OPINIÃO
Biden lembra à Europa que tudo passa pela defesa da
democracia. Hoje como ontem.
Para Trump havia o comércio. Para Biden, há a democracia
e os direitos humanos e uma visão estratégica global
Teresa de Sousa
21 de Fevereiro
de 2021, 7:13
1. Na
sexta-feira, em Munique, Joe Biden disse aos aliados europeus o que eles
queriam ouvir, mas também aquilo que não gostam de ouvir. Sobre o que queriam
ouvir, o Presidente não podia ter sido mais claro. Disse-lhes que não deseja
outra vez um mundo dominado pelo confronto entre blocos como no tempo da Guerra
Fria – o Ocidente contra o Leste. Que, na rude competição com a China, há área
de confronto, mas também de cooperação, o mesmo se aplicando à Rússia. Deu,
aliás, exemplos do que queria dizer. O combate às alterações climáticas só pode
ser feito com a China, que é o maior poluidor mundial. Os EUA, o segundo, já
entrou em linha descendente. O controlo do armamento e da proliferação nuclear
tem de ser feito em cooperação com a Rússia. Biden renovou por mais cinco anos
o Novo Tratado Start, prestes a expirar, logo que chegou à Casa Branca. Mas
disse-lhes outra coisa ainda mais importante e que normalmente, e ao contrário
da retórica habitual, a Europa não gosta de colocar no topo da lista das suas
prioridades externas. Hoje, há um combate vital à escala mundial entre
democracia e autocracia, esse combate atinge por dentro a democracia americana
e as democracias europeias. Se, por acaso, os líderes europeus presentes se
preparavam para esboçar um ligeiro sorriso perante a insistência de Biden na
democracia como pedra angular da ordem internacional, depois das imagens
chocantes do assalto ao Capitólio, o Presidente antecipou-se, ao referir ele
próprio esse tremendo sinal de que as democracias, mesmo as mais sólidas, não
estão garantidas ad aeternum. “E em tantos lugares, incluindo nos Estados
Unidos e na Europa, o progresso da democracia está sob ataque”. Foi este o repto
fundamental que o Presidente americano lançou aos aliados europeus –
virtualmente presentes ou ausentes de Munique.
2. Vinte por
cento do algodão consumido no mundo vem de Xinjiang, a região da China onde a
minoria uigure muçulmana vive num regime de brutal opressão, sujeita a viver em
campos de concentração e ao trabalho forçado. Inúmeras reportagens de órgãos de
comunicação ocidentais que não deixam dúvidas sobre o que lá se passa estão
hoje à disposição de quem quiser. Há 380 “campos de reeducação”. Sabemos o que
isto quer dizer. O Congresso americano prepara-se para aprovar uma lei de
prevenção sobre o trabalho forçado dos uigures, patrocinada por 87
representantes e 33 senadores dos dois partidos, que colocará mais restrições
às importações chinesas que incorporem trabalho executado naquela região. Os
EUA, Canadá e Reino Unido já suspenderam algumas dessas importações, incluindo
o algodão. A imprensa europeia tem dado conta de que parte do material incluído
nos painéis solares importados da China incorpora trabalho forçado do Xinjiang.
Em Hong Kong, a repressão e a “normalização” continuam. No mar do Sul da China,
Pequim prossegue a sua política de intimidação, violando as águas territoriais
de alguns países ribeirinhos, indiferente às decisões das Nações Unidos. O
objectivo é simples: tornar cada vez mais difícil a presença militar americana
numa zona que considera sua. No quarto dia da presidência Biden, aviões de
combate chineses simularam um ataque ao porta-aviões USS Theodore Roosevelt que
navegava no Mar da China do Sul. A frota americana foi reforçada na zona,
sobretudo em resposta às sucessivas provocações militares contra Taiwan, que a
China reclama como parte do seu território e promete fazer regressar à
mãe-pátria. Está previsto que um porta-aviões britânico se junte à esquadra
americana para exercícios conjuntos.
Haverá uma
notável diferença entre a política de Biden para a China em relação ao seu
antecessor, mas essa diferença não significa falta de firmeza, antes alteração
das prioridades e do tom. Para Trump havia o comércio. Para Biden, há a
democracia e os direitos humanos e uma visão estratégica global, que passa
necessária e fundamentalmente pela concertação com os aliados europeus e
asiáticos. Foi isso que disse também em Munique. Que resumiu numa frase
dificilmente questionável: “Precisamos de nos preparar em conjunto para uma
longa competição com a China”.
