EDITORIAL
CDS-PP em zoom out
Prevaleça Adolfo Mesquita Nunes ou resista Francisco
Rodrigues dos Santos, isso ainda será pouco para salvar o CDS-PP.
David Pontes
6 de Fevereiro de
2021, 22:08
https://www.publico.pt/2021/02/06/opiniao/editorial/cdspp-zoom-out-1949641
“O criminoso é
sempre o coitadinho”; “as forças de segurança, em vez de serem apoiadas, são
desautorizadas”; “já não somos um país de brandos costumes, por isso não
podemos ser um país de leis brandas”; o RSI é um “financiamento à preguiça”;
“anda-se de arma e RSI na mão”; “os ciganos do rendimento mínimo garantido”; “é
óbvio que há uma relação entre imigração descontrolada e aumento de fenómenos
de criminalidade”.
As frases
transcritas fazem lembrar um partido jovem da nossa democracia que tem andado
no centro da discussão política, mas a verdade é que foram proferidas pelo
líder de um dos partidos fundadores desta democracia, o CDS-PP. Paulo Portas
não é certamente André Ventura, mas muito do eleitorado que hoje é receptivo às
mensagens do Chega encontrou no partido da segurança, do mundo rural, dos
pensionistas contra o RSI, das quotas para a emigração a sua casa.
Que Paulo Portas
tenha feito isso, sem nunca atingir um radicalismo que o excluísse do arco do
poder, fala da mestria do político, mas também de como os tempos eram outros.
Portas não tinha concorrentes para o seu produto político destinado a nichos de
eleitores que não encontravam resposta nos partidos ao centro nem à esquerda.
Como mostram os últimos resultados das legislativas e as sondagens reafirmam, a
chegada da Iniciativa Liberal e do Chega alteraram tudo.
Roubadas as
bandeiras aos centristas, em tempos em que o radicalismo rende mais do que o
habilidoso jogo de cintura de Portas, o CDS-PP tem nas autárquicas a sua última
e remota possibilidade de resistência a partidos que têm ainda uma frágil
implantação territorial. O acordo com o PSD é uma peça importante para essa
estratégia e Francisco Rodrigues dos Santos, a meio de um mandato passado até
agora praticamente em pandemia, sem ter presença no Parlamento, não pode deixar
de estar de olhos postos nessa possibilidade.
A interminável
reunião deste sábado, numa plataforma de teleconferências, mostra ao país um
partido que soube criar bons quadros políticos, que tem no seu interior quem
continue a lutar pela sua sobrevivência, mas que de momento só fala entre si.
Venha a prevalecer Adolfo Mesquita Nunes ou a resistir Francisco Rodrigues dos
Santos, isso ainda será muito pouco para salvar um partido que parece lentamente
estar a desaparecer no horizonte.

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