domingo, 21 de fevereiro de 2021

Biden lembra à Europa que tudo passa pela defesa da democracia. Hoje como ontem.

 



OPINIÃO

Biden lembra à Europa que tudo passa pela defesa da democracia. Hoje como ontem.

 

Para Trump havia o comércio. Para Biden, há a democracia e os direitos humanos e uma visão estratégica global

 

Teresa de Sousa

21 de Fevereiro de 2021, 7:13

https://www.publico.pt/2021/02/21/opiniao/opiniao/biden-lembra-europa-passa-defesa-democracia-hoje-ontem-1951499

 

1. Na sexta-feira, em Munique, Joe Biden disse aos aliados europeus o que eles queriam ouvir, mas também aquilo que não gostam de ouvir. Sobre o que queriam ouvir, o Presidente não podia ter sido mais claro. Disse-lhes que não deseja outra vez um mundo dominado pelo confronto entre blocos como no tempo da Guerra Fria – o Ocidente contra o Leste. Que, na rude competição com a China, há área de confronto, mas também de cooperação, o mesmo se aplicando à Rússia. Deu, aliás, exemplos do que queria dizer. O combate às alterações climáticas só pode ser feito com a China, que é o maior poluidor mundial. Os EUA, o segundo, já entrou em linha descendente. O controlo do armamento e da proliferação nuclear tem de ser feito em cooperação com a Rússia. Biden renovou por mais cinco anos o Novo Tratado Start, prestes a expirar, logo que chegou à Casa Branca. Mas disse-lhes outra coisa ainda mais importante e que normalmente, e ao contrário da retórica habitual, a Europa não gosta de colocar no topo da lista das suas prioridades externas. Hoje, há um combate vital à escala mundial entre democracia e autocracia, esse combate atinge por dentro a democracia americana e as democracias europeias. Se, por acaso, os líderes europeus presentes se preparavam para esboçar um ligeiro sorriso perante a insistência de Biden na democracia como pedra angular da ordem internacional, depois das imagens chocantes do assalto ao Capitólio, o Presidente antecipou-se, ao referir ele próprio esse tremendo sinal de que as democracias, mesmo as mais sólidas, não estão garantidas ad aeternum. “E em tantos lugares, incluindo nos Estados Unidos e na Europa, o progresso da democracia está sob ataque”. Foi este o repto fundamental que o Presidente americano lançou aos aliados europeus – virtualmente presentes ou ausentes de Munique.

 

2. Vinte por cento do algodão consumido no mundo vem de Xinjiang, a região da China onde a minoria uigure muçulmana vive num regime de brutal opressão, sujeita a viver em campos de concentração e ao trabalho forçado. Inúmeras reportagens de órgãos de comunicação ocidentais que não deixam dúvidas sobre o que lá se passa estão hoje à disposição de quem quiser. Há 380 “campos de reeducação”. Sabemos o que isto quer dizer. O Congresso americano prepara-se para aprovar uma lei de prevenção sobre o trabalho forçado dos uigures, patrocinada por 87 representantes e 33 senadores dos dois partidos, que colocará mais restrições às importações chinesas que incorporem trabalho executado naquela região. Os EUA, Canadá e Reino Unido já suspenderam algumas dessas importações, incluindo o algodão. A imprensa europeia tem dado conta de que parte do material incluído nos painéis solares importados da China incorpora trabalho forçado do Xinjiang. Em Hong Kong, a repressão e a “normalização” continuam. No mar do Sul da China, Pequim prossegue a sua política de intimidação, violando as águas territoriais de alguns países ribeirinhos, indiferente às decisões das Nações Unidos. O objectivo é simples: tornar cada vez mais difícil a presença militar americana numa zona que considera sua. No quarto dia da presidência Biden, aviões de combate chineses simularam um ataque ao porta-aviões USS Theodore Roosevelt que navegava no Mar da China do Sul. A frota americana foi reforçada na zona, sobretudo em resposta às sucessivas provocações militares contra Taiwan, que a China reclama como parte do seu território e promete fazer regressar à mãe-pátria. Está previsto que um porta-aviões britânico se junte à esquadra americana para exercícios conjuntos.

 

Haverá uma notável diferença entre a política de Biden para a China em relação ao seu antecessor, mas essa diferença não significa falta de firmeza, antes alteração das prioridades e do tom. Para Trump havia o comércio. Para Biden, há a democracia e os direitos humanos e uma visão estratégica global, que passa necessária e fundamentalmente pela concertação com os aliados europeus e asiáticos. Foi isso que disse também em Munique. Que resumiu numa frase dificilmente questionável: “Precisamos de nos preparar em conjunto para uma longa competição com a China”.

