OPINIÃO
Meio milhão de pessoas zangadas
André Ventura vai buscar votos a todo o lado e a todos os
partidos (incluindo à extrema-esquerda), porque não anda à pesca de
salazaristas, mas sim de descontentes do regime. E o regime é tudo.
João Miguel
Tavares
26 de Janeiro de
2021, 0:05
https://www.publico.pt/2021/01/26/opiniao/opiniao/meio-milhao-pessoas-zangadas-1947853
Há imensa gente
que embirra por a comunicação social estar sempre a falar de André Ventura.
Espero que estas eleições tenham acabado de vez com essa conversa: não há
obviamente outro assunto mais importante na política portuguesa, porque estamos
a assistir à maior reconfiguração do sistema partidário nacional desde pelo
menos 1985 (quando o PRD obteve 18% nas legislativas), e talvez mesmo desde
1975 (quando nas eleições para a Constituinte o PS obteve 38% e o PSD 26%, o
que mostra bem a estabilidade do sistema em 45 anos de democracia). Não há
forma de menorizar este acontecimento, nem Ventura se vai embora por falarmos
menos dele.
Em ano e meio, o
seu partido unipessoal passou de 68 mil votos para 497 mil. É um salto
incrível. Isso não aconteceu por ele ser fascista, racista, xenófobo, machista,
misógino ou quaisquer outras palavras feias que lhe queiram atirar para cima, e
que nalguma altura da sua curta vida política André Ventura já fez por merecer.
Aconteceu por ele ser anti-sistema e fazer disso alarde, da forma mais
desbocada (e teatral) possível. Ventura e o Chega são contra o regime, contra
aquilo que está aí e que os seus eleitores odeiam, contra o politicamente
correcto e contra as coisas que não se dizem, contra tudo e contra todos. É o
partido das pessoas zangadas – e elas são cada vez mais.
Diz-se que o
Chega é de direita radical, só que, em termos ideológicos, é coisa nenhuma, e
essa é a razão pela qual o seu programa é tudo e o seu contrário, e Ventura
consegue mudar três vezes de voto sobre o mesmo assunto. Para quem acha que ele
é o novo Hitler, convém notar que lhe falta um Mein Kampf. E para quem acha que
ele é o novo Salazar, convém notar que não tem seis volumes de discursos, nem
uma solidez doutrinal à prova de bala. Aliás, ainda há dias Jaime Nogueira
Pinto se queixava disso num artigo no Observador, afirmando que um certo
“primarismo” poderia “justificar-se numa fase de denúncia e de protesto”, mas
que era preciso rapidamente “corrigi-lo e endireitá-lo” para alcançar
“resultados políticos consequentes”. E deixava um conselho: “O protesto, a
antítese, terá de progredir para a síntese, e depressa.”
Meio milhão de
pessoas zangadas é muita gente zangada. Há dois caminhos possíveis. Um, é
zangarmo-nos com essas pessoas: são burras, imbecis, fascistas, indecentes,
deploráveis. Outro, é procurar as razões da sua zanga. A esquerda prefere
claramente o primeiro caminho. Espero que a direita saiba escolher o segundo
Tenho muitas
dúvidas de que Ventura seja capaz de sintetizar o que quer que seja, porque
para isso era preciso que acreditasse nalguma coisa, para além de som e fúria.
Não creio que acredite. Só que à esquerda dá jeito acreditar que ele acredita,
e daí os equívocos da noite eleitoral. Carlos César declarou que, “por
enquanto”, “Ventura é uma ameaça maior para o PSD do que para o país”. Marisa
Matias frisou que “muitos dos eleitores de direita votaram num candidato de extrema-direita”,
para se convencer (e nos convencer) de que nenhum dos 300 mil votos que perdeu
entre 2016 e 2021 foi para Ventura. E Ana Catarina Mendes afirmou na TVI24 ser
indispensável uma “reflexão à direita do espectro político”.
Mas será mesmo
assim? É só a direita que tem de “reflectir”? Claro que não é. Ventura vai
buscar votos a todo o lado e a todos os partidos (incluindo à
extrema-esquerda), porque não anda à pesca de salazaristas, mas sim de
descontentes do regime. E o regime é tudo; são todos os partidos. Meio milhão
de pessoas zangadas é muita gente zangada. Há dois caminhos possíveis. Um, é
zangarmo-nos com essas pessoas: são burras, imbecis, fascistas, indecentes,
deploráveis. Outro, é procurar as razões da sua zanga. A esquerda prefere
claramente o primeiro caminho. Espero que a direita saiba escolher o
segundo.


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