segunda-feira, 10 de agosto de 2020

O Novo Banco e a “campanha” do PÚBLICO / Novo Banco remete venda da GNB para reguladores e ameaça processar PÚBLICO

 

EDITORIAL

O Novo Banco e a “campanha” do PÚBLICO

 

Deixar estas operações quietas com o pretexto de que tudo está nos contratos ou faz parte das boas regras das ligações offshore, seria conveniente para o Novo Banco – ou para o Banco de Portugal e o Governo que lhes deram aval. Mas seria péssimo para o país.

 

MANUEL CARVALHO

10 de Agosto de 2020, 23:27

https://www.publico.pt/2020/08/10/economia/editorial/novo-banco-campanha-publico-1927689

 

Numa resposta à notícia do PÚBLICO sobre a venda da seguradora GNB Vida por um preço 69% abaixo do seu valor contabilístico, o Novo Banco avisou: “A campanha continuada do PÚBLICO será analisada juridicamente.” Num Estado de direito, é normal que litígios sejam dirimidos em tribunal. O PÚBLICO não tem litígios com o Novo Banco, mas aceita que o seu jornalismo em favor do interesse público possa causar danos reputacionais ou outros que levem os visados das suas notícias a “analisar juridicamente” as suas causas e consequências.

 

Sendo para nós normal que um banco recorra à Justiça para fazer prevalecer o que julga serem os seus direitos, há uma questão prévia que é importante sublinhar: esse recurso não pode ser pensado como instrumento de pressão contra a liberdade de imprensa constitucionalmente consagrada. Já vimos esse modus operandi nos tempos do BES de Ricardo Salgado ou do BPN de Dias Loureiro. Começa a ser tempo de se aceitar que, numa sociedade aberta, não há vacas sagradas.

 

Vale a pena deixar algumas notas sobre o que está em causa. Começando por demarcar o que não está: não está em causa a instituição, nem os seus trabalhadores, nem o serviço que presta às famílias ou às empresas. Está em causa, sim, um modelo de gestão que, a coberto das verbas do Fundo de Resolução das quais todos somos avalistas, vendeu milhares de activos a preços de saldo a fundos que tiveram relações com os seus administradores actuais ou muito próximos do seu principal accionista, por vezes com dinheiro emprestado pelo próprio banco.

 

Nada disto é, pelo que se sabe, ilegal; tudo se inscreve nos procedimentos rotineiros da alta finança; a gestão de António Ramalho tem prazos obrigatórios para se libertar de activos; os negócios que fez foram os possíveis. Sempre demos conta dessas contingências. Mas não abdicámos de mostrar que essas práticas, sendo potencialmente legais, são eticamente questionáveis. E lesivas do interesse dos portugueses. Deixar estas operações quietas com o pretexto de que tudo está nos contratos ou faz parte das boas regras das ligações offshore, seria conveniente para o Novo Banco – ou para o Banco de Portugal e o Governo que lhes deram aval. Mas seria péssimo para o país. Se todos esses negócios ruinosos se fizeram, apesar das notícias incómodas, imaginemos que outros negócios se teriam feito, se os jornalistas abdicassem do seu papel.

 

Se há algo que o PÚBLICO tem de fazer, é, portanto, escrutinar essas vendas nebulosas e trazê-las ao conhecimento. Se essa forma de estar, vilipendiada como sendo uma “campanha”, levanta dúvidas sobre a sua conformidade com a lei, cá estaremos para as discutir.

 

BANCA

Novo Banco remete venda da GNB para reguladores e ameaça processar PÚBLICO

 

O Novo Banco garante que o comprador da seguradora “teve a idoneidade verificada pelo regulador de seguros” e que a venda foi feita com acordo com Fundo de Resolução (Banco de Portugal). Banco diz que “campanha” do PÚBLICO “será analisada juridicamente”.

 

PÚBLICO e Lusa 10 de Agosto de 2020, 10:57

https://www.publico.pt/2020/08/10/economia/noticia/novo-banco-remete-venda-gnb-reguladores-ameaca-processar-publico-1927598

 

Numa nota enviada esta segunda-feira às redacções, o Novo Banco esclarece que “concretizou a venda da totalidade do capital social da GNB – Companhia de Seguros de Vida, S.A. (“GNB Vida”) à GBIG Portugal, S.A., uma sociedade totalmente detida por fundos geridos pela APAX PARTNERS, LLP, no dia 14 de Outubro de 2019, cumprindo o compromisso do Acordo Portugal/Comissão Europeia que obrigava a venda até 2019”.

 

“O valor de venda ascendeu a um preço fixo inicial de 123 milhões de euros, acrescido de uma componente variável de até 125 milhões de euros indexada a objectivos de distribuição constantes do contrato entre o Novo Banco e a GNB Vida para distribuição de produtos de seguros vida em Portugal por um período de 20 anos”, acrescenta o banco.

 

Com este contrato, “que tem por base uma parceria de longo prazo com incentivos partilhados”, o Novo Banco “garante a distribuição de produtos de seguros vida da GNB Vida em Portugal na rede comercial do banco, assim como promove a inovação financeira e a melhoria do cross selling dos produtos de seguros vida”, dia ainda a entidade bancária.

 

O Novo Banco considera ainda que “o preço final da transacção foi o melhor e resultou de um processo organizado de venda, competitivo e transparente, com o acordo do Fundo de Resolução, em que o comprador obteve idoneidade por parte da ASF”.

 

Esta reacção replica, no essencial, as respostas do Novo Banco incluídas no artigo do PÚBLICO, baseado em dados factuais e comprovados, que dá conta de que o Novo Banco vendeu em Outubro a seguradora com desconto de quase 70% a fundos geridos pela Apax, operação que gerou uma perda de 268,2 milhões que foi “compensada” com verba do Fundo de Resolução. Além disso, o negócio foi fechado com um magnata condenado por corrupção nos Estados Unidos.

 

Na nota divulgada pela Lusa, esta segunda-feira, o banco dirigido por António Ramalho e detido em 75% pelo fundo americano Lone Star diz ainda que “a campanha continuada do PÚBLICO será analisada juridicamente”.

Sem comentários: