Pedro Santos
Guerreiro
“A primeira
ronda foi má de mais. Marisa & Marcelo fizeram o debate M&M’s, derrete
na boca e não nas mãos. Ventura & Ferreira foi estilo “Ga-tu-no! Ga-tu-no!
Ga-tu-no!” Mayan tirou-nos da báscula entre o bocejo e a gritaria – e obrigou o
candidato-Presidente a sair da toca
Há um ponto
médio entre a conversa de chacha e o ataque arruaceiro: chama-se debate
político. Não queremos nem chicotes, nem dichotes nem raminhos de flores,
queremos confronto democrático sobre o que pode ser a Presidência da República.
Se não, uma campanha não serve para nada. Se a falta de serventia persistir,
ela medir-se-á pela abstenção. Se for alta, o sucesso de alguns será o fracasso
de todos.
O excesso de
paternalismo infantiliza o eleitorado tanto quanto uma algazarra de rufias.
(...)
Marcelo parece
ter como estratégia evitar polémicas e discórdias. Até se percebe como tática:
se “nada” acontecer nos debates, eles “nada” decidem e portanto “nada” mudam
nas intenções de voto que nas sondagens que lhe dão vitória larga. E assim
Marcelo distribui simpatia, perde tempo, entrega o terreno de jogo ao
adversário e larga críticas para se distanciar do governo, no mesmo passo em
que se aproxima da esquerda dizendo-se de “direita social” e não “da liberal”.
(...)
A estratégia
de amolecimento falhou no seu segundo debate, porque a formiga tem catarro:
Tiago Mayan Gonçalves disparou críticas, acusando a Presidência anterior de ter
sido “um falhanço” e Marcelo de ser propagandista do governo, viciado em
popularidade e calculista porque age em função das sondagens. (...) “É-me
indiferente a popularidade, totalmente indiferente”, disse Marcelo sem se rir.
(...)
Se Marcelo não
quer ondas nos debates, Ventura quer tempestades. E assim repete a fórmula
“isto é uma vergonha!” por outras frases. (...) “Não sou eu o moderador,
infelizmente”, disse às tantas. Pois não: é o imoderador. E isso,
provavelmente, dá-lhe votos, porque canaliza iras dos zangados e desistências
dos desiludidos. O caos favorece os que gritam. E André Ventura debate política
na TV como antes debatia futebol na TV: grita, zomba, muda de assunto e não
deixa falar. (...)
Será
necessário fazer o que se fez a Trump, desligar microfones, ou Ventura não
deixará ouvir ninguém. Mas se um em cada dez portugueses gosta disto, e vota
nisto, como apontam as sondagens, então o líder do Chega conseguirá nesta
campanha o que quer, em sucessivos debates de histeria e caos: subir mais um
degrau na escadaria para as próximas legislativas. (...)”
Nota: excertos
do texto de hoje, que colige comentários avulsos que escrevi após cada debate
para o Expresso, na iniciativa do jornal de publicar análises e votações dos
seus colunistas. Essas análises podem ser lidas no site do Expresso.
"Ana Gomes
evitou a conversa de chacha com uma amiga e desafiou, discretamente, Marisa
Matias a desistir a seu favor. Foi a primeira a trazer as Forças Armadas a
sério a um debate. Mas não conseguiu evitar ter de falar do outro senhor. Qual
senhor? “Esse senhor”.
Comecemos pelas
senhoras. Depois de uma pré-campanha péssima, Ana Gomes entrou bem nos debates.
Não foi espetacular, nem precisava de sê-lo contra Marisa Matias, mas foi muito
mais consistente do que em muitos dos seus desastrados tweets. Ganhou o debate
por isso, e porque à sua frente tinha uma Marisa Matias que continua sem chama
no esquentador. (...)
Ana Gomes bem
quis criticar Marcelo, coisa que ainda fez em relação ao estado de emergência,
que diz estar a ser banalizado e devia ter sido substituído por uma lei de
emergência sanitária. Mas já não conseguiu mais. Porque os últimos dez minutos
do debate foram, por decisão da moderadora, sobre “esse senhor”, o líder d’
“esse partido”, aquele que não gostam de nomear, André Ventura. Não querendo
debater sobre ele antes de debater com ele, acabou por ter de fazê-lo. E, desta
vez, explicou-se bem. Evitando frases que sugerissem ódio pessoal, ou de
insulto aos apoiantes do Chega, denunciou quem “quer arrebanhar” desiludidos
com a política para um projeto que “semeia o ódio, a violência, a segregação”,
o que “é totalmente contrário à Constituição”.
E assim houve
mais perguntas sobre Ventura do que sobre Marcelo, talvez mais do que sobre as
próprias Ana Gomes ou Marisa Matias. E certamente mais do que sobre António
Costa: no caso que pôs Francisca van Dunem no centro de um alvo, Ana Gomes fala
de um “caso grave” mas “o primeiro-ministro é que sabe”; Marisa Matias fala de
um caso “vergonhoso” mas aguarda “por explicações”. Das duas candidatas de
esquerda não vem fogo aberto sobre o governo de esquerda."
Excertos do meu
comentário ao debate Ana Gomes-Marisa Matias, um entre treze que pode ler no
Expresso.
