segunda-feira, 21 de setembro de 2020

O que mais preocupa os partidos no plano de Costa Silva

 



RECUPERAÇÃO

O que mais preocupa os partidos no plano de Costa Silva

 

Costa recebe esta segunda e terça-feira os partidos para falar sobre o programa de recuperação da economia. O ponto de partida é o plano de Costa Silva em relação ao qual os partidos já deixaram pistas sobre o que os preocupa.

 

Marta Moitinho Oliveira 21 de Setembro de 2020, 6:19

https://www.publico.pt/2020/09/21/politica/noticia/preocupa-partidos-plano-costa-silva-1932055

 

António Costa recebe esta segunda e terça-feira os partidos para falar sobre o Plano de Recuperação e Resiliência, cuja primeira versão tem de entregar em Bruxelas a 15 de Outubro. Na semana passada, o Governo recebeu das mãos do gestor António Costa Silva a versão final da Visão Estratégica que servirá de base ao plano nacional para recuperar a economia no pós-pandemia. E os partidos tiveram a oportunidade de ouvir Costa Silva no Parlamento. Eis as pistas que deixaram sobre o que mais os preocupa.

 

O plano é para dez anos e, por isso, abrange três legislaturas. Essa razão leva o PS a defender, tal como o Governo, a necessidade de consenso em torno dos grandes investimentos. Foi também este o motivo que levou o PS a chamar Costa Silva ao Parlamento — numa tentativa de o aproximar dos partidos. Os socialistas quiseram mostrar que o documento final foi muito participado e salientar a necessidade de os fundos estruturais que Portugal vai receber — no total quase 58 mil milhões de euros até 2030 — serem “bem colocados”. Hugo Costa e Luís Testa, os deputados que interpelaram o autor da Visão Estratégica para recuperar a economia, quiseram destacar áreas em que é preciso apostar: a redução das desigualdades; a introdução do 5G de uma forma transversal para reforçar a coesão territorial; a melhoria da mobilidade nas cidades; e a ferrovia. E revelaram uma preocupação global: saber se o plano “teve em linha de conta as restrições orçamentais do Estado português e se atendeu à necessidade de uma melhor aplicação dos fundos estruturais”.

 

PSD e o papel do Estado

Para os sociais-democratas uma das principais preocupações relacionadas com o plano de Costa Silva é que este requer uma “forma sábia de aplicação”. “Este deve ser um exercício com consequência”, defendeu o deputado Cristóvão Norte quando o gestor foi ao Parlamento, que quis ainda rebater as declarações de Costa Silva em defesa do Estado. “A existência de um catálogo de obras é a confissão de um falhanço do próprio Estado”, disse, lembrando que na ferrovia as avaliações do Tribunal de Contas põem em causa a execução. As declarações de Costa Silva sobre o papel do Estado levaram ainda o deputado a afirmar que era “quase como se houvesse aqui uma nova ‘geringonça'” que tivesse “engolido” o gestor. O PSD quer um Estado resiliente — que considera necessário —, mas também que “garanta a igualdade de oportunidades, facilitador e que liberte burocracias”. O PSD está ainda preocupado com a dificuldade na hierarquia de prioridades, na articulação entre acções, nos prazos, nos custos e nas fontes de financiamento e quer saber onde estão as “transformações para que este plano seja executado”. Filipa Roseta, também deputada do PSD, mostrou-se ainda preocupada com a falta de aposta na coesão territorial. “Não vale a pena dizer que estamos a apostar na coesão territorial, quando pomos o dinheiro todo nas áreas metropolitanas de Lisboa e Porto”, disse a parlamentar.

 

BE aponta para a falta de uma política de rendimentos

O Bloco de Esquerda lamenta que a Visão Estratégica seja omissa sobre salários e direitos laborais. “Isto tem a ver com escolhas ideológicas”, atirou Isabel Pires, deputada bloquista que antevê que “competir pelo salário mais baixo foi, continua a ser e vai ser uma estratégia errada em vários sectores de actividade”. Para o BE será difícil uma retoma sem procura interna, mais ainda depois de os anos do pós-troika terem provado os benefícios da aposta nos rendimentos, lembra o partido. “A política de rendimentos está muito ausente deste plano estratégico que foi apresentado”, disse Isabel Pires. O BE também considera que o documento pouco fala sobre a redução da precariedade, numa altura em que as várias formas “agravam” as situações de crise. A transição energética, apesar de referida no documento, é vista pelo BE como tendo algumas contradições com o facto o modelo de crescimento ali defendido continuar a apostar no consumo de recursos. Também a revitalização do interior surge aos olhos do BE como “apenas um discurso”.

