segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

 


Pedro Santos Guerreiro

https://expresso.pt/opiniao/2021-01-04-Debates-no-jardim-escola/?fbclid=IwAR2t5pTPOWp5drDDY9fWo7ykhJ1mqh3Zci3TMN7De65XOv-owU4jryh6FK0

 

“A primeira ronda foi má de mais. Marisa & Marcelo fizeram o debate M&M’s, derrete na boca e não nas mãos. Ventura & Ferreira foi estilo “Ga-tu-no! Ga-tu-no! Ga-tu-no!” Mayan tirou-nos da báscula entre o bocejo e a gritaria – e obrigou o candidato-Presidente a sair da toca

Há um ponto médio entre a conversa de chacha e o ataque arruaceiro: chama-se debate político. Não queremos nem chicotes, nem dichotes nem raminhos de flores, queremos confronto democrático sobre o que pode ser a Presidência da República. Se não, uma campanha não serve para nada. Se a falta de serventia persistir, ela medir-se-á pela abstenção. Se for alta, o sucesso de alguns será o fracasso de todos.

O excesso de paternalismo infantiliza o eleitorado tanto quanto uma algazarra de rufias. (...)

Marcelo parece ter como estratégia evitar polémicas e discórdias. Até se percebe como tática: se “nada” acontecer nos debates, eles “nada” decidem e portanto “nada” mudam nas intenções de voto que nas sondagens que lhe dão vitória larga. E assim Marcelo distribui simpatia, perde tempo, entrega o terreno de jogo ao adversário e larga críticas para se distanciar do governo, no mesmo passo em que se aproxima da esquerda dizendo-se de “direita social” e não “da liberal”. (...)

A estratégia de amolecimento falhou no seu segundo debate, porque a formiga tem catarro: Tiago Mayan Gonçalves disparou críticas, acusando a Presidência anterior de ter sido “um falhanço” e Marcelo de ser propagandista do governo, viciado em popularidade e calculista porque age em função das sondagens. (...) “É-me indiferente a popularidade, totalmente indiferente”, disse Marcelo sem se rir. (...)

Se Marcelo não quer ondas nos debates, Ventura quer tempestades. E assim repete a fórmula “isto é uma vergonha!” por outras frases. (...) “Não sou eu o moderador, infelizmente”, disse às tantas. Pois não: é o imoderador. E isso, provavelmente, dá-lhe votos, porque canaliza iras dos zangados e desistências dos desiludidos. O caos favorece os que gritam. E André Ventura debate política na TV como antes debatia futebol na TV: grita, zomba, muda de assunto e não deixa falar. (...)

Será necessário fazer o que se fez a Trump, desligar microfones, ou Ventura não deixará ouvir ninguém. Mas se um em cada dez portugueses gosta disto, e vota nisto, como apontam as sondagens, então o líder do Chega conseguirá nesta campanha o que quer, em sucessivos debates de histeria e caos: subir mais um degrau na escadaria para as próximas legislativas. (...)”

Nota: excertos do texto de hoje, que colige comentários avulsos que escrevi após cada debate para o Expresso, na iniciativa do jornal de publicar análises e votações dos seus colunistas. Essas análises podem ser lidas no site do Expresso.

 

"Ana Gomes evitou a conversa de chacha com uma amiga e desafiou, discretamente, Marisa Matias a desistir a seu favor. Foi a primeira a trazer as Forças Armadas a sério a um debate. Mas não conseguiu evitar ter de falar do outro senhor. Qual senhor? “Esse senhor”.

Comecemos pelas senhoras. Depois de uma pré-campanha péssima, Ana Gomes entrou bem nos debates. Não foi espetacular, nem precisava de sê-lo contra Marisa Matias, mas foi muito mais consistente do que em muitos dos seus desastrados tweets. Ganhou o debate por isso, e porque à sua frente tinha uma Marisa Matias que continua sem chama no esquentador. (...)

Ana Gomes bem quis criticar Marcelo, coisa que ainda fez em relação ao estado de emergência, que diz estar a ser banalizado e devia ter sido substituído por uma lei de emergência sanitária. Mas já não conseguiu mais. Porque os últimos dez minutos do debate foram, por decisão da moderadora, sobre “esse senhor”, o líder d’ “esse partido”, aquele que não gostam de nomear, André Ventura. Não querendo debater sobre ele antes de debater com ele, acabou por ter de fazê-lo. E, desta vez, explicou-se bem. Evitando frases que sugerissem ódio pessoal, ou de insulto aos apoiantes do Chega, denunciou quem “quer arrebanhar” desiludidos com a política para um projeto que “semeia o ódio, a violência, a segregação”, o que “é totalmente contrário à Constituição”.

E assim houve mais perguntas sobre Ventura do que sobre Marcelo, talvez mais do que sobre as próprias Ana Gomes ou Marisa Matias. E certamente mais do que sobre António Costa: no caso que pôs Francisca van Dunem no centro de um alvo, Ana Gomes fala de um “caso grave” mas “o primeiro-ministro é que sabe”; Marisa Matias fala de um caso “vergonhoso” mas aguarda “por explicações”. Das duas candidatas de esquerda não vem fogo aberto sobre o governo de esquerda."

Excertos do meu comentário ao debate Ana Gomes-Marisa Matias, um entre treze que pode ler no Expresso.

https://expresso.pt/presidenciais-2021/2021-01-04-No-duelo-das-esquerdas-Ana-Gomes-levou-a-melhor-sobre-Marisa-Matias.-Eis-as-notas-dos-14-comentadores-do-Expresso-e-SIC?fbclid=IwAR3moqd685gHDjjF2fygLv7dzhIRnP49qBThd8rUiqENY7WJ-QICbdkxrSE


Popularidade vs. utopia. Como Mayan forçou Marcelo a ir a jogo

 

Tiago Mayan foi aos tornozelos de Marcelo: SEF, vacinas, MAI, PGR, cheques em branco, foi a todas. Mas Marcelo não se ficou e deu tudo no ataque à "utopia" liberal. Sobretudo em contexto de pandemia.