Popularidade vs. utopia. Como Mayan forçou Marcelo a ir a
jogo
Tiago Mayan foi aos tornozelos de Marcelo: SEF, vacinas,
MAI, PGR, cheques em branco, foi a todas. Mas Marcelo não se ficou e deu tudo
no ataque à "utopia" liberal. Sobretudo em contexto de pandemia.
Rita Dinis
Texto
Miguel Santos
Carrapatoso
Texto
03 jan 2021,
23:31 97
Se no debate de
sábado, frente a Marisa Matias, Marcelo queria piscar o olho ao eleitorado da
esquerda, no debate desta noite frente a Tiago Mayan Gonçalves, Marcelo quis
distinguir-se. Distinguir, primeiro, a direita social da direita liberal, do
“sonho e da utopia”, que vota contra os estados de emergência mas, na hora H,
quando é chamada a governar noutros países, acaba a aprovar as mesmas
restrições; e distinguir, depois, a (in)experiência de um da experiência de “20
anos no terreno” do outro.
Mas o adversário
que tinha pela frente, apesar de menos experiente, não se ficou e deu luta.
Tiago Mayan Gonçalves pôs o dedo em todas as feridas, acusou Marcelo de passar
“cheques em branco” ao Governo e de ter “falhado” enquanto PR. Obrigou-o a ir a
jogo. “O que move o senhor Presidente é a sua popularidade. É isso que o põe
sempre ao lado do Governo, exceto quando sente a sua popularidade ameaçada”,
disse o candidato apoiado pelo Iniciativa Liberal, dizendo que um terço dos
vetos de Marcelo foram feitos no verão, altura em que sentiu a sua
“popularidade em queda”.
Marcelo sentiu-se
acossado e foi obrigado a responder: “O maior número dos meus vetos foi até
2019, não foi em 2020”, disse, rejeitando que se trate de uma questão de
popularidade e de campanha eleitoral. E disse mais: “Se há coisa que é muito
evidente para mim é que me é indiferente a popularidade: totalmente
indiferente”, disse, dando o exemplo do momento em que vetou a lei do
financiamento dos partidos “contra o Parlamento todo”.
Diga uma, diga
uma
Tiago Mayan
Gonçalves desfiava críticas a Marcelo — do “pacto de silêncio” no caso do SEF,
à não recondução de Joana Marques Vidal na PGR, passando pelo facto de Marcelo
ter sido “um Presidente de um Governo” –, obrigando Marcelo a jogar à defesa,
até que o Presidente em exercício teve de virar o jogo e atacar: “Diga lá então
o que é que teria vetado que eu não vetei?”.
Foi aí que o
candidato apoiado pelo Iniciativa Liberal escolheu o tema da descentralização e
das eleições para as CCDR, que no seu entender foram um “simulacro de
democracia”, acusando com isso o Presidente da República de representar os
poderes instalados, e de ser “o candidato dos Donos Disto Tudo”, numa
referência implícita a Ricardo Salgado, de quem Marcelo Rebelo de Sousa era
amigo. Marcelo não respondeu.
Até aqui, Mayan
estava ao ataque, apontando, caso a caso, os vários “falhanços” do mandato que
agora termina. Marcelo ainda admitiria que era assim mesmo — os candidatos
novos estão frescos e têm a página limpa, enquanto os recandidatos têm um
mandato inteiro para ser julgados e criticados — mas depois percebeu que era
altura de atacar. “Já viu que é tão vago quando se trata das suas ideias?”,
atirou, puxando dos galões da sua experiência de 20 anos “no terreno” enquanto
autarca em Celorico de Basto, e procurando a partir daqui — até ao fim do
debate — desconstruir a “utopia” das políticas liberais.
Destruição social
ou utopia liberal?
Se Mayan esteve
forte ao ataque, foi na parte em que foi instado a explicar as suas ideias de
política liberal (em contexto de pandemia) que Marcelo procurou somar mais
pontos. Várias foram as vezes em que Marcelo se substituiu ao moderador para
fazer perguntas concretas ao adversário: “Em que é que as políticas liberais
ajudariam um estado num contexto de pandemia?”. Perguntava e respondia: “Todos
os países mais liberais, quando chegou a pandemia, o que fizeram foi injetar
dinheiro na economia, nas políticas sociais. Como é que se resolve a pobreza e
a crise sem políticas sociais? Acha que a mera liberdade económica resolve a
pobreza?”, questionou.
Mas Tiago Mayan
não desarmava e apostava tudo na crítica aos decretos do estado de emergência
de Marcelo, que, na sua opinião, estão a ser responsáveis pela “destruição
social” do país. O debate foi ideologia fora, com Marcelo a insistir na ideia
de que sem estado de emergência tudo tinha sido pior. “É muito fácil avançar
com ideias do estado liberal, o sonho, a utopia, e depois votar contra o estado
de emergência. Os países que eram contra o estado de emergência acabaram todos
a adotá-lo”, disse.
Nota: No momento
Presidente do debate (há sempre um momento em que Marcelo parece não despir o
fato), o Presidente da República mostrou-se preocupado com a evolução da
pandemia em Portugal, devido à nova variante vinda do Reino Unido, e devido ao
“laxismo” que considera ter havido no período das festas. Voltou a dizer que
vai renovar o estado de emergência por 8 dias para depois se fazer uma análise
mais fina dos números em relação ao Natal e Ano Novo e, aí sim, voltar a
definir novas medidas para o mês seguinte. Mais confinamentos à vista? Marcelo
espera que não, mas é preciso ouvir os peritos.


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