 

PCP quer saber a quem serve o plano

Os comunistas acreditam que foi o facto de Portugal estar perante uma Administração Pública “desnatada” que o Governo recorreu a este trabalho externo. Bruno Dias, o deputado do PCP que questionou Costa Silva, quis saber que tipo de participação em concreto é que a Administração Pública e os seus quadros tiveram na Visão Estratégica. Outra das dúvidas com que o PCP ficou sobre o plano de Costa Silva é a de saber como, e ao serviço de quem, o processo de desenvolvimento previsto na Visão Estratégica se vai concretizar. Para os comunistas os trabalhadores são um “objecto”, e “não um sujeito”, no documento do gestor. Ou seja, o PCP quer saber se ao aumento de riqueza está associado uma distribuição “justa” da riqueza. Outro dos pontos que mais preocupa os comunistas é sobre as consequências da Visão Estratégica para os planos em curso. Ou seja, a que revisões vai obrigar este plano em relação aos planos estratégicos em vigor.

 

CDS focado nas escolhas do Governo

Os centristas reconhecem que deve haver um envolvimento dos vários sectores num plano a longo prazo, mas é preciso saber também que “disponibilidades” é que existem da parte do Governo. Mas a principal dúvida do CDS é o que será a “decisão sob o ponto de vista político” — ou seja, conhecer as escolhas do Governo. Tal como o PSD, também o CDS se quer afastar daquilo que considera ser a “visão estatizante” do documento de Costa Silva. Depois do plano — que casou economia e ambiente —, o CDS quer ouvir os ministros da Economia e das Infra-estruturas para saber o que ficará para trás, disse o deputado João Gonçalves Pereira, que quis ainda saber com que percepção ficou o gestor sobre as resistências dentro do Governo às ideias de Costa Silva. A distribuição dos fundos — os quase 58 mil milhões de euros — pelos dez eixos é outra das dúvidas.

 

PAN critica plano assente no consumo

Há uma visão de fundo no documento que separa o PAN da proposta de Costa Silva. A saber: o consumo generalizado e crescente focado na garantia da oferta de recursos e não numa economia mais frugal. André Silva está ainda preocupado com a falta de defesa de uma posição clara sobre o novo aeroporto de Lisboa e tenta aproveitar a defesa da ferrovia patente no plano para sugerir uma mudança da localização do aeroporto. “Devíamos ter um aeroporto em Beja com ligação ferroviária de alta velocidade a Lisboa?”, quis saber o deputado do PAN. As barragens, a exploração de lítio e a carga turística em Portugal são outros dos pontos que mais dúvidas levantam ao partido de André Silva.

 

Iniciativa Liberal fala em “catálogo de ideias”

Um “catálogo de ideias” engordado com mais uma prioridade — o turismo e o comércio — e que “entrega nas mãos do Estado tudo e mais alguma coisa”. É assim que o deputado da IL, João Cotrim de Figueiredo, classifica a Visão Estratégica que Costa Silva entregou ao Governo. Entre as preocupações da IL estão também a falta de visão estratégica do plano — que teme que seja uma “miragem poética com zero efeito prático”. João Cotrim de Figueiredo mostra-se muito céptico em relação ao plano deixado por Costa Silva, já que na apresentação do mesmo viu “uma descarada sessão de propaganda” com elogios a ministros, ao primeiro-ministro e auto-elogios ao autor do próprio plano.

 

PEV critica exploração de recursos

Muito assente na utilização de recursos geológicos e promotor da dicotomia entre espaço urbano e espaço rural. É assim que Os Verdes vêem o plano que Costa Silva entregou ao Governo e é esta preocupação que levam esta segunda para a reunião com António Costa. Os Verdes vão a São Bento defender que a recuperação da economia “não deve assentar no investimento em infra-estruturas e matérias com avultados impactos ambientais”, dando como exemplos o aeroporto do Montijo e a exploração de lítio. Outro dos aspectos do plano que mais preocupa o PEV é o favorecimento de grandes empresas com a digitalização e modernização tecnológica da agricultura, em detrimento da agricultura familiar.

 

Chega diz que plano não serve o país

O plano apresentado por Costa e Silva é “fraco e redondo, pois não define uma estratégia realista face à situação de crise que o país já atravessa e que todos os dados apontam se irá agravar em breve”, diz André Ventura. O Chega esperava um programa mais detalhado e vê uma estratégia “submissa às linhas do Governo, totalmente dependente dos interesses governamentais”. Outra das preocupações — aliás, a maior, segundo o Chega — é o facto de a estratégia prevista no plano ser “profundamente desconhecedora da realidade de vários distritos, especialmente daqueles que foram afectados pela crise, como é o caso de toda a região do Algarve”.

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