Rui Rio, o coveiro negacionista
Aqui está uma tática com que a direita pode ganhar o
poder sem se desonrar: reconstruir a AD, com a Iniciativa Liberal no lugar do
PPM, e excluir deliberadamente dela a extrema-direita. Infelizmente, este
caminho não vai ser seguido por causa de um homem, Rui Rio.
Rui Tavares
27 de Janeiro de
2021, 0:00
https://www.publico.pt/2021/01/27/opiniao/opiniao/rui-rio-coveiro-negacionista-1948074
Até me custa fazer
isto, mas aqui está uma tática com que a direita pode ganhar o poder sem se
desonrar: reconstruir a Aliança Democrática, com a Iniciativa Liberal no lugar
do PPM, e excluir deliberadamente dela a extrema-direita (como, aliás, Sá
Carneiro exigiu que se fizesse na primeira AD). Construir um programa
reformista de direita, com coisas de que eu não gosto e às quais me oporei
ferozmente e contra as quais farei tudo o que puder para que não ganhem
eleições, mas que recusem qualquer proximidade com a xenofobia, o racismo e o
autoritarismo ditatorial agora francamente assumidos pelo líder da
extrema-direita. E depois dizerem aos seus eleitores: “se querem mesmo que a
esquerda perca a maioria e o poder, o vosso voto só pode ser aqui; qualquer
voto na extrema-direita é um voto desperdiçado”. Só assim conseguirão deixar de
ser canibalizados e voltar gradualmente a recuperar o espaço político que estão
agora a perder. Foi aquilo que, depois de algumas hesitações, perceberam alguns
partidos de direita europeus: “não se pode competir em fedor com uma doninha”,
descreveu um responsável da estratégia da União Social-Cristã (CSU) bávara
quando finalmente perceberam que ir atrás da extrema-direita da Alternativa
para a Alemanha (AfD) seria um mergulho cada vez mais fundo no abismo e
passaram a oferecer ao eleitorado uma alternativa de moderação discursiva e
intransigência nos princípios democráticos. A CSU recomeçou a subir e a AfD a
definhar.
O caminho seria
árduo e longo, mas é único plausível para ganhar honradamente. Funciona? Talvez
sim, talvez não. Mas é preferível ao outro caminho, que é deixarem-se comer
pela extrema-direita e não só perderem, como perderem com desonra.
Infelizmente, o
caminho acima descrito não vai ser o caminho seguido. E isto essencialmente por
causa de um homem, Rui Rio, cuja obsessão negacionista o faz caminhar
alegremente para o abismo. Rui Rio, que foi autarca e praticamente só tem
ouvidos para o lobby dos autarcas no seu partido, está apavorado com a hipótese
de perder câmaras se não se entender com a extrema-direita. E portanto aceita
de boa mente o cenário dantesco de multiplicar por dez ou cem vezes o cenário
do entendimento açoriano em muitos concelhos e freguesias de todo o país.
Depois disso já
será tarde demais. Chegadas as eleições legislativas, Rui Rio não será capaz de
se distanciar. Em todos os debates será lembrado aos portugueses que votar no
PSD é trazer a extrema-direita para o poder e para o governo. O partido de
extrema-direita, o seu líder, e muitos dos seus lugares-tenentes têm uma clara
propensão não só pela imoralidade política como pela indecência na relação com
a coisa pública, já ilustrada pela ocultação das suas verdadeiras fontes de
financiamento, pelos patos-bravos que as reportagens jornalísticas já
identificaram em torno do líder, pelos dirigentes partidários como o diplomata
que foi suspenso por meter a devolução de IVA do Estado ao bolso, e por aí
afora. Qualquer cidadão cauteloso, e há muitos no centro e na direita, quer é
fazer tudo por evitar que gente dessa vá para o governo e — pior — com uma
correlação de forças que o CDS nunca teve. Se já era difícil no passado
estabilizar governos com um ministro do CDS para cada quatro do PSD, o que
fazer quando um hipotético governo entre o PSD e a extrema-direita tivesse de
ter um ministro de extrema-direita para cada dois do PSD, pois é essa a relação
de votos que as sondagens dão entre os dois campos políticos?
Rui Rio é o coveiro que continua a enterrar a direita à
sua volta e em vez de a tentar salvar está encantado com o vírus que pensa que
o vai levar ao poder, à custa da normalização da extrema-direita. Todos
pagaremos o preço. Mas só eles com indignidade
Rui Rio, é claro,
não acredita em sondagens. É tão obcecado por elas quanto descrente: contam-se
às muitas mãos cheias os tweets dele negando qualquer relação entre as
sondagens e a realidade. Mas Rui Rio tem um problema. No último domingo, pode
ter havido vários perdedores nas eleições presidenciais, mas os institutos de
sondagens não estiveram entre esses perdedores. A verdade é que as sondagens
acertaram com relativo pouco desvio nos resultados finais das eleições. E as
sondagens à boca de urna sobre as próximas legislativas foram arrasadoras para
o PSD.
Rui Rio está
portanto colocado perante duas hipóteses: talvez ganhar com honra, como poderia
aprender olhando para Marcelo Rebelo de Sousa, ou certamente perder com
desonra, após o que será substituído por Pedro Passos Coelho (ironicamente, o
inventor do líder da extrema-direita, e ainda seu amigo) ou um seu acólito. E
Rui Rio, sem hesitação, escolherá a segunda.
Rui Rio é o
coveiro que continua a enterrar a direita à sua volta — o CDS já lá vai — e em
vez de a tentar salvar está encantado com o vírus que pensa que o vai levar ao
poder. E os seus adversários internos, de forma igualmente irresponsável, estão
a deixá-lo cometer todos os erros que ele tem para cometer, à custa da
normalização da extrema-direita. Todos pagaremos o preço. Mas só eles com indignidade.
O autor escreve
segundo o novo acordo ortográfico


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