terça-feira, 14 de julho de 2020

O primeiro dia da libertação do trauma do BES / Grupo Espírito Santo estava falido cinco anos antes do seu colapso

IMAGEM DE OVOODOCORVO



Campanha de Cavaco e actual presidente da TAP pagos por saco azul do GES

Acusação descreve forma como o banqueiro e os seus homens e mulheres de confiança foram responsáveis pela “produção sistemática e sucessiva de demonstrações financeiras falsas, divulgadas a accionistas, credores, auditores de empresas do GES, supervisores, nacionais e estrangeiros”.

Ana Henriques e Mariana Oliveira 15 de Julho de 2020, 6:39

A sociedade ES Enterprise, que funcionava como saco azul do Grupo Espírito Santo, financiou a campanha eleitoral de Cavaco Silva em 2011, tendo servido também para pagar serviços ao então deputado social-democrata Miguel Frasquilho, hoje presidente da TAP. Ambas as figuras da política nacional têm alegado desconhecimento deste facto, relatado no despacho de acusação proferido esta terça-feira contra o líder do universo Espírito Santo, Ricardo Salgado, e 24 outros arguidos.

Ao banqueiro que já foi um dia conhecido como DDT – Dono Disto Tudo, o Ministério Público assaca nada menos de 65 crimes, entre os quais associação criminosa, corrupção activa no sector privado, branqueamento de capitais e manipulação do mercado. Se tudo correr como desejam os sete procuradores que assinam a acusação, no banco dos réus sentar-se-ão ainda, entre outros, o antigo braço direito de Salgado, Amílcar Morais Pires; Isabel Almeida, directora financeira do banco; o contabilista Francisco Machado da Cruz e membros da família como José Manuel Espírito Santo e Manuel Fernando Espírito Santo. De fora do rol dos acusados fica José Maria Ricciardi.

O DCIAP – Departamento Central de Investigação e Acção Penal acredita que Salgado terá construído dentro do BES um departamento que funcionava à margem dos órgãos de gestão e de controlo e dos supervisores, com o objectivo de “segurar” o GES, financiando a dívida das empresas da família. O Ministério Público contabiliza em 11.800 milhões de euros o “valor que integra o produto de crimes e prejuízos com eles relacionados”.

A defesa de Ricardo Salgado reagiu logo que foi anunciada a acusação, confirmando ter sido notificada do documento e queixando-se do comportamento do Ministério Público neste processo. Numa nota assinada pelos dois advogados do antigo banqueiro estes garantem que o cliente “não praticou qualquer crime e esta acusação ‘falsifica’ a história do Banco Espírito Santo”. Admitem que Salgado cometeu “erros” e voltam a fazer um ataque violento contra o governador do Banco de Portugal, Carlos Costa, que em Agosto de 2014 determinou a resolução do BES. “Foi este mesmo Banco de Portugal liderado pelo Dr. Carlos Costa que, depois de apagar das fachadas uma marca com mais de 140 anos de existência, interveio neste inquérito-crime, em claro e manifesto conflito de interesses”, destaca a defesa de Salgado.

Já a acusação descreve, ao longo de mais de quatro mil páginas, a forma como o banqueiro e os seus homens e mulheres de confiança foram responsáveis pela “produção sistemática e sucessiva de demonstrações financeiras falsas, que foram divulgadas a accionistas, credores, auditores de empresas do GES, supervisores, nacionais e estrangeiros”.

“O GES apresentou-se publicamente imune às sucessivas crises financeiras, globais e nacionais, usando as suas entidades bancárias, e o negócio destas com os seus clientes, como fonte incessante e crescente de liquidez”, referem os magistrados do DCIAP.


O Ministério Público juntou mais de duas centenas e meia de inquéritos nesta investigação, que chega agora ao fim. Mas este não será o ponto final nesta história, já que alguns casos vão levar à extracção de cópias de elementos de prova já recolhidos e dar origem a novos inquéritos. É o caso dos crimes relacionados com alegados subornos pagos a entidades públicas sul-americanas para que financiassem o GES. A este respeito tem-se falado sobretudo dos contactos feitos com políticos venezuelanos, mas entre os titulares de altos cargos públicos sob suspeita figura também o ex-vice-presidente do Banco do Brasil, Allan Simões Toledo. Terá sido um dos beneficiários do saco azul em troca de uma linha de crédito de 200 milhões de dólares que abriu ao BES quando este já se encontrava em dificuldades. A própria investigação à ES Enterprises foi remetida para um inquérito autónomo, razão pela qual a sociedade deixou de ser arguida neste processo.