 

3. Angela Merkel, logo a seguir ao discurso do Presidente, aceitou a ideia de uma “agenda comum” para tratar com a China e com a Rússia. A Alemanha, mais do que a França ou o Reino Unido, tem uma agenda externa que se arrisca a chocar de frente com a agenda americana – os dois principais pontos de tensão dizem respeito ao acordo entre a União e a China sobre investimento, assinado sob forte pressão alemã vinte dias antes de Biden tomar posse, e a construção do Nord Stream 2, o segundo gasoduto que liga directamente território russo a território alemão, contornando a Polónia e a Ucrânia. Nem Biden nem Merkel mencionaram estes dois pontos de conflito, que não vão desaparecer tão cedo do mapa das relações transatlânticas.

 

A questão futura é saber se a Alemanha está interessada ou não em encontrar uma base de entendimento com os EUA de forma a não enfraquecer uma aliança que, seja qual for a perspectiva com que se olhe para ela, continua a ser fundamental para a Europa e para o mundo.

 

 

 

3. O discurso talvez mais afirmativo do poder da Europa coube a outra alemã, a presidente da Comissão, Ursula von der Leyen. Foi ela que classificou a Europa de “superpotência económica”, o que é verdade ainda que uma verdade relativa. Em 2007, de acordo com o Banco Mundial, a economia europeia era ligeiramente maior do que a americana e ambas muito maiores que a chinesa. Em 2019, a economia americana cresceu cerca de 50 por cento, a europeia estagnou e a chinesa disparou. Desde 2010, segundo o FMI, a economia americana aumentou a sua parte da economia mundial de 23 para 25 por cento. A Europa diminui de 21,5 para 17,7 por cento, ainda incluindo o Reino Unido.

 

Von der Leyen lembrou que a China já é hoje o primeiro parceiro comercial da União, para sublinhar a importância das relações económicas com aquele país. É verdade, desde que se contem apenas as trocas de bens transaccionáveis. Se os serviços forem incluídos, então os EUA são, de longe, o maior parceiro económico da Europa e vice-versa. A Europa reclama-se uma economia aberta, o que também é verdade. Os automóveis importados da Europa pelos Estados Unidos sofrem uma taxa de 2,5 por cento; a Europa aplica uma taxa de 10 por cento aos americanos. Ou seja, a realidade é sempre ligeiramente diferente do discurso e, por vezes, alguns pormenores que parecem insignificantes ajudam-nos a perceber melhor o quadro geral.

 

4. Trump pôs fim ao TTIP (Parceria Transatlântica para o Comércio e o Investimento) que estava a ser negociada por Obama para criar a maior zona de comércio livre do mundo, incluindo a conformidade dos standards. As tensões comerciais entre os dois blocos não pararam de crescer. O “Buy America” de Biden enerva a Europa, mesmo que os analistas entendam que não vai ter grande impacto nas trocas comerciais entre os dois lados. Tal como a Europa, os EUA querem reduzir a dependência de cadeias de abastecimento, sobretudo chinesas, para alguns bens estratégicos, que agora passaram a incluir os que são necessários para proteger a saúde pública. A nova política industrial europeia visa exactamente a mesma coisa. Von der Leyen desafiou Biden a juntar-se à União na regulação das grandes plataformas tecnológicas, que não respeitam as mesmas regras adoptadas para todos os outros sectores de actividade. E lembrou-lhe o facto de a União ser a principal fonte da regulação internacional - ou seja, é ela que estabelece os padrões. Duas coisas boas em que a cooperação seria certamente vantajosa. Desde que a Europa perceba que os árbitros não ganham desafios. Não lhe serve de nada apontar o dedo a Silicon Valley como a origem de todos os males. O que a Europa precisa é de emular as condições que permitiram há décadas a explosão de inovação que aconteceu na América.

 

Munique teve pelo menos uma grande vantagem – foi uma reunião entre aliados para pôr fim à era de Trump. Biden, desde sempre um atlantista, não concebe a política externa americana sem uma forte parceria transatlântica nem vê nada no mundo actual que a desaconselhe. Foi o que disse em Munique. Cabe à Europa esclarecer o que quer. O primeiro passo pode ser assentar os pés na terra.

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