LISBOA
Noventa fragmentos e mil cuidados: D. Sebastião de volta
ao Rossio
Estátua de 1891 foi destruída em 2016 e a colagem dos
pedaços decorreu este Verão. Regressa esta quinta-feira à estação.
João Pedro Pincha
(texto) e Rui Gaudêncio (fotografia) 19 de Agosto de 2020, 21:21
Agosto tem tido
uma meteorologia atípica, mas as previsões do Instituto Português do Mar e da
Atmosfera para esta quinta-feira parecem estranhamente adequadas à ocasião: céu
muito nublado e aguaceiros em quase todo o país. Os sebastianistas mais
empedernidos não sonhariam melhor – o monarca regressa, já não em corpo e
glória para conduzir o país ao Quinto Império, mas na forma de uma estátua que
se julgava irrecuperável.
Está concluído o
restauro da escultura de D. Sebastião que decorava a fachada da Estação do
Rossio e que há quatro anos foi destruída por um homem que nela se empoleirou
para tirar uma selfie.
A colagem dos
fragmentos decorreu nos últimos dois meses. “Falta-nos o último desafio, que é
o transporte”, diz Bruna Oliveira, revelando algum nervosismo com a operação
marcada para esta quinta-feira. Um camião especificamente vocacionado para
transportar obras de arte virá até ao rés-do-chão de Algés em que funciona a
empresa de conservação e restauro Água de Cal, seguindo para o Rossio envolto
em mil cuidados. “Esta peça, apesar de estar de pé, está muito frágil”, avisa a
responsável pelo trabalho.
Quando aqui
chegou no final de Junho, este D. Sebastião era uma amálgama de pedaços de
diferentes dimensões a que os técnicos tiveram de dar sentido. Até para eles o
resultado final foi uma surpresa. “Neste caso eu própria me surpreendi com
faltarem tão poucas peças”, afirma Bruna Oliveira. No fim da intervenção,
colados 90 fragmentos, reconhece-se novamente a figura do rei, quase à escala
real, e há pedras que vão ser devolvidas à Infra-Estruturas de Portugal (IP)
por não terem sido precisas.
A empresa pública
que gere as estações de comboios guardou todos os pedaços numa sala desde 2016
e até entregou aos restauradores coisas que não pertenciam à estátua. Esse
zelo, sublinha Bruna, permitiu o sucesso do trabalho. “Eles guardaram mesmo
tudo!”
A IP decidiu que
este D. Sebastião ficará a partir de agora no interior da estação, no átrio,
“ficando em espelho com a réplica que futuramente será colocada no nicho da
fachada”, explica fonte oficial. A construção da réplica ainda não está
contratada.
“O restauro foi
feito tendo em conta que a estátua vai para o interior, que não vai estar em
contacto com a chuva nem com o vento forte”, diz Bruna Oliveira. Apesar de ser
novamente uma figura una e de estar limpa de sujidade, um olhar atento
facilmente reconhece as zonas degradadas. Esculpida num único bloco de calcário
(e não lioz, como se chegou a pensar), a estátua “já tinha muitas
reconstituições”, explica a conservadora-restauradora, apontando para os dedos
do monarca, o medalhão ao peito, a espada, a fivela e os castelos do escudo
como zonas em que a argamassa tinha já substituído a pedra.
À semelhança das
antigas intervenções que foram reparando os defeitos da escultura, também esta
recorreu à argamassa para lhe dar a coerência devida. Isso aconteceu, por
exemplo, na cabeça do rei, a parte mais danificada com a queda. Foi preciso
reconstruir-lhe a nuca. “A intervenção não tenta dissimular o original, mas
discernir de forma harmoniosa o que é a peça original e o que é a intervenção”,
explica a responsável, sublinhando que o trabalho agora feito é reversível mais
tarde, se assim se entender.
Mais invisível e
mais permanente é o que foi feito para garantir a integridade da peça. Ao pô-la
de pé tornou-se inevitável incluir pequenos varões de inox e fibra de vidro
para que ela não desmoronasse. “Não dá para descolar”, garante Bruna Oliveira.
Habituada a
trabalhar com pedra e cerâmica, a técnica diz que “não é habitual” passarem-lhe
pelas mãos peças com tantas fracturas. Até a Direcção-Geral do Património
Cultural, que analisou os fragmentos e ajudou a IP a preparar o caderno de
encargos, chegou a dar a estátua como quase irrecuperável, apontando para um
restauro de 70%. Olhando para a peça agora, esse objectivo parece ter sido
largamente ultrapassado.
Nos últimos
quatro anos, a destruição do D. Sebastião originou várias moções e
recomendações na Câmara de Lisboa e na assembleia municipal e até foi motivo
para uma manifestação. “É muito bom para o património haver estas discussões e
as pessoas se interessarem”, afirma Bruna Oliveira. Pelo contrário, não vê com
bons olhos que o homem que derrubou a estátua tenha saído do tribunal
absolvido, como o PÚBLICO revelou. “Parece que podemos fazer tudo com o
património e nada nos acontece”, lamenta.
tp.ocilbup@ahcnip.oaoj


Sem comentários:
Enviar um comentário