OPINIÃO
Importam-se de acordar para a realidade do país?
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17.08.2020 18h41
José Gomes
Ferreira
SIC
Caros Marcelo
Rebelo de Sousa, Eduardo Ferro Rodrigues, António Costa e Rui Rio, importam-se
de acordar rapidamente para a realidade social, económica e financeira do país
e tomar consciência da tragédia que nos atingiu?
Só tomando
consciência da realidade que nos cerca é que poderemos começar a tomar medidas
para a melhorar. Se nem sequer somos capazes de reconhecer a natureza da
dimensão dos problemas que temos, não podemos esperar que se resolvam de forma
sustentável e duradoura.
Os problemas que
temos medem-se pela fome que já se vive em Portugal. Se não fossem as ajudas do
Banco Alimentar, das misericórdias, das IPSS, das igrejas com destaque para a
Católica, das câmaras municipais, das juntas de freguesia, dos autarcas e dos
milhares de voluntários distribuidores e dadores, a situação social já se teria
tornado explosiva em muitas cidades, vilas e bairros do país.
Os problemas que
temos medem-se pelo elevado valor da ajuda pública (com dinheiro que o Estado
não tem e para isso pede emprestado nos mercados financeiros), para compor o
rendimento das famílias que tiveram de ficar em lay-off ou já perderam os
empregos, bem como pelas moratórias aos impostos e às prestações aos bancos,
que as famílias teriam de estar a pagar e que em breve irão voltar a pagar,
juntamente com a parte acumulada desses pagamentos diferidos.
Os problemas que
temos medem-se pelo índice de risco de falência de centenas de milhares de
empresas nacionais, até agora mantidas com o regime de lay-off simplificado e
pelo programa que o substitui, bem como pelas moratórias fiscais e bancárias de
que ainda estão a beneficiar, mas que acabam em breve.
Os problemas que
temos medem-se pelo gigantesco volume dos empréstimos bancários garantidos a 80
ou 90 por cento pelo Estado, que mais cedo ou mais tarde vão desencadear o
acionamento dessas garantias por parte dos bancos, fazendo subir ainda mais a
já descomunal dívida pública portuguesa.
Os problemas que
temos medem-se pelo ritmo crescente de entrega de casas aos bancos por parte de
milhares de famílias que já não conseguem suportar as responsabilidades dos
empréstimos. E pelo número crescente de empresas que já registam incidentes de
crédito, desde as mais pequenas falhas de pagamentos até à declaração de
impossibilidade total de assumir as suas responsabilidades financeiras.
Os problemas que
temos medem-se pelos alertas de cada vez mais especialistas sobre uma nova e
profunda crise bancária que se está a formar em Portugal e por toda a Europa,
podendo levar à acumulação de mais de 800 mil milhões de euros de crédito
malparado, a curto, médio prazo.
O problema maior
do país cabe numa frase simples: desapareceu 10 por cento do nosso PIB anual em
2020, e não há maneira de o voltar a recuperar por completo em 2021. A maior
parte deste PIB era composto por exportações sob a forma de serviços de turismo
prestados a estrangeiros, bem como transporte aéreo, restauração, organização
de conferências e demais atividades associadas.
Esta parte do PIB
desapareceu e não volta tão cedo, porque o mais certo é não ser possível acabar
com os novos surtos e termos de enfrentar uma segunda vaga da pandemia antes de
estar disponível uma vacina ou um novo tratamento rápido e eficaz.
Em consequência,
aumentaram os apoios sociais distribuídos pelo Estado e baixaram drasticamente
as receitas em impostos e contribuições para a segurança social. Em espelho
invertido com o PIB, o défice das contas do Estado inchou que nem um balão e
está prestes a rebentar numa nova crise de financiamento público.
Numa altura em
que é urgente discutir formas de cooperação institucional e definir o que
queremos coletivamente para recompor o perfil da nossa economia, chamando à
mesma mesa Patrões, Sindicatos, Governo, Oposição, Deputados, Partidos,
Universidades e Especialistas, para encarar o problema de frente, o que vemos?
Vemos uma taxa de
desemprego artificialmente diminuída por regras contabilísticas inovadoras,
enquanto baixa a população ativa e sobe exponencialmente a população inativa;
Vemos o saldo das
contas externas do país a degradar-se rapidamente com a manutenção de um volume
elevado de importações, enquanto as exportações caíram a pique.
Vemos vários
setores da agricultura, agro-indústria, indústria transformadora e serviços,
com estrutura empresarial pequena e média, a serem ultrapassados no acesso a
fundos estruturais e a créditos bancários pelos grandes projetos da economia
não transacionável e do compadrio com a política.
Vemos um plano
para “salvar” a economia nacional encomendado a um especialista que pisca o
olho à esquerda e à direita, ao setor publico e ao privado, quer apostar nas
empresas do regime concorrencial, mas acaba por destacar a importância das
grandes obras públicas, ferrovias, portos e plataformas logísticas;
Vemos um plano
estratégico que, por ser tão abrangente e ambicioso, cria as próprias condições
para nunca ser aplicado.
E vemos um
Presidente da República, um Presidente do Parlamento, um primeiro-ministro, um
ministro das Finanças e um líder da oposição aparentemente alheados da
gravidade deste momento importantíssimo da nossa vida coletiva. Sendo que o
advérbio de modo “aparentemente” comporta um sério problema nacional: seja real
ou não, este aparente alheamento dos responsáveis políticos contagiou a
sociedade portuguesa e eliminou o sentido de urgência em encontrar soluções
rápidas para a crise social, económica e financeira em que estamos mergulhados.
Enquanto os mais
altos responsáveis da nação não acordarem deste alheamento, vamos todos
continuar adormecidos, deixando escoar o tempo mais precioso para preparar o
futuro do país.
Apostar em
produção nacional para substituir importações, desde bens alimentares a
produtos de higiene, limpeza e segurança sanitária, equipamentos domésticos,
equipamentos médicos, medicamentos e afins;
Apostar em mais
exportações, desde mais produtos agroalimentares a moldes, máquinas e
equipamentos industriais, componentes variados para a indústria, programas de
software, assistência técnica, apoio administrativo e os mais variados serviços
de trabalho à distância para outros países e mesmo outros continentes.
O que é
necessário e urgente é um plano para substituir rapidamente o PIB que
desapareceu e para compensar o gigantesco desacerto entre as despesas e as
receitas do Estado.
2020 já vai ser
um ano perdido. Não podemos entrar em 2021 sem termos definido a estratégia
para colmatar dois défices gigantes: o das contas externas e o das contas
públicas. Temos menos de quatro meses para delinear esse plano e para o pôr em
marcha.
Uma urgência que
não é compatível com a atitude pública visível dos mais altos responsáveis do
país.

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