 

 

Rita Dinis

Texto

Miguel Santos Carrapatoso

Texto

03 jan 2021, 23:31 97

    https://observador.pt/2021/01/03/popularidade-vs-utopia-como-mayan-forcou-marcelo-a-ir-a-jogo/?fbclid=IwAR1mHsv5CiRJKyc59tKoN89dHWLCBdbFLLYsMbPT_stbaafZgjiSxFvxCBs

 

Se no debate de sábado, frente a Marisa Matias, Marcelo queria piscar o olho ao eleitorado da esquerda, no debate desta noite frente a Tiago Mayan Gonçalves, Marcelo quis distinguir-se. Distinguir, primeiro, a direita social da direita liberal, do “sonho e da utopia”, que vota contra os estados de emergência mas, na hora H, quando é chamada a governar noutros países, acaba a aprovar as mesmas restrições; e distinguir, depois, a (in)experiência de um da experiência de “20 anos no terreno” do outro.

 

Mas o adversário que tinha pela frente, apesar de menos experiente, não se ficou e deu luta. Tiago Mayan Gonçalves pôs o dedo em todas as feridas, acusou Marcelo de passar “cheques em branco” ao Governo e de ter “falhado” enquanto PR. Obrigou-o a ir a jogo. “O que move o senhor Presidente é a sua popularidade. É isso que o põe sempre ao lado do Governo, exceto quando sente a sua popularidade ameaçada”, disse o candidato apoiado pelo Iniciativa Liberal, dizendo que um terço dos vetos de Marcelo foram feitos no verão, altura em que sentiu a sua “popularidade em queda”.

 

Marcelo sentiu-se acossado e foi obrigado a responder: “O maior número dos meus vetos foi até 2019, não foi em 2020”, disse, rejeitando que se trate de uma questão de popularidade e de campanha eleitoral. E disse mais: “Se há coisa que é muito evidente para mim é que me é indiferente a popularidade: totalmente indiferente”, disse, dando o exemplo do momento em que vetou a lei do financiamento dos partidos “contra o Parlamento todo”.

 

Diga uma, diga uma

Tiago Mayan Gonçalves desfiava críticas a Marcelo — do “pacto de silêncio” no caso do SEF, à não recondução de Joana Marques Vidal na PGR, passando pelo facto de Marcelo ter sido “um Presidente de um Governo” –, obrigando Marcelo a jogar à defesa, até que o Presidente em exercício teve de virar o jogo e atacar: “Diga lá então o que é que teria vetado que eu não vetei?”.

 

Foi aí que o candidato apoiado pelo Iniciativa Liberal escolheu o tema da descentralização e das eleições para as CCDR, que no seu entender foram um “simulacro de democracia”, acusando com isso o Presidente da República de representar os poderes instalados, e de ser “o candidato dos Donos Disto Tudo”, numa referência implícita a Ricardo Salgado, de quem Marcelo Rebelo de Sousa era amigo. Marcelo não respondeu.

 

Até aqui, Mayan estava ao ataque, apontando, caso a caso, os vários “falhanços” do mandato que agora termina. Marcelo ainda admitiria que era assim mesmo — os candidatos novos estão frescos e têm a página limpa, enquanto os recandidatos têm um mandato inteiro para ser julgados e criticados — mas depois percebeu que era altura de atacar. “Já viu que é tão vago quando se trata das suas ideias?”, atirou, puxando dos galões da sua experiência de 20 anos “no terreno” enquanto autarca em Celorico de Basto, e procurando a partir daqui — até ao fim do debate — desconstruir a “utopia” das políticas liberais.

 

Destruição social ou utopia liberal?

Se Mayan esteve forte ao ataque, foi na parte em que foi instado a explicar as suas ideias de política liberal (em contexto de pandemia) que Marcelo procurou somar mais pontos. Várias foram as vezes em que Marcelo se substituiu ao moderador para fazer perguntas concretas ao adversário: “Em que é que as políticas liberais ajudariam um estado num contexto de pandemia?”. Perguntava e respondia: “Todos os países mais liberais, quando chegou a pandemia, o que fizeram foi injetar dinheiro na economia, nas políticas sociais. Como é que se resolve a pobreza e a crise sem políticas sociais? Acha que a mera liberdade económica resolve a pobreza?”, questionou.

 

Mas Tiago Mayan não desarmava e apostava tudo na crítica aos decretos do estado de emergência de Marcelo, que, na sua opinião, estão a ser responsáveis pela “destruição social” do país. O debate foi ideologia fora, com Marcelo a insistir na ideia de que sem estado de emergência tudo tinha sido pior. “É muito fácil avançar com ideias do estado liberal, o sonho, a utopia, e depois votar contra o estado de emergência. Os países que eram contra o estado de emergência acabaram todos a adotá-lo”, disse.

 

Nota: No momento Presidente do debate (há sempre um momento em que Marcelo parece não despir o fato), o Presidente da República mostrou-se preocupado com a evolução da pandemia em Portugal, devido à nova variante vinda do Reino Unido, e devido ao “laxismo” que considera ter havido no período das festas. Voltou a dizer que vai renovar o estado de emergência por 8 dias para depois se fazer uma análise mais fina dos números em relação ao Natal e Ano Novo e, aí sim, voltar a definir novas medidas para o mês seguinte. Mais confinamentos à vista? Marcelo espera que não, mas é preciso ouvir os peritos.

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