3. Angela Merkel,
logo a seguir ao discurso do Presidente, aceitou a ideia de uma “agenda comum”
para tratar com a China e com a Rússia. A Alemanha, mais do que a França ou o
Reino Unido, tem uma agenda externa que se arrisca a chocar de frente com a
agenda americana – os dois principais pontos de tensão dizem respeito ao acordo
entre a União e a China sobre investimento, assinado sob forte pressão alemã
vinte dias antes de Biden tomar posse, e a construção do Nord Stream 2, o
segundo gasoduto que liga directamente território russo a território alemão,
contornando a Polónia e a Ucrânia. Nem Biden nem Merkel mencionaram estes dois
pontos de conflito, que não vão desaparecer tão cedo do mapa das relações
transatlânticas.
A questão futura
é saber se a Alemanha está interessada ou não em encontrar uma base de
entendimento com os EUA de forma a não enfraquecer uma aliança que, seja qual
for a perspectiva com que se olhe para ela, continua a ser fundamental para a
Europa e para o mundo.
3. O discurso
talvez mais afirmativo do poder da Europa coube a outra alemã, a presidente da
Comissão, Ursula von der Leyen. Foi ela que classificou a Europa de
“superpotência económica”, o que é verdade ainda que uma verdade relativa. Em
2007, de acordo com o Banco Mundial, a economia europeia era ligeiramente maior
do que a americana e ambas muito maiores que a chinesa. Em 2019, a economia
americana cresceu cerca de 50 por cento, a europeia estagnou e a chinesa
disparou. Desde 2010, segundo o FMI, a economia americana aumentou a sua parte
da economia mundial de 23 para 25 por cento. A Europa diminui de 21,5 para 17,7
por cento, ainda incluindo o Reino Unido.
Von der Leyen
lembrou que a China já é hoje o primeiro parceiro comercial da União, para
sublinhar a importância das relações económicas com aquele país. É verdade,
desde que se contem apenas as trocas de bens transaccionáveis. Se os serviços
forem incluídos, então os EUA são, de longe, o maior parceiro económico da
Europa e vice-versa. A Europa reclama-se uma economia aberta, o que também é
verdade. Os automóveis importados da Europa pelos Estados Unidos sofrem uma
taxa de 2,5 por cento; a Europa aplica uma taxa de 10 por cento aos americanos.
Ou seja, a realidade é sempre ligeiramente diferente do discurso e, por vezes,
alguns pormenores que parecem insignificantes ajudam-nos a perceber melhor o
quadro geral.
4. Trump pôs fim
ao TTIP (Parceria Transatlântica para o Comércio e o Investimento) que estava a
ser negociada por Obama para criar a maior zona de comércio livre do mundo,
incluindo a conformidade dos standards. As tensões comerciais entre os dois
blocos não pararam de crescer. O “Buy America” de Biden enerva a Europa, mesmo
que os analistas entendam que não vai ter grande impacto nas trocas comerciais
entre os dois lados. Tal como a Europa, os EUA querem reduzir a dependência de
cadeias de abastecimento, sobretudo chinesas, para alguns bens estratégicos,
que agora passaram a incluir os que são necessários para proteger a saúde
pública. A nova política industrial europeia visa exactamente a mesma coisa.
Von der Leyen desafiou Biden a juntar-se à União na regulação das grandes
plataformas tecnológicas, que não respeitam as mesmas regras adoptadas para
todos os outros sectores de actividade. E lembrou-lhe o facto de a União ser a
principal fonte da regulação internacional - ou seja, é ela que estabelece os
padrões. Duas coisas boas em que a cooperação seria certamente vantajosa. Desde
que a Europa perceba que os árbitros não ganham desafios. Não lhe serve de nada
apontar o dedo a Silicon Valley como a origem de todos os males. O que a Europa
precisa é de emular as condições que permitiram há décadas a explosão de
inovação que aconteceu na América.
Munique teve pelo
menos uma grande vantagem – foi uma reunião entre aliados para pôr fim à era de
Trump. Biden, desde sempre um atlantista, não concebe a política externa
americana sem uma forte parceria transatlântica nem vê nada no mundo actual que
a desaconselhe. Foi o que disse em Munique. Cabe à Europa esclarecer o que
quer. O primeiro passo pode ser assentar os pés na terra.


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