Pago através de offshore
No que diz respeito a Miguel Frasquilho, entre 2009 e 2011 dirigiu a Espírito Santo Research, uma correctora do BES. Só que houve dinheiro que lhe foi pago através de uma conta na Suíça titulada pela Espírito Santo Enterprises, a companhia offshore sediada nas Ilhas Virgens Britânicas considerada pelo Ministério Público como tendo funcionado como o saco azul do GES. “Entre 2008 e 2011, Miguel Frasquilho recebeu 68.950 euros, em contas de que é co-titular com irmão e pais”, pode ler-se na acusação. O oitavo volume do processo tem uma parte que lhe é dedicada, como um dos beneficiários do saco azul. O actual presidente da TAP alegou ao semanário Expresso que tinha dívidas para com estes seus familiares, razão pela qual preferiu que o dinheiro fosse depositado em contas que tinha com eles. E negou ao mesmo tempo saber a proveniência destes valores - uma offshore que não fazia parte da estrutura do BES.

Já no que concerne a Cavaco Silva, diz o Ministério Público que em Novembro de 2010 Ricardo Salgado e outros administradores do BES passaram cheques de contas suas à ordem da campanha eleitoral para a sua reeleição para Presidente da República. Cada um destes donativos perfazia o máximo permitido por lei, 25.560 euros. O que nada teria de mal, não se tivesse dado o caso de o dinheiro ter sido devolvido aos administradores pela ES Enterprises. A lei eleitoral portuguesa não permite às empresas financiarem candidatos, e esta foi a forma de a contornar. Ao todo, foram transferidos para a campanha cerca de 250 mil euros.

Os lesados do BES que não se constituíram assistentes neste processo-crime, com o objectivo de serem ressarcidos dos prejuízos que sofreram, têm agora 20 dias para o fazer a contar da data do despacho de acusação. Como o início das férias judiciais interrompe a contagem dos prazos, poderão fazê-lo até Setembro. Terão, no entanto, de se fazerem representar por um advogado.


Por coincidência ou não, o Ministério Público foi ontem alvo de um ataque informático, o que atrasou os procedimentos relacionados com a finalização desta acusação.


EDITORIAL
O primeiro dia da libertação do trauma do BES

Ricardo Salgado e os seus sequazes não são ainda culpados de coisa nenhuma. Mas a sua acusação tem de deixar ao menos a sensação de que se eliminou mais uma etapa de um pesadelo. Eles, que quiseram criar um Estado dentro de um Estado, perderam

MANUEL CARVALHO
15 de Julho de 2020, 0:03

Esperámos seis anos pelo dia em que o Ministério Público fosse capaz de decidir a sorte das investigações sobre o mais danoso escândalo para a vida pública do país em muitos anos – a saga de Ricardo Salgado à frente do BES. A espera ainda não acabou. Mas até que os tribunais a esclareçam por completo, até que as suas sentenças transitem em julgado e se firme na História o que de facto aconteceu, podemos ao menos reter a ideia de que estamos mais perto de nos livrarmos do trauma. O despacho do Ministério Público e o que foi revelado ao longo dos anos em várias fatias pela imprensa é suficiente para percebermos que, como país, demos um golpe aos que o quiseram capturar pelo poder do dinheiro, à arrogância de uma família poderosa que não percebeu os ares do tempo, a um séquito de empresários venais e a um punhado de políticos que pensaram ser possível transformar um país da União Europeia numa república das bananas.

O que o despacho do Ministério Público nos revela, com as suas acusações, os seus relatos de associação criminosa, as mentiras, a corrupção e a pressão sobre os poderes legítimos para garantir privilégios de uns poucos, não pode ser visto como uma condenação de uma falha colectiva. Pelo contrário. Apesar dos anos excessivos que se consumiram na investigação, chegámos a um princípio do fim que pode sublimar toda a condescendência ou todo o alheamento com que tolerámos o caso BES. Foi, ao menos, possível acusar quem se julgava dono disto tudo. Quem se sentia capaz de contorcer a lei para imperar. Quem não olhou a meios perversos, da intriga à corrupção, para se manter no poder. O país pode incomodar-se por ter sido enganado durante tantos anos sem disso dar conta. Mas pode também reconhecer a determinação de homens como Carlos Costa ou a perseverança do Ministério Público em levar a verdade até aos limites do possível.

