terça-feira, 22 de setembro de 2020

“A direcção-geral do Património não está falida”

 


ENTREVISTA

“A direcção-geral do Património não está falida”

 

Ângela Ferreira, secretária de Estado do Património, fala dos concursos para as direcções de 18 museus e monumentos e das três prioridades do Governo para esta área, admitindo dificuldades de comunicação e de tesouraria na DGPC.

 

Lucinda Canelas (Texto) e Rui Gaudêncio (Fotografia) 22 de Setembro de 2020, 7:30

https://www.publico.pt/2020/09/22/culturaipsilon/entrevista/direccaogeral-patrimonio-nao-falida-1932355

 

A Direcção-Geral do Património Cultural (DGPC) deu por terminada a fase de admissão de candidaturas para as direcções dos seus museus, monumentos e palácios naquele que é o primeiro concurso à luz do regime de autonomia para estes serviços aprovado há um ano e meio.

 

Foram recebidas 146 candidaturas para 18 lugares, 32 de cidadãos estrangeiros (de nacionalidades brasileira, espanhola, venezuelana, argentina, italiana e australiana).

 

Ângela Ferreira, a secretária de Estado do Património Cultural, está “muito contente” com esta estreia, embora não possa pronunciar-se ainda sobre a qualidade das propostas.

 

Neste processo em que se recandidataram 11 dos actuais directores houve até quem concorresse sem dizer para onde e não faltaram outras surpresas. Entre elas está o facto de jóias do património mundial campeãs de bilheteira como o Mosteiro dos Jerónimos (três candidatos) e dois dos museus mais visitados — Coches (dois) e Azulejo (cinco) — terem suscitado menos interesse do que serviços com um perfil tradicionalmente mais discreto, como os museus do Traje (13) ou do Teatro e da Dança (10).

 

Numa entrevista em que reconhece problemas de comunicação entre a DGPC e os directores de museus e monumentos, Ângela Ferreira enuncia as três prioridades do Governo para o sector e admite que a tesouraria do Património não tem a mesma capacidade de resposta do pré-pandemia. Não há, no entanto, nenhum buraco financeiro na DGPC, assegura.

 

Olhando apenas para os números, o concurso parece ter corrido bem até agora, mas será que é bom o nível das candidaturas? Correspondeu às expectativas?

Quanto às candidaturas em concreto não faço ideia, porque só estão acessíveis aos serviços administrativos e aos membros dos júris. Mas estamos muito contentes com os números, obviamente porque querem dizer que os nossos museus são desafiantes, mesmo os regionais.

 

É verdade que houve candidatos que não referiram o equipamento a que se candidatavam, mas foi um número residual [9 candidaturas].

 

Já identificaram algum aspecto a melhorar no concurso?

Muitos dos candidatos pediram-nos um formulário, que é uma coisa que este concurso não tem. Talvez valha a pena criar um no futuro para a parte mais administrativa, da avaliação curricular e dos requisitos mais formais. Mas os próximos concursos terão de abrir no segundo trimestre de 2021 e até lá não haverá tempo para reformular.

 

 

 

Foi publicada uma rectificação ao aviso do concurso de Junho para valorizar a “formação pós-graduada nas áreas da Museologia, do Património e da Conservação e Restauro”. Porquê insistir nesta formação e não na de História da Arte, Filosofia, Arqueologia ou Literatura, áreas de onde saíram alguns dos directores dos museus mais importantes do mundo?

O diploma de autonomia define que são estas áreas a valorizar e não outras. E foi debatido amplamente. Quando fizermos a sua revisão, em 2021, podemos abrir de novo essa discussão. Há pessoas contra e a favor. Agora tínhamos de cumprir o diploma. É preciso dizer que esse requisito não impede alguém de se candidatar sem formação nessas áreas…

 

Seria difícil que assim fosse, porque há 11 directores que se recandidatam e muitos não terão esta formação…

É verdade.

 

Os mais críticos defendem que o perfil de director que a DGPC e o Ministério da Cultura procuram dá mais valor a esta formação e à de gestão do que ao conhecimento do monumento ou das colecções do museu a que o candidato se propõe. São justas estas críticas?

Não, de todo. O que se procurou aqui foi criar um perfil que equilibrasse todas as áreas. Queremos uma pessoa que tenha uma visão a dez anos para o equipamento. O papel de determinado museu ou monumento no território relaciona-se com as suas colecções, mas também com a importância que tem na comunidade, com a sua capacidade para angariar mecenato, para formar equipas. A gestão das equipas e a gestão orçamental [deve ser feita] com vista a uma programação que se quer cada vez mais plural. Não se dá aqui mais importância à gestão ou ao conhecimento da colecção, mas ao equipamento como um todo.

 

Mas hoje temos directores sem formação em gestão ou em museologia que levam os museus a cumprir precisamente esse papel…

Sim, por isso são requisitos valorizados, não obrigatórios.

 

A ministra da Cultura disse que até ao final do ano estes equipamentos teriam os directores nomeados. O prazo é realista? Os júris que vão avaliar os candidatos já reuniram?

Ainda não. A DGPC conta que comecem a reunir ainda este mês e, face ao número de candidaturas, sem dúvida que [o prazo] vai resvalar até ao primeiro trimestre de 2021. Temos equipamentos com 13 candidatos. E no caso de existirem reclamações, não fazemos previsões.

 

Estão à espera delas?

Não, mas é normal em qualquer procedimento deste género.

 

Em Novembro os directores costumam apresentar os planos de actividades para o ano seguinte. Isto quer dizer que os que aí vêm não poderão fazer nada do seu plano pelo menos no primeiro ano/ano e meio?

Não é bem assim. Este concurso inova no processo de recrutamento, mas também naquilo a que vai dar origem. Quando os novos directores chegarem é com base na sua candidatura que vão apresentar à DGPC um plano plurianual a três anos, que vai ser contratualizado. O programa de actividades até então em vigor vai ser reformulado à luz deste plano plurianual, vai ser substituído.

 

E os compromissos entretanto assumidos pelos actuais directores com museus e outras instituições, com comissários e mecenas?

Obviamente que não se pode fazer tábua rasa dos compromissos já assumidos, terão de ser integrados.

 

Houve quem tivesse pedido para saber com que quadro de funcionários contava ao candidatar-se a determinado museu ou monumento sem que lhe fosse dada essa informação. Porque é que isso aconteceu?

Essa pergunta terá de a fazer à DGPC. O que procurámos com este recrutamento foi projectos inovadores que nos dissessem qual é a equipa óptima e o orçamento ideal, qual é a programação que deve ser aplicada naquela colecção, naquele museu em concreto. E isto sem condicionamentos à situação corrente.

 

Mas os orçamentos por serviço foram divulgados, dizendo que apenas 10% seria para programação. Porque é que não foram tão concretos no pessoal?

Todos nós sabemos as dificuldades que a DGPC e as direcções-regionais estão a atravessar em termos de recursos humanos. A Administração Pública como um todo, aliás. Estamos a trabalhar para resolver a breve trecho as lacunas de técnicos especializados, sobretudo nos museus. Mas era importante que os candidatos nos dissessem qual seria a equipa óptima, ideal, para o seu projecto.

 

Mesmo o orçamento que demos, é uma estimativa. No plano a três anos tudo poderá ser discutido com a DGPC.

 

É legítimo pedir um plano a dez anos quando hoje os directores não sabem sequer com que orçamento contam no ano corrente?

O plano plurianual vai definir essas verbas. Pela primeira vez o director vai saber, salvo haja outra hecatombe como a da covid-19, que orçamento terá para os próximos três anos. Isso vai ficar contratualizado entre o director e a DGPC. Como as comissões de serviço [nas direcções] são de três anos e podem ser renovadas duas vezes por igual período [nove anos, no total], pedimos uma visão a dez anos.

 

Fiquei surpreendida com o número de candidatos ao museu de Évora — dez — quando o seu orçamento para actividades anual estimado ronda os 32 mil euros. Também ficou surpreendida?

Sim, mas não necessariamente por causa do orçamento.

 

Porquê, então?

O facto de ser o único museu nacional no Alentejo…

 

...o único a sul do Tejo…

… motivou os candidatos. O desafio de coordenar um museu nacional é muito apelativo para qualquer profissional desta área, mas surpreendeu-me porque é um museu que precisa de muito trabalho para se implementar no Alentejo e no Algarve, de muito trabalho de dinamização e divulgação da sua colecção, que é maravilhosa, importante, assim como a do Museu Rainha D. Leonor, em Beja.

 

 

Foi nomeado um grupo de técnicos com competências na gestão para ajudar os directores na implantação deste regime de autonomia de museus e monumentos. Onde é que estão essas pessoas?

Criou-se um departamento de apoio à gestão dos museus. É uma equipa de funcionários públicos integrada na DGPC, seguindo um concurso por mobilidade. Abrimos concursos internos para juristas, gestores e economistas e alguns ficaram desertos. Temos de fazer novos, mas alguns destes técnicos já estão na DGPC a trabalhar.

 

Não seria mais útil que essas pessoas estivessem nos museus e monumentos, que têm uma falta de pessoal dramática?

O que se pretende é que, se houver necessidade, haja concursos específicos para os museus. Esta unidade foi muito bem vista pelos directores que, com o novo regime, vão ter responsabilidades financeiras maiores, como ajustes directos até ao valor de 99 mil euros, e que vão ser confrontados com processos administrativos mais pesados.

 

É certo que a DGPC, que resultou de uma fusão de dois organismos, é uma máquina muito pesada e que até hoje os directores de museus e monumentos tinham muita dificuldade em comunicar com a direcção-geral [para resolver] problemas do dia-a-dia. Agora têm uma unidade que lhes é exclusivamente dedicada. Convém que esteja centralizada para que possa auxiliar de forma transversal.

 

Os concursos para as direcções são a única face visível de um decreto-lei que foi aprovado há ano e meio mas que ainda não surtiu efeitos no dia-a-dia. Podemos dizer que oficialmente o decreto está em vigor, mas na prática não está. Concorda?

Não. A autonomia sempre esteve separada em duas vertentes. Por um lado, o Grupo de Projecto Museus no Futuro, que já avançou com um documento preliminar com 50 recomendações e vai apresentar o relatório final em Outubro, que é muito importante para consolidar uma estratégia a dez anos. Depois há a segunda fase, que é a implementação no terreno, que tem nestes planos plurianuais a sua pedra basilar, com a delegação de competências nos directores.

 

Houve algumas mudanças internas, com a criação da equipa de apoio à gestão, mas consideramos que o regime de autonomia só será implementado na sua plenitude com a entrada dos novos directores.

 

Este regime jurídico prometeu mais autonomia aos directores, mas todas as despesas continuam a precisar de autorização da DGPC, o que pode demorar muito; prometeu-lhes um fundo de maneio que tarda; prometeu-lhes a aplicação directa de receitas próprias em programação, mas continuam a não saber com que orçamento contam… O que é que falhou?

Não foi uma questão de falhar, foi uma opção. Quisemos que este diploma entrasse em vigor com os novos directores. Não nos fazia sentido fazer planos plurianuais para directores que ainda não estavam cá — nuns casos podem vir a ser os mesmos, é verdade, mas noutros não. Bem sabemos que há muitas queixas dos directores quanto à comunicação com a DGPC e tentámos resolvê-las com a criação deste departamento que em breve estará a funcionar. Isto é uma conjugação de várias peças. Espero que em 2021 esteja a funcionar na sua plenitude.

 

Mas com essa opção adiou-se um pouco a vida dos museus neste ano e meio…

Não podemos dizer que a programação foi adiada por causa de falta de comunicação [com a DGPC] ou por falta de fundo de maneio. Há uma pandemia, houve um confinamento, e isso obrigou a um adiamento de muita da programação.

 

Os museus e monumentos reabriram portas a 18 de Maio e a programação continuou a ser adiada…

A covid atrasou a implementação de tudo isto, começando pelo processo de recrutamento dos directores.

 

Mas quando o confinamento se instala em Março o regime de autonomia estava publicado desde Junho do ano anterior. Porque é que em dez meses não se lançaram os concursos?

Os concursos requerem uma série de processos administrativos que não se fazem de um dia para o outro.

 

Insisto: passaram 17 meses sobre a aprovação de um regime de autonomia a que a ministra da Cultura, Graça Fonseca, deu um prazo de validade de dois anos. É nos próximos sete meses que este decreto-lei vai fazer a diferença? Como?

Com a entrada destes novos directores e com os planos plurianuais, com objectivos concretos, orçamentos fixos e delegações de competências.

 

Em Junho de 2021 haverá um regime definitivo?

A partir daí vamos poder começar a identificar o que se prevê rever neste regime. E para isso é muito importante o trabalho do grupo Museus no Futuro.

 

Entre as principais recomendações desse grupo está a criação de um instituto para museus e monumentos, muito mais ágil do que a DGPC. A ministra da Cultura disse que concordava com a esmagadora maioria das recomendações, menos com esta. Como é que se dá atenção ao relatório sem atender a uma das suas recomendações fulcrais?

A criação do instituto não pode ser vista isoladamente…

 

…o grupo também não o faz.

As intervenções físicas nos equipamentos, o rejuvenescimento e robustecimento das equipas e a adaptação às novas tecnologias são para nós muito mais prioritários. São os três pilares [do relatório] que nos devem nortear. Com a constituição ou não de um instituto.

 

Não está totalmente afastada, então?

Para já, não. O relatório final só virá em Outubro. Não houve ainda uma ponderação em concreto sobre essa recomendação porque muito antes disso estão os três pilares que enunciei.

 

Falou de intervenções físicas. Há uma eternamente adiada — a ampliação do Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA). Vai acontecer?

Fizemos um levantamento físico de todos os equipamentos dependentes da DGPC e das direcções-regionais de Cultura. Esse levantamento está concluído e estamos a trabalhar num plano de intervenção a dez anos. São 47 edifícios. Até ao final do ano darei novidades em concreto sobre este plano em que se inclui a ampliação do MNAA.

 

Algumas das intervenções estarão previstas já no próximo Orçamento do Estado?

No próximo quadro comunitário de apoio e, portanto, no próximo Orçamento do Estado.

 

Falemos de OE: com a crise económica imposta pela pandemia é expectável que a dotação para a DGPC desça em 2021?

Não. A questão é que o OE é feito de receitas gerais e de receitas próprias. Como é público, os museus e monumentos tiveram uma quebra abrupta de receita. Nessa perspectiva haverá uma quebra de receitas próprias na dotação da DGPC. Para 2021 o seu orçamento vai reflectir o que prevemos venham a ser as receitas próprias no decorrer desse ano, com quebras ainda no turismo, mas já a arrancar.

 

Qual é a estimativa de perda de receita própria da DGPC?

Ainda não tenho números.

 

Mas a transferência de verbas do OE para a DGPC não será mais baixa do que em 2020…

Não.

 

A quebra de receitas próprias nos museus e monumentos, com as “galinhas dos ovos de ouro” do património mundial à cabeça, criaram um buraco financeiro na DGPC? Está “falida”?

Não, não está falida, mas a facilidade de tesouraria é diferente da de um ano normal. Neste momento não temos uma tesouraria disponível todos os dias para aquela que era a nossa perspectiva de investimento. Estamos a começar [a ter]. No funcionamento trabalhamos com receitas gerais e, por isso, continuamos a fazer face aos nossos compromissos, mas a parte do investimento tem de ser dilatada no tempo, requer um planeamento que é comum nestas situações, o que não significa que haja um buraco financeiro.

 

tp.ocilbup@salenacl

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