EDITORIAL
A memória histórica como veneno
Portugal fez-se como projecto identitário à custa da
ilusão e de dogmas que a verdade histórica demoliu. Lê-lo e criticá-lo é indispensável:
destruir o seu imaginário é uma quimera. Uma parte dos portugueses nunca o
aceitaria.
Manuel Carvalho
20 de Fevereiro
de 2021, 22:53
https://www.publico.pt/2021/02/20/politica/editorial/memoria-historica-veneno-1951512
A intensidade com
que o país repete as discussões em torno da sua memória histórica é sintoma de
uma sociedade doente. O conflito áspero sobre as heranças da Guerra Colonial ou
dos Descobrimentos expõe uma ferida a caminho da infecção. O radicalismo alimenta
discussões que expõem ódios profundos em favor dos extremos do espectro
político. E nada faz prever que a situação melhore. Em causa está uma exigência
impossível: que, num passe de mágica operado pela ideologia, o país renegue
alguns dos fundamentos mais profundos da sua identidade. Não se recomenda
silêncio sobre o problema: apenas prudência. Se o nacionalismo é um vírus
fratricida, o historicismo radical dos movimentos anti-racistas também o é.
Entrámos num
conflito no qual o diálogo e compromisso parecem impossíveis. Numa oposição
cada vez mais extremada entre conceitos de uma direita fóssil e uma esquerda
“antifa” absolutista e autoritária, o país esquece até os consensos que a
democracia produziu a propósito do passado colonial. A brutalidade dos sistemas
de exploração de outros povos, a escravatura ou a persistência de uma Guerra
Colonial muito para lá da vaga da autodeterminação do pós-II Guerra passaram a
ser aceites no consciente colectivo. A Expansão perdeu a sua face idílica e
glorificadora. A exaltação do império colonial que mobilizou o país nos tempos
do Ultimato, na Primeira República ou no Estado Novo é passado. O Portugal
europeu expurgou os principais resquícios do salazarismo.
Os radicais de
uma certa esquerda querem ir mais longe e, na sua exigência, estão a alimentar
os radicais de direita que querem andar para trás. Dos dois lados há um
instinto de imposição das suas verdades aos outros. Ambos abdicam de encarar a
História na sua complexidade. Uns e outros retroalimentam-se com o veneno da
intolerância. Há até quem não se envergonhe por assinar uma petição em favor da
deportação de um cidadão português, por incendiário que seja nas suas posições.
A História da colonização foi o que foi. Ver o seu lado sinistro, sem contexto
civilizacional, como se fosse uma deliberação consciente de um Estado moderno
como a que levou ao Holocausto, é um erro. Vê-la como o testemunho de um povo
de heróis, um absurdo. Tem de haver uma zona de conforto para todas as
posições. A liberdade e a responsabilidade da democracia.
Portugal fez-se
como projecto identitário à custa da ilusão e de dogmas que a verdade histórica
demoliu. Lê-lo e criticá-lo é indispensável: destruir o seu imaginário é uma
quimera. Uma parte dos portugueses nunca o aceitaria. Como dizia Eduardo
Lourenço, o passado não se repara com a criação de um metafórico tribunal da
inquisição para “pôr na pira a história deste pequeno país”.
tp.ocilbup@ohlavrac.leunam


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