quarta-feira, 23 de setembro de 2020

Boa viagem, Facebook!

 


Boa viagem, Facebook!

 

A Facebook pilha dados, manipula-os e, além disso, é monopolista — como a sua ameaça mostra. Só uma empresa monopolista pode sonhar ameaçar com a retirada dos seus serviços no caso de os reguladores tentarem fazer o seu trabalho.

 

RUI TAVARES

23 de Setembro de 2020, 0:44

https://www.publico.pt/2020/09/23/opiniao/opiniao/boa-viagem-facebook-1932526

 

É uma ameaça ou uma promessa? A notícia apareceu discreta na imprensa internacional ontem: a companhia Facebook insinuou que se a União Europeia continuar a tentar regular (ou seja, proteger) os dados dos cidadãos da UE, nomeadamente obrigando as companhias que operam com dados europeus a guardá-los em servidores sediados em território da UE, onde as proteções de dados e de privacidade são muito mais robustas, ela retiraria os seus serviços da Europa.

 

“No caso de [o Facebook] estar sujeito a uma suspensão total da transferência de dados dos utilizadores [da UE] para os EUA”, argumentou uma representante legal da companhia num caso que decorre num tribunal irlandês, “não é claro ... como, nessas circunstâncias, poderia continuar a fornecer os serviços do Facebook e do Instagram na UE”.

 

Antes de comentarmos a frase, vale a pena saber um pouco mais sobre este caso, porque ele revela bem como, ao contrário do mito, os cidadãos da União Europeia têm bastante mais poder do que habitualmente se diz. O caso contra a Facebook que está agora no tribunal irlandês — porque é na Irlanda que a Facebook Europa está sediada, como de costume para pagar menos impostos — foi iniciado por Max Schrems, um jovem austríaco que um dia irá parar aos livros de história europeus como exemplo de como um indivíduo pode combater e derrotar multinacionais na UE armado apenas do direito europeu.

 

Desde os seus vinte e poucos anos, Max Schrems tem iniciado caso após caso contra multinacionais por abusos contra a proteção de dados e a privacidade de cidadãos europeus, e obteve uma vitória estrondosa no Tribunal de Justiça da União Europeia ao arrancar deste uma declaração segundo a qual os níveis de proteção aplicados nos EUA não estão conformes com as exigência da lei europeia, pelo que o acordo que cobria as transações transatlânticas de dados (conhecido por Safe Harbour) não podia ser válido na sua atual forma.

 

O caso que o ainda jovem Max Schrems (tem agora 33 anos) levou de volta para a Irlanda pretende que o Comissário de Proteção de Dados irlandês tome as devidas consequências e force a Facebook a transferir as suas operações de tratamentos de dados de europeus para a Europa. Em tempos ouvi responsáveis políticos norte-americanos referirem-se a isto como “imperialismo de dados europeu”. Hoje começam eles a estar mais preocupados com as proteções ainda mais inexistentes que os chineses usam com plataformas como a TikTok e a WeChat. Pois bem, parece que na UE fizemos bem em não ter acordado para esses temas ontem.

 

Mas no caso do Facebook a coisa é ainda mais grave, porque a Facebook não é só uma companhia que pilha os nossos dados e os fornece a quem queira, por exemplo, manipular resultados eleitorais ou de referendos. A Facebook pilha dados, manipula-os e, além disso, é monopolista — como a sua ameaça mostra. Com uma certa transparência que aliás se saúda, só uma empresa monopolista pode sonhar ameaçar com a retirada dos seus serviços no caso de os reguladores tentarem fazer o seu trabalho. Imagine-se por exemplo uma empresa de brinquedos ameaçando retirar-se do mercado caso a União Europeia leve a sério as suas regras de segurança — não se imagina, pois não? A resposta das autoridades seria sempre: “as regras são estas; ou vocês conseguem fazer produtos conformes com elas, ou há muitas outras empresas de brinquedos que podem fornecer o mercado”. A ameaça seria sempre vazia à partida, e nenhuma empresa não-monopolista a poderia fazer.

 

 

No caso da Facebook, a ameaça faz-se porque a empresa controla serviços dominantes como o Facebook e o Instagram, redes sociais que são usadas diariamente por milhões de cidadãos, e pensa que deixar esses milhões de cidadãos sem serviço seria pressão suficiente para obrigar as autoridades europeias a recuar. E é aí que uma enorme oportunidade se apresenta à Europa: não só não ceder à chantagem, como desejar boa viagem à Facebook.

 

Ou seja, tal como no caso do hipotético fabricante de brinquedos que mencionei atrás, a Facebook tem de funcionar com as regras que valem para todos. Mas além disso, se a Facebook quisesse levar a sério a sua ameaça, ainda que temporariamente (na verdade, nenhuma companhia deste género se pode dar ao luxo de ignorar o maior mercado comum do mundo e os seus 500 milhões de consumidores), esse seria um grande favor que ela nos faria.

 

Pense-se na seguinte analogia: se a infraestrutura da Internet é o equivalente às estradas na nossa rede viária, e se as companhias como a Facebook são o equivalente às companhias de automóveis, os nossos dados são o combustível que faz mover os carros sem os quais as estradas não fariam sentido.

 

Em vez de deixarmos os nossos dados serem monopolizados — e manipulados — por alguém, é altura de os nossos dados serem autonomizados, por nós controlados, e protegidos de companhias monopolistas. Ter a Facebook de fora por uns tempos só ajudaria a criar a infraestrutura europeia de dados que serviria depois todo o tipo de serviços, de interesse público ou privado ou tudo o que houver no meio, sem possibilidade de abusos nem técnicas de concorrência desleal. Se a Europa o fizer, muitas mais e melhores redes sociais, mais responsáveis e respeitadoras dos indivíduos e das democracias, surgirão.

Sem comentários: