OPINIÃO
Entre verdades e mentiras: hippies, extrema-direita e a
covid
Este ano, a mais recente e influente teoria da
conspiração, a QAnon, terá um papel importante nas eleições dos EUA. A ideia de
que a pandemia não existe, que o mundo é dominado por uma rede de pedófilos que
roubam sangue às crianças para injetarem em si próprios e ficarem mais jovens,
tem não só agregados milhões de adeptos como tem impulsionando a corrida
eleitoral a favor de Donald Trump e a suposta luta contra o “Estado Profundo”.
Marcela Uchôa
22 de Setembro de
2020, 17:00
Será possível
imaginar uma intersecção entre hippies, terraplanistas, anti-vaxxers e nazis?
Em tempos de pandemia, estes aliados aparentemente improváveis parecem ter
encontrado esse lugar comum em teorias de conspiração. A negação do vírus, que
varia desde a ideia da existência de um conluio comunista chinês, até uma
suposta tentativa de controlo mundial por figuras públicas como George Soros,
ou até à Bill Gates Foundation, são apenas alguns exemplos das narrativas mais
comuns. Se, por um lado, alguns parecem absurdos, outros mais razoáveis, a
realidade é que estas ideias têm impulsionado discursos da extrema-direita em
vários lugares do mundo. Em Portugal, no dia 20 de setembro, ocorreram
manifestações nas cidades do Porto, Coimbra e Lisboa, convocadas através de
redes sociais, que tomaram as ruas com placas a defender o fim da “farsa” da
covid e a afirmar que vacinas matam. A
manifestação em Coimbra decorreu sem o uso de máscaras e as devidas medidas de
segurança e distanciamento social.
Nos EUA,
discursos contra movimentos antifascistas e o Black Lives Matter se expandem na
suposta tentativa de liberar o mundo daqueles que nos consideram parte de uma conspiração
que visa espalhar o caos pelo planeta, para depois implementar uma ditadura.
Não há dúvidas que o sucesso dessas teorias reside na sua capacidade de
misturar elementos legítimos, ou de suspeita natural – como a denúncia dos
lucros imorais da indústria farmacêutica –, com suposições perigosas como o
movimento anti-vacinas, que apela a que se deixe de tomar vacinas por
supostamente só servirem para adoecer as pessoas, ou as controlar.
A filósofa Hannah
Arendt, em seu conhecido livro As Origens do Totalitarismo, originalmente
publicado em 1951, já alertava que ideologias totalitárias como o fascismo se
baseavam em teorias de conspiração. Sua abordagem aristotélica entendia a
verdadeira política como participação cidadã. Percebia que o discurso da
conspiração apresentava uma tentativa de eliminação da consciência política e,
por consequência, do debate público. O conflito social – sobre, por exemplo, as
medidas a tomar em relação à pandemia e a distribuição social dos custos que as
mesmas acarretam – é externalizado num inimigo imaginário. Este fenómeno torna
os seus seguidores, mesmo que estes se achem anti sistémicos, em seres
acríticos e facilmente cooptáveis.
Neste ano, a mais
recente e influente teoria da conspiração, a QAnon, terá um papel importante
nas eleições dos Estados Unidos. A ideia de que a pandemia não existe, que o
mundo é dominado por uma rede de pedófilos que roubam sangue às crianças para
injetarem em si próprios e ficarem mais jovens, tem não só agregados milhões de
adeptos como tem impulsionando a corrida eleitoral a favor de Donald Trump e a
suposta luta contra o “Estado Profundo”.
O Presidente dos EUA ainda dá credibilidade pública à seita e defende
que as pessoas que defendem essa teoria só querem o bem-estar do país. A repercussão internacional que encontra cada
vez mais espaço na América Latina, mas também em alguns países da Europa (como
a Alemanha), é responsável pela difusão de um grande número de notícias
falsas, com um crescimento significativo
em grupos de redes sociais como Facebook e WhatsApp, onde se expandem sem
nenhum respaldo científico ou jurídico.
Assim, tal como
Trump e Bolsonaro, os ”anons” dizem que falsas são as notícias difundidas pelos
media e a única fonte confiável são as notícias partilhadas por suas redes
sociais, num momento em que estas estão a substituir cada vez mais os canais
tradicionais de informação.
Essas narrativas
ganham espaço na medida em que cada vez mais os canais de debate público são
monopolizados e controlados nas mãos de um pequeno grupo de acionistas
privados, gerando uma desconfiança legitima de grande parcela da população. Os
líderes populistas incentivam estes tipos de teorias precisamente porque é de
seu interesse: não há dúvidas que artifícios conspiratórios sempre existiram,
mas a tecnologia tem sido um aliado importante na sua difusão hoje.
Só uma análise
estrutural dos problemas, que encontre uma resposta coletiva de participação
política, pode fazer frente a estas teorias e nos apontar novos caminhos. A
deslegitimação dos governos e das democracias liberais encontra lugar na
ausência de uma base ideológica sólida. A falta de resposta das esquerdas
parlamentares e o discurso burocratizado, ainda pouco acessível à grande parte
da classe trabalhadora, que poderia fazer frente a este tipo de narrativas,
tem-se esvaziado progressivamente no espaço público e tornado o espaço virtual cada vez mais um lugar
suspeito.
Doutoranda em
Filosofia Política na Universidade de Coimbra, investigadora no Instituto de
Estudos Filosóficos – IEF – UC
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