terça-feira, 18 de agosto de 2020

As (más) opções de Vladimir Putin

 

Jorge Almeida Fernandes

ANÁLISE

As (más) opções de Vladimir Putin

 

A “linha vermelha” para a Rússia intervir na Bielorrússia seria o aparecimento de palavras de ordem pró-ocidentais. O que, até agora, não aconteceu. Putin pensará duas vezes no risco de virar contra Moscovo uma opinião pública que simpatiza com a Rússia.

 

18 de Agosto de 2020, 7:12

https://www.publico.pt/2020/08/18/mundo/analise/opcoes-vladimir-putin-1928391

 

As emoções estão nas ruas e praças de Minsk mas as chancelarias voltam os olhos para Moscovo. Que vai Vladimir Putin fazer? Moscovo está farta de Alexandre Lukashenko, dizem os analistas. Mas não é isso que importa. A Moscovo, importa a Bielorrússia. O país, que partilha muita da cultura e da história da Rússia, é um aliado vital. É a geopolítica que comanda. Os interesses estratégicos de Moscovo não variaram desde a ruptura da União Soviética. Para a Rússia, o seu pequeno vizinho é um Estado-tampão perante a NATO. Moscovo queixa-se da ajuda económica que dá a Minsk, mas é o Kremlin quem está interessado em manter a dependência bielorrussa.

 

A revolta é contra Lukashenko, por eleições livres e contra a repressão. Não houve, até agora, manifestações de sentimentos anti-russos. Um dos problemas que fará Putin pensar duas vezes é o risco de uma opinião pública que simpatiza com a Rússia se virar contra ela. Lukashenko nunca pisou a “linha vermelha” de Moscovo, mas sempre foi especialista em jogo duplo. Neste momento, sitiado pelos manifestantes e a ver derreter o que lhe resta de base apoio, pede socorro a Moscovo.

 

É altamente improvável uma intervenção militar ao lado de Lukashenko, mas se fizer isso será como resposta à percepção de uma ameaça existencial, não por desejo de anexação ou para derrubar um autocrata

Anna Arutunyan, analista

 

É importante que os leitores saibam que, “pela primeira vez, Lukashenko fez uma campanha anti-russa e com base numa retórica inteiramente anti-russa”, explica o analista Dmitry Bolkunets, de Minsk. Prender 32 “mercenários russos” e acusá-los de tentar desestabilizar as eleições presidenciais foi um dos melhores momentos do circo eleitoral. Acaba de os libertar.

 

Antes das eleições, declarava o analista russo Andrey Kazakevich: “A actual política externa russa para a Bielorrússia assenta na premissa de que o regime sobreviverá às próximas eleições mas emergirá mais enfraquecido. Derrubar Lukashenko poderia acarretar riscos imprevisíveis para Moscovo, e é preferível lidar com um Lukashenko fraco e mais acomodatício nas negociações com a Rússia.” Ou, para utilizar a expressão cruel de outro analista: “Os russos precisam dele, mas de joelhos.”

 

Ao contrário da Ucrânia da “Euromaidan (2013), não há na Bielorrússia uma oposição organizada nem nacionalismo anti-russo. Mas a dimensão do movimento faz tremer Moscovo. A “linha vermelha” seria o aparecimento de palavras de ordem pró-ocidentais. O que, até agora, não aconteceu. “Os protestos são geopoliticamente neutros. Não há apelos para integração na UE nem na NATO”, frisa a analista russo-americana Anna Arutunyan. A União Europeia condena a repressão mas também não está interessada numa Euromaidan em Minsk.

 

As alternativas de Moscovo

Mas num movimento espontâneo e explosivo pode haver súbitas mudanças. Que acontecerá se Putin prestar assistência a Lukashenko? A preocupação dos russos é não haver uma alternativa visível a Lukashenko e isso poder levar ao caos. Admitem os analistas que Moscovo esteja a repensar no acordo assinado com Lukashenko há mais de 20 anos mas que nunca foi concretizado, por oposição de Minsk. É a chamada União-Estado – a integração num espaço económico comum com a Rússia, não apenas ao nível aduaneiro mas com instituições governamentais comuns – una espécie de confederação, em que a Bielorrússia seria uma “província russa”.

 

Moscovo não quer manifestamente intervir. Mas, depois da Geórgia e da Ucrânia, pensar nessa hipótese não é pura imaginação. “A cultura de segurança russa encerra uma visão paranóica da geopolítica”, sublinha Arutunyan. “É altamente improvável uma intervenção militar ao lado de Lukashenko, mas se fizer isso será como resposta à percepção de uma ameaça existencial, não por desejo de anexação ou para derrubar um autocrata”. Corrobora Fiodor Lukyanov, o mais influente analista russo: “O interesse crucial da Rússia susceptível de desencadear uma intervenção seria uma orientação geopolítica, um movimento institucional em direcção às instituições ocidentais.”

 

Hoje, é claro que a era Lukashenko acabou e penso que isso é claro para Moscovo, inclusive para o Kremlin

Dmitry Suslov, analista russo

 

Outra opção será procurar alternativas. Moscovo e Bruxelas apreciariam um outro cenário: uma transição pacífica para uma Bielorrússia sem Lukashenko. “Hoje, é claro que a era Lukashenko acabou e penso que isso é claro para Moscovo, inclusive para o Kremlin”, resume o analista russo Dmitry Suslov.

 

“Putin foi completamente surpreendido pelo que aconteceu, talvez não tanto como Lukashenko”, diz Nigel Gould-Davis antigo embaixador britânico em Minsk. “Não sabem efectivamente como responder a uma situação que muda rapidamente e é inerentemente imprevisível. É quase impossível. Mas eles tentarão controlá-la.”

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