Ricardo Salgado e os seus sequazes não são ainda culpados de coisa nenhuma. Mas a sua acusação tem de deixar ao menos a sensação de que se eliminou mais uma etapa de um pesadelo. Eles, que quiseram criar um Estado dentro de um Estado, perderam. Eles, que quiseram servir-se da democracia para lhe inquinar o princípio da igualdade de todos perante a lei, acabaram nas malhas da Justiça. Não chega para eliminar os pesados custos que, como país, pagamos. Hoje, porém, olhemos apenas para o que aconteceu: eles estão acusados e, no mínimo, nós temos o direito de sentir que a nossa indignação durante estes anos não foi em vão.

Grupo Espírito Santo estava falido cinco anos antes do seu colapso

Além de Ricardo Salgado, só foram acusados mais dois membros da família: José Manuel Espírito Santo e Manuel Fernando Espírito Santo.

Mariana Oliveira 15 de Julho de 2020, 0:51

O Grupo Espírito Santo (GES) já estava falido cinco anos antes do seu colapso, em 2014, afirma a acusação do Ministério Público, que imputa ao antigo banqueiro Ricardo Salgado 65 crimes, incluindo associação criminosa, 30 crimes de burla qualificada e 12 crimes de corrupção activa.

Salgado é um dos 25 arguidos acusados esta terça-feira pelo Departamento Central de Investigação e Acção Penal (DCIAP), que durante quase seis anos tentou desvendar uma complexa teia de empresas e esquemas financeiros que levaram ao fim do Banco Espírito Santo e do grupo em que este estava inserido.

No final de 2009, a Espírito Santo Internacional, a principal holding do grupo, já se encontrava em bancarrota com capitais negativos de, pelo menos, 962 milhões de euros, sublinha a acusação, um documento com mais de 4100 páginas. Em finais de 2012 a situação agravou-se para um acumulado de capitais negativos de mais de 1,6 mil milhões de euros. “A impotência económica do GES, e dos seus accionistas, para resolver, por si, esta situação, era em 2009 incontornável”, lê-se na acusação.


O banqueiro que ao longo das mais de duas décadas se assumiu como a figura central do império Espírito Santo, é apresentado como o líder de uma associação criminosa que durante anos conseguiu esconder de praticamente todos a falência do grupo. “Ricardo Salgado foi o responsável por uma estrutura de governo da parte financeira do GES assente em conflito de interesses, em que o seu prevaleceu, e com organismos de controlo inoperantes, quer externos quer internos, a quem sonegou informação elementar sobre o modo como organizou o negócio bancário, e nele recrutou, a soldo, um conjunto de funcionários que foram posicionados para os seus desígnios criminosos”, escrevem os sete procuradores que assinam a acusação.

O grupo aparecia publicamente imune às sucessivas crises financeiras, numa farsa que terá sido mantida, pelo menos, desde 2009 e era conhecida de um “núcleo restrito”. Nessa altura nem os dois únicos membros da família que integram o rol de acusados, José Manuel Espírito Santo e Manuel Fernando Espírito Santo, saberiam da dimensão do problema, que mais tarde terão ajudado a camuflar.

Tal só foi possível, diz o Ministério Público, porque Salgado conseguiu a “produção sistemática e sucessiva de demonstrações financeiras falsas, que foram divulgadas a accionistas, credores, auditores de empresas do GES, supervisores, nacionais e estrangeiros”.

O banqueiro ter-se-á rodeado de funcionários leais, como o antigo braço direito, Amílcar Morais Pires, que corromperia com verbas transferidas através do chamado “saco azul” do grupo, para o ajudarem nos esquemas que permitiam financiar os negócios da família. “Conjuntamente com Amílcar Pires, com o departamento financeiro do BES e com funcionários que posicionou na Eurofin, Ricardo Salgado criou sob a administração da Eurofin um conjunto de veículos cuja existência e actividade foi ocultada ao mercado, auditores e supervisores, que foram responsáveis por desviar dinheiro do negócio do BES – numa operativa ruinosa para o banco, na venda de dívida própria aos seus clientes – e destiná-lo aos fins por si pretendidos: cobertura de perdas irrecuperáveis; manutenção de negócios inviáveis; e distribuição de dinheiro pelos que o coadjuvavam nos actos criminosos que eram praticados no seio do GES financeiro”, lê-se na acusação. Só o esquema de financiamento oculto da Eurofin terá provocado um prejuízo ao BES, que o Ministério Público contabiliza em perto de 3000 milhões de euros no final de Julho de 2014.

tp.ocilbup@arieviloem

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