PRESIDENCIAIS
2021
População cigana mobilizou-se mais do que nunca para
votar
Resultados de André Ventura provocam apreensão, sobretudo
no Alentejo, onde activistas julgam ter pesado mais a ciganofobia do que
qualquer outro factor.
Ana Cristina
Pereira
25 de Janeiro de
2021, 23:25
Apesar do inédito
esforço de mobilização, os resultados das eleições presidenciais nem deixaram
dormir alguns membros da população cigana, como Luís Romão, da associação
Sílaba Dinâmica. “Uma tristeza enorme” saber que só ali, no seu concelho de
residência, em Elvas, André Ventura obtivera 2086 votos, 28,8% do total.
“Quando um
partido fascista, racista, extremista alcança 10% numas eleições nacionais,
dois dígitos, é muito mau sinal”, corrobora Bruno Gomes Gonçalves,
vice-presidente da Associação Letras Nómadas. “Fico muito triste.”
Inquieta-os,
sobretudo, o Alentejo, onde Ventura obteve as maiores percentagens. Apesar do
sentimento de abandono, do avanço da agricultura intensiva, do envelhecimento
da população local, da afluência de mão-de-obra estrangeira, nada lhes parece
ter pesado tanto como a ciganofobia.
Embora haja mais
portugueses ciganos a viver nas áreas metropolitanas de Lisboa e Porto, no
Alentejo as comunidades são mais visíveis – representam uma maior percentagem
da população total, enfrentam grande grau de exclusão, algumas ainda são
nómadas. “Tenho algum receio do que pode acontecer nas autárquicas”, diz Bruno
Gonçalves. “Tenho receio que [o Chega] possa vir a eleger vereadores,
representantes nas assembleias e a ganhar alguma junta.”
Nunca se vira
tanta mobilização no seio da população cigana. Activistas de Norte a Sul
procuraram, dentro das suas comunidades, motivar eleitores. A Sílaba Dinâmica
fez um vídeo e a Academia de Política Cigana uma animação, que estas e outras
associações partilharam nas redes sociais em datas concertadas. Várias pessoas
participaram em acções de campanha. Algumas manifestaram-se contra o discurso
de Ventura.
Jamais a
população cigana se terá sentido tão tomada como alvo, desde que a democracia
foi instaurada. Bruno Gonçalves nem usa o verbo atacar, mas “enxovalhar”. A
esse propósito ocorre-lhe o dia em que Ventura atacou Ana Gomes dizendo que
defender ciganos e polícias é “defender tudo e o seu contrário”. E logo outros
exemplos.
Nas redes
sociais, Luís Romão cansou-se de ver comentários sobre o recurso ao rendimento
social de inserção, quando os poucos estudos feitos pelo Instituto de Segurança
Social apontam para 3,8 a 6% de beneficiários de etnia cigana. “É uma gota no
oceano, mas o ódio é tanto que cega as pessoas.”
Sentado numa mesa
de voto, Osvaldo Grilo, da Associação Cigana de Coimbra, pôde observar a
inédita adesão da sua comunidade. “Muitas pessoas votaram este domingo pela
primeira vez.” Vê-las deu-lhe a sensação de que o trabalho de proximidade não
fora em vão.
Aquele dirigente
foi dormir com um “sentimento de dever cumprido, mas muito desiludido”. “Tenho
muito medo”, confessa. “Isto é muito mau. Tanta gente lutou para termos uma
democracia e agora há pessoas que querem uma ditadura, um fascismo. Para mim,
isso é um movimento, não é política. Política é construção, é democracia, não é
incentivo ao ódio e à discriminação.”
“Foi uma grande vitória haver tantos ciganos a
votar”, torna Luís Romão. O desfecho, para si, é que mais parece um balde de
água fria. Desconfia que, levados pelo discurso da subsidiodependência, até
amigos seus “votaram na extrema-direita”. E isso provoca-lhe uma dor com a qual
ainda está a aprender a lidar. “Os meus filhos são pequenos. Que futuro podem
vir a ter? Sabemos o que tem estado a acontecer noutros países…”
Natália Serrana,
a jovem licenciada em artes plásticas e multimédia que desenvolveu o material
de animação de incentivo ao voto, revela-se menos pessimista. “Apesar de não
ter ganho a pessoa na qual depositei o meu voto, fiquei aliviada”, diz. “Teria
sido catastrófico se fosse André Ventura a ganhar.” Não foi. Ficar em terceiro
não é ficar em primeiro.
Nota que há um
caminho de consciencialização que só agora começa a ser percorrido. Ela própria
está a preparar outro material de animação sobre o sistema político, no âmbito
da Academia Política Cigana, projecto apoiado pelo Conselho da Europa. “Espero
que toda esta situação abra os olhos às pessoas”, suspira. “E que a população
cigana se mobilize ainda mais nas próximas eleições.”
Ainda este ano,
realizar-se-ão eleições autárquicas. A lógica é distinta, mas Bruno Gonçalves
julga haver algumas lições a tirar. Desde logo esta: não responder ao insulto
com insulto, procurar, sim, desmontar as mentiras, o discurso. Isso obriga a
uma maior preparação. E, neste caso específico, a um maior conhecimento sobre a
realidade das comunidades ciganas. “Ele descontextualiza mesmo os estudos”,
remata, alegando que manter-se-á atento e não hesitará em apresentar queixa
contra o que entender ser discurso de incitamento ao ódio e ao racismo.

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