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ANÁLISE
O fim da paz podre ideológica da globalização
A acalmia ideológica instalada desde os anos 1990 — na
realidade, mais uma paz podre ideológica, pelas razões apontadas —, a qual
parecia trazer consigo harmonia social, progresso e de bem-estar económico,
está a desintegrar-se.
JOSÉ PEDRO
TEIXEIRA FERNANDES
10 de Julho de
2020, 12:53
1. Um dos grandes
entraves à compreensão do mundo de hoje é que este é demasiadas vezes visto e
interpretado por lentes que nos parecem boas, mas, de facto, distorcem-no. Em
1989 o final da Guerra Fria — que abriu caminho à globalização, tal como a
conhecemos hoje —, foi amplamente visto como o término da profunda disputa
ideológica que marcou o século XX, entre o socialismo-comunista soviético e as
democracias-capitalistas liberais ocidentais. Estas últimas, sob liderança dos
EUA, teriam triunfado em toda a linha, tornando obsoleta a luta ideológica e
relegando, para os confins do passado, a tradicional divisão entre esquerda e
direita. Um pensamento ideológico-político único tinha-se instalado: era
capitalista-liberal (e/ou neo-liberal), no campo da economia; e era
democrático-liberal (e pluralista) no campo da política. Hoje são muito
evidentes as distorções provocadas por tal visão simplista.
É agora demasiado
óbvio que o caso da China foi subestimado, em particular a capacidade de
prossecução de um controlo efectivo (e autoritário) do Partido Comunista Chinês
sobre o Estado, a sociedade e a economia, apesar de uma certa abertura ao
mercado. Não foi também percebida a força de ideologias não ocidentais, desde
logo do islamismo radical, que é simultaneamente religioso-político e recusa a
separação, vista como um artifício abominável dos cristãos/ocidentais, entre a
esfera da política e a esfera da religião. Mas, mesmo dentro do Ocidente, foi
mal percebida a vitória na Guerra Fria, quase sempre só atribuída ao
capitalismo-liberal e à democracia-liberal. Foi subestimada a importância de
uma vitória paralela, ainda que sob forma difusa, daquilo que nos EUA se chama
a New Left (Nova Esquerda) ou, numa designação alternativa não totalmente
coincidente, a esquerda multicultural/esquerda radical.
2. As marcas
intelectuais e políticas profundas deixadas pela Guerra Fria — e de toda a luta
política imediatamente anterior — fizeram esquecer que existem dois grandes
terrenos de discórdia ao nível ideológico, e não apenas um: a economia política
e a cultura. Assim, no terreno da economia política ocorreu uma vitória (óbvia)
de ideias liberais (ou neo-liberais), tendo como referências fundamentais
Friedrich Hayek, Joseph Schumpeter e Milton Friedman, entre outros. Mas também
ocorreu uma vitória (menos óbvia) no terreno da cultura, de ideias da Nova
Esquerda (e de algumas das suas versões radicais), tendo como referências
incontornáveis Michel Foucault, Jaques Derrida e Judith Butler, entre outros.
As marcas
intelectuais e políticas profundas deixadas pela Guerra Fria — e de toda a luta
política imediatamente anterior — fizeram esquecer que existem dois grandes
terrenos de discórdia ao nível ideológico, e não apenas um: a economia política
e a cultura.
Paradoxalmente,
as ideias que triunfaram na globalização, à direita e à esquerda, vieram das
margens. No pós-II Guerra Mundial, o pensamento liberal (e/ou neo-liberal) era
minoritário e relativamente marginal, num sistema dominado até aos anos 1970
fundamentalmente pelo keynesianismo e com significativa influência do marxismo.
A partir dos anos 1980, esse ideário conquistou o terreno da economia. Sinal
evidente do seu sucesso, é a actual massificação das ideias da competitividade,
do empreendedorismo, da inovação, da abertura dos mercados, da superioridade da
iniciativa económica privada, etc..
Também o
pensamento da Nova Esquerda (e de parte da esquerda radical), uma minoria
actuando igualmente a partir das margens do sistema social e político até aos
anos 1960, fez o seu caminho vitorioso. Ideias, práticas sociais e valores que
até aos anos 1960/1970, ou ainda mais à frente, eram vistas como radicais e
marginais tornaram-se comuns e hoje surgem como tendo elevado valor moral:
igualdade plena de género, direitos das minorias, liberdade sexual, estilos de
vida alternativos fora do casamento e da família nuclear, etc.
3. No Ocidente,
os indivíduos nascidos nas últimas décadas do século XX e inícios do século XXI
foram — e continuam a ser — socializadas nesse mix de ideias, práticas e
valores. Na família, na escola, nos media e nas redes sociais, nas
universidades, são fundamentalmente estas as ideias transmitidas, absorvendo
algumas partes da sociedade mais a ideologia do pensamento económico liberal
(e/ou neo-liberal) e outras partes a ideologia da Nova Esquerda
(multicultural)/esquerda radical. A educação/ensino está largamente dominada
por estas duas ideologias.
Mas esta forma de
funcionar no Ocidente, sempre foi uma convivência frágil e só (muito)
superficialmente harmoniosa. Na realidade, é algo até bastante contra natura,
pelo menos sob o ponto de vista das visões últimas do mundo que lhe estão
subjacentes. À direita, a vitória sobre o socialismo-comunismo na Guerra Fria —
e a falência do modelo de economia de direcção central planificada onde os
Estado monopolizava a actividade económica — criou, em muitos, a ideia errada
de não existir competição ideológica à altura.
Inebriada pela
vitória no campo da economia política, a direita deixou o terreno cultural
quase todo para a Nova Esquerda (multicultural)/esquerda radical, vendo-o, com
sobranceria, como algo menor (não dava lucro). Quanto à esquerda, claudicou, de
facto, quase totalmente no campo da economia política, tornando-se o antigo
ídolo (Marx), quase um espectro — na prática aceitou, ainda que a contragosto,
a supremacia liberal (e/ou neo-liberal) na economia. Paradoxalmente, a derrota
no terreno da economia política, associada à arrogância vitoriosa da direita,
facilitou o aumento da influência da Nova Esquerda no terreno cultural durante
a era da globalização.
Inebriada pela
vitória no campo da economia política, a direita deixou o terreno cultural
quase todo para a Nova Esquerda (multicultural)/esquerda radical, vendo-o, com
sobranceria, como algo menor (não dava lucro).
4. O que na última década temos estado a assistir no Ocidente é a um desintegrar dessa espécie de acordo tácito de repartição das esferas de influência sobre a vida humana, entre a direita e a esquerda. Até há pouco tempo, o ideário económico liberal/neo-liberal de Friedrich Hayek, Joseph Schumpeter e Milton Friedman e outros, convivia alegremente com o ideário anti-liberal e anti-capitalista de Michel Foucault, Jaques Derrida e Judith Butler e outras figuras intelectuais ícones da New Left.
No cerne dessa
desintegração está a globalização e as transformações que provocou, as quais
fizeram rebentar a paz podre ideológica instalada desde o final da Guerra Fria.
Na sua faceta económica e comercial a globalização foi fundamentalmente
impulsionada pela direita liberal (e/ou neoliberal). As suas ideias de
competitividade, mercados globalmente abertos, supremacia quase absoluta da
economia privada etc., levaram a crescentes desigualdades sociais entre aqueles
que se adaptaram bem, tirando vantagens das oportunidades ