Não deixem aos populistas a conversa sobre a corrupção...
Não se mistura “honra” com mundos muito pouco honrados.
Por isso é que a participação do primeiro-ministro, do presidente da Câmara de
Lisboa e de vários deputados num acto de promiscuidade com o poder fáctico do
futebol é muito grave, porque significa indiferença face à corrupção, numa
altura crítica do seu combate. Como não se retractaram, ficam com uma mancha.
José Pacheco
Pereira
19 de Setembro de
2020, 0:00
https://www.publico.pt/2020/09/19/opiniao/opiniao/nao-deixem-populistas-conversa-corrupcao-1932095
… porque senão
eles tornam-na num ataque contra a democracia, usando como pretexto a
corrupção, que lhes é verdadeiramente indiferente. Mais do que nunca, temos que
ter uma conversação rigorosa, dura, intransigente, mesmo impiedosa, sobre a
corrupção. Por vários motivos: um, estrutural, porque a corrupção é endémica em
Portugal; outro, de circunstância: porque vem aí da Europa o alimento da
corrupção, milhares de milhões de euros. Já se vêem os bandos de pombos atrás
do milho. Por último, porque nada mais fragiliza a democracia nos dias de hoje
do que a corrupção num debate público envenenado pelas redes sociais, com a
crise de toda a informação de qualidade, mediada e séria a ser substituída pelo
clamor populista e pela crise colectiva da “educação para a cidadania” dos seus
cultores...
Comecemos pelo
carácter estrutural da corrupção em Portugal nos dias de hoje. O que é que se
pode dizer quando temos enredados na justiça, arguidos, acusados, indiciados,
toda a panóplia de graus de indiciação, um antigo primeiro-ministro, vários
ex-ministros, vários secretários de Estado, autarcas, dirigentes da
administração pública, militares de altas patentes, responsáveis policiais,
juízes, procuradores, dirigentes desportivos de grandes clubes, empresários,
gestores de topo, deputados, banqueiros, personalidades do jet-set, génios das
tecnologias, uma multidão de medalhados, doutorados, homenageados, por aí
adiante. Quem é que escapa?
O que aconteceu é
que toda esta gente se encontrou uma ou mil vezes perante uma tentação a que
não resistiu, ou que acolheu de braços tão abertos, que nem chega a ser
tentação, felizes pelas oportunidades de ganhar dinheiro ilegalmente, de fugir
aos impostos, de vender ou comprar um favor, de roubar com colarinho
branquíssimo, de usar os seus conhecimentos nas altas esferas e os melhores
conselheiros no mercado, para defraudar os “parvos” dos outros. Tiveram
oportunidades, e criaram oportunidades, e é a facilidade com que isto
aconteceu, e a fila enorme de gente importante que foi lá buscar o seu quinhão,
que mostra que não é um problema de meia dúzia de corruptos, mas do “meio” que
facilita o crime, ou seja, é estrutural e não conjuntural. Eles vivem no “meio”
e são o “meio”.
Hoje isto é
dinamite para a democracia. Já houve alturas em que não foi assim, ou não foi tão
grave assim. Hoje, é. Os populistas usam a corrupção para atacar a democracia
divulgando o mito de que regimes de ditadura como o de Salazar-Caetano não
tinham corrupção. Completamente falso, e isso seria evidente se se tirasse a
tampa da censura. Mas os políticos sérios em democracia ajudam a demagogia dos
populistas a ter sucesso pela flacidez com que numa sociedade estruturalmente
corrupta defrontam a corrupção. O problema da corrupção não vem da democracia,
daí que o seu principal agente não seja sequer a chamada “classe política”, mas
vem da sociedade, das debilidades do nosso tecido social, de uma burocracia
assente em favores, da desigualdade de acesso ao poder e informação, e das
várias promiscuidades entre poderes fácticos, como o contínuo que vai da
construção civil aos clubes desportivos e terminando no poder político.
O problema é que
os promíscuos não estão sozinhos, porque, se se pensa que o alarido populista
significa verdadeira recusa deste tipo de actos, estão bem enganados. Como os
culpados lembraram, faziam habitualmente este tipo de tráficos sem qualquer
protesto, como se fosse normal e era reconhecido como normal. Até porque, como
diz o ditado, o peixe apodrece pela cabeça e por isso, de cima a baixo, o
sistema de cunhas, tráficos de influência, patrocinato e favores mergulha até
ao fundo e, numa sociedade com este tipo de convívio com a pequena, a média e a
grande corrupção, nunca haverá verdadeiro repúdio da corrupção a não ser nas
bocas de café, agora transpostas para as redes sociais.
Uma das coisas
que faz o populismo é centrar as suas acusações à corrupção “deles” e isolá-la
como alvo principal, deixando de lado o meio em que ela é partilhada com
“forças de segurança”, “agentes económicos”, “empresários de sucesso”,
magistrados, protagonistas de um mundo em que o populismo não toca. Já viram
alguma especial indignação com a corrupção nos grandes clubes quando não é o
“nosso”? Como se as pessoas que vociferam nos cafés e nas redes não tivessem
uma ideia de onde vem e para onde vão os muitos milhões e milhões que custam os
jogadores.
Isto significa
que não se pode fazer nada? Bem pelo contrário, pode até fazer-se muito, mas de
um modo geral não é o que habitualmente se faz na resposta pavloviana à pressão
populista. O populismo é contraproducente para combater a corrupção; pelo
contrário, até a reforça. Não é aumentar as penas, não é diminuir as garantias
do Estado de direito, não é oscilar entre a complacência e a intransigência. É
pensar de uma ponta a outra a administração, das autarquias aos ministérios, é
cortar radicalmente os milhares de pequenos poderes discricionários que por aí
existem, obrigar a que sejam transparentes e escrutináveis muitos processos que
nada justifica não serem públicos. Agora que vêm aí vários barris de dinheiro,
é vital que tal se faça.
Mas é também dar
o exemplo de que não se mistura “honra” com mundos muito pouco honrados. Por
isso é que a participação do primeiro-ministro, do presidente da Câmara de
Lisboa e de vários deputados num acto de promiscuidade com o poder fáctico do
futebol é muito grave, porque significa indiferença face à corrupção, numa
altura crítica do seu combate. Como não se retractaram, ficam com uma
mancha.
Historiador


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