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OPINIÃO
O nosso plano de recuperação é um cozido à portuguesa
A estratégia portuguesa é menos aborrecida, menos
anal-retentiva, mais imaginativa e abundante em propostas e ideias do que a
alemã. Mas dá-me a sensação que a estratégia alemã foi pensada para ser
cumprida, e aí é que a porca torce o rabo.
RUI TAVARES
13 de Julho de
2020, 6:20
No mesmo dia,
mãos amigas fizeram-me chegar a “Visão estratégica para o plano de recuperação
económica e social de Portugal 2020-2030”, da autoria de António Costa Silva, e
o documento sucintamente intitulado “Estratégia Industrial 2030”, do ministério
federal alemão da Economia, sem autor individual, e apenas com o subtítulo
“Orientações para uma política industrial alemã e europeia”. Em suma, a nossa
estratégia de recuperação e a estratégia alemã (ainda pré-covid, publicada em
novembro do ano passado).
A comparação
entre ambos os documentos é instrutiva. A começar pelo tamanho. A estratégia
portuguesa, escrita por um só autor, tem 120 páginas. A estratégia alemã tem 35
páginas. Isto significa que a estratégia alemã tem menos de um quarto da
extensão da estratégia portuguesa, para um país com oito vezes mais população
(não fui verificar a diferença de PIB para não me deprimir).
A estratégia
portuguesa cita filósofos alemães, Kant e Hegel pelo menos que eu tenha dado
conta, além de começar (muito bem) por Karl Polanyi, a que chama austríaco, mas
que era húngaro. A estratégia alemã não cita filósofos mortos, mas determina
que todas as despesas com investigação científica, na academia e fora dela,
devem passar a ter benefícios fiscais.
A estratégia
alemã é não só mais curta, como não é sequer toda ela sobre a Alemanha: um dos
seus três pilares é sobre a Europa — o que a Alemanha quer para a Europa, o que
a Europa pode ser no mundo, etc. A estratégia portuguesa é singularmente omissa
sobre a Europa, a não ser num aspecto: para termos esperança de a implementar,
precisamos do dinheiro da Europa. De resto, num gráfico sobre o modelo
geopolítico para o futuro de Portugal (figura 4), o país é apresentado como
“'jangada’ atlântica” que tem como opções o Atlântico Norte, o Atlântico Sul, a
Lusofonia, o Norte de África ou as “Ásias”. A Europa, espaço transnacional mais
integrado do mundo, em que nos inserimos, principal destino das nossas
exportações, não aparece.
Pormenor talvez
insignificante: a estratégia alemã está traduzida para inglês, provavelmente
porque é entendida não só como exercício prospectivo mas de propaganda; não só
para a Alemanha decidir o que fazer, mas para que os outros saibam o que os
alemães decidiram fazer. Aí está uma boa ideia para o futuro: traduzir a
estratégia portuguesa para outras línguas e aproveitar para a resumir, e depois
aplicar o resumo, porque a uma lista de prioridades que tem tudo, não lhe falta
nada, a não ser prioridades.
Para não
prolongar o exercício, deixem-me já antecipar que a estratégia portuguesa é
muito mais interessante do que a alemã. É menos aborrecida, menos
anal-retentiva, mais imaginativa e abundante em propostas e ideias, tanto das
práticas como das irrealizáveis. No entanto, dá-me a sensação que a estratégia
alemã foi pensada para ser cumprida, e aí é que a porca torce o rabo. A
estratégia alemã não fecha sem descrever os seus próprios instrumentos de
acompanhamento e monitorização, do grupo de peritos independentes encarregados
de providenciar uma análise regular sobre o cumprimento da estratégia, aos
diálogos estruturados com os parceiros sociais e à realização de
conferências-marco para divulgação dos resultados.
A estratégia
portuguesa não se preocupou com a sua própria implementação porque deve ter
pensado que “a partir daqui se encarrega o Governo”. Ledo engano. Uns ministros
gostarão de umas coisas, outros de outras, outros terão já a sua ideia formada
sobre o que devem fazer, e o plano é capaz de ir parar à algibeira de quem o
encomendou sem que dele veja mais a luz do que esta ou aquela proposta
desgarrada.
É pena; mesmo com
os seus defeitos, uma estratégia bulímica como esta é melhor do que estratégia
nenhuma. Mas aquilo que os alemães parecem entender é que o método deve ser
coincidente, ou mesmo consubstancial, à estratégia. Se se quer que o futuro de
Portugal se baseie numa economia do conhecimento, com mais trabalho de equipa,
com mais responsabilidade e autonomia, com decisões mais distribuídas e
partilhadas, não se deve para isso encomendar uma estratégia a um indivíduo
apenas, como se fosse possível nesta nossa era ir ali à Rotunda pedir um
Marquês de Pombal de empréstimo para nos dizer para onde deve ir o país.
E já que falo em
Marquês de Pombal, devo notar que este plano enferma de uma visão estereotipada
da história de Portugal que em nada nos ajuda a projetar-nos no futuro. Como a
ideia que convoca para o seu “primeiro quadro conceptual” de que “o dilema
estratégico de Portugal ao longo da história… advém da posição geográfica do
país, na periferia da Europa”, e de que ele retira a conclusão de que “há uma
quase constante na história do país: quando se virou para o mar prosperou,
quando voltou as costas ao mar, muitas vezes estagnou e definhou”. Ambas as
ideias não passam de lugares-comuns.
Ao passo que o
plano alemão é um pouco como meia hora matinal no ginásio — não propriamente a
coisa mais saborosa do mundo, mas leva pouco tempo a ler e sai-se dali mais
focado e com uma data de coisas para despachar até ao meio-dia —, o plano
português parece um cozido à portuguesa. Uns não vão gostar das couves e outros
não vão querer a carne, há quem vá achar os enchidos deliciosos mas os
toucinhos indigestos
O dilema
essencial do Portugal moderno está, pelo menos desde Pombal, na escolha entre
produzir com mão-de-obra barata ou com mais valor acrescentado (não por acaso,
Ribeiro Sanches lembrava em 1759 que o modelo produtivo baseado em escravatura
e ouro do Brasil deixava o país apenas ilusoriamente rico para comprar os
produtos mais complexos que os outros europeus produziam). E se Portugal ficou
mais pobre ao voltar-se para o continente, como explicar o pulo que demos com a
adesão ao projeto europeu?
Sendo assim,
pouco admira que na estratégia de Costa Silva a qualificação da mão-de-obra
portuguesa apareça no antepenúltimo capítulo, página 117 de 120. Se se entendesse
as lições da história era por aí que se deveria ter começado.
Ainda assim, o
plano de Costa Silva tem muitas ideias interessantes, que trarei aqui em
próximas crónicas. Mas ao passo que o plano alemão é um pouco como meia hora
matinal no ginásio — não propriamente a coisa mais saborosa do mundo, mas leva
pouco tempo a ler e sai-se dali mais focado e com uma data de coisas para
despachar até ao meio-dia —, o plano português parece um cozido à portuguesa.
Uns não vão gostar das couves e outros não vão querer a carne, há quem vá achar
os enchidos deliciosos mas os toucinhos indigestos, a refeição vai demorar três
horas e vai falar-se de imensa coisa interessante — mas no fim vai toda a gente
ficar demasiado pesada e sonolenta para fazer o que quer que seja durante a
tarde.

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