momentos de grande tensão internacional,
especialmente as duas crises ocorridas durante os anos 1950 no contexto da
Guerra-Fria. Num outro plano, está a questão da Birmânia, um Estado com o qual a
China tem uma vasta fronteira terrestre com extensão superior a dois mil
quilómetros. Para a China, é um Estado vizinho de grande valor estratégico. Não
só integra a sua área geopolítica e o seu perímetro de segurança como, em
termos económicos e comerciais, permite um acesso terrestre (muito mais curto)
ao Índico, que evita a necessidade de usar a rota marítima (muito mais longa)
que passa pelos estreitos de Singapura e de Malaca, entre a Malásia e a
Indonésia, ao largo da ilha de Sumatra.
3. A Birmânia é
hoje um país claramente sob influência chinesa. Nem sempre foi assim. Até um
passado recente a sua mais carismática e conhecida personalidade internacional,
Aung Suu Kyi, era muito apreciada no Ocidente que via aí uma projecção dos seus
valores. Aung Suu Kyi foi Prémio Nobel da Paz em 1991 sendo vista como um
símbolo da luta pela liberdade e democracia (e direitos humanos). Nas eleições
de 2015, a grande vitória eleitoral do seu partido, a Liga Nacional pela
Democracia, foi percebida como o princípio do fim do autoritarismo da junta
militar que até aí detinha o poder. A perspectiva era a de uma crescente
abertura da Birmânia ao mundo exterior, sendo os EUA e o mundo ocidental
democrático parceiros expectáveis de relevo nessa transformação. Mas não foi esse
o rumo dos acontecimentos. Sobretudo o conflito com os Rohingya — um grupo
étnico minoritário indo-ariano e predominantemente muçulmano num país
largamente budista — levou a um novo isolamento internacional e a uma censura
moral e política do Ocidente. Ao contrário, do Ocidente, a China (e também a
Índia), não só mostrou(ram) compreensão com a política do governo da Birmânia,
como recusou(ram) uma condenação internacional. A posição política chinesa —
repetida após o golpe de Estado de 1 de Fevereiro de 2021 que afastou Aung Suu
Kyi e o seu partido do poder — é a de que se trata de assuntos internos da
Birmânia. Não há, por isso, direito do mundo exterior intervir neles, violando
a sua soberania. Esta é uma posição chinesa bem conhecida na política internacional.
Todavia, neste caso, também foi motivada pelo problema que a China tem com a
minoria uigur do Xinjiang e as múltiplas denúncias de maus tratos e tratamento
opressivo. No caso da Birmânia, seja por falta de alternativas ou por frio
pragmatismo calculista, o que acabou por acontecer foi que o governo partido de
Aung Suu Ky aumentou largamente a sua ligação económica à China o que, por sua
vez, deu aos chineses uma alavanca política sobre a Birmânia. Como já notado, a
China amplificou a sua esfera de influência para o Índico, com ganhos
estratégicos quer face à vizinha e rival Índia, quer face aos EUA / Ocidente.
Com a crescente influência chinesa na economia da Birmânia e uma economia
internacional cada vez mais moldada pela China, a condenação do golpe de Estado
que levou à detenção de Aung Suu Kyi e as eventuais sanções económicas dos EUA
/ Ocidente à junta militar tornam-se largamente ineficazes.
4. No actual
contexto político internacional, há um outro caso que evidencia bem como
estamos a entrar num mundo pós-americano, ou, talvez mais exactamente,
pós-ocidental. A vacina da chinesa da Sinopharm (Grupo Farmacêutico Nacional da
China) e também a vacina Sputnik V russa, desenvolvida pelo Centro Nacional de
Investigação de Epidemiologia e Microbiologia Gamaleya de Moscovo, mostram uma
intensa competição com as tradicionais multinacionais da indústria farmacêutica
do Ocidente, como a AstraZeneca, a Johnson & Johnson, a BioNTech-Pfizer e a
Moderna. A vacina russa Sputnik V terá uma eficácia de quase 92%, segundo os
ensaios clínicos publicados em 2 de Fevereiro de 2021 na prestigiada revista
científica britânica da área da medicina, The Lancet. Quanto à vacina chinesa
da Sinopharm, as autoridades médicas dos Emirados Árabes Unidos e do Bahrein
aprovaram o seu uso em finais de 2020, tendo sido indicada um eficácia na ordem
dos 86% (embora nesse caso os ensaios clínicos não tenham sido divulgados). É
necessário notar que, independentemente da qualidade da vacina da Sinopharm e
do seu preço mais baixo, há outras coisas a ter em conta nesse reconhecimento
internacional. Tem o simbolismo de vir de países do Médio Oriente rico que
fazem parte do grupo dos países de desenvolvimento humano muito elevado, mas
com uma estreita relação económica (e política) com a China, o que foi
certamente relevante. Não estamos, por isso, a falar de países pobres ou de
baixo desenvolvimento, onde já era expectável a difusão das vacinas chinesas.
Os Emirados ocupam o 31º lugar do índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do
Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) de 2020; e o Bahrain
ocupa o 42º lugar desse mesmo índice. (Para termos uma ideia comparativa,
Portugal está em 38º lugar.) Com a generalidade mundo afectada pela pandemia,
as vacinas são, assim, um terreno maior de afirmação de soft power. A sua
qualidade e eficácia dá prestígio às empresas ou organizações que as criaram e
naturalmente também ao(s) seu(s) Estado(s) de origem. Para além disso, uma
disponibilização rápida e em grandes quantidades mostra capacidades produtivas
e logísticas que impressionam. Quanto ao seu fornecimento a baixo custo e/ou a
sua doação aos países e populações mais necessitados — ou seja, grande parte do
mundo — são uma demonstração de solidariedade humana. Nesta competição, a China
e Rússia estão numa aliança tácita para contrariar a influência americana e
ocidental no mundo. Os EUA e os seus parceiros ocidentais desenvolvidos estão à
defesa, quer no plano médico-científico, quer na capacidade de produção, quer
na capacidade (e vontade) de ajudar os mais necessitados.
5. Caso se
confirmem as projecções efectuadas por diversas organizações económicas
internacionais (e também em trabalhos de perfil mais científico, ou mais
especulativo), a economia chinesa irá ultrapassar a americana algures até ao
final da década de 2020. A ser assim, será não apenas um momento simbólico que
irá ‘apagar’ as memórias de um século, ou até mais longas, de supremacia
económica americana. Terá certamente repercussões na ordem económica (e
política) mundial. Isso ocorrerá no Fundo Monetário Monetário (FMI), mas também
em várias outras organizações económicas internacionais onde a participação na
organização — e especialmente os respectivos direitos de voto, ou peso nas
decisões por mecanismos formais ou informais —, estão ligados à dimensão da
economia. Implicará, desde logo, um aumento de influência e uma gradual posição
dominante da China em diversas organizações. Tal transformação trará consigo
uma enorme ironia pois as organizações de Bretton Woods (o FMI e o Banco
Mundial) foram uma criação largamente americana do pós-II Guerra Mundial e têm
sido instrumentos da sua influência no mundo. Ao mesmo tempo, como a economia é
também uma base fundamental do poder político e militar, as repercussões
acabarão por surgir nessas áreas, mais cedo ou mais tarde. Resta-nos aguardar
para ver como (e se) no mundo real surgirão as enunciadas transformações e —
questão crucial — irão ser geridas pelos EUA (em declínio relativo de poder) e
pela China (em ascensão). Convém não perder de vista que, a ocorreram, irão
obrigar a Europa a sair da ‘zona de conforto’ euro-atlântico onde se encontra
desde os anos 1950 e a enfrentar um mundo à imagem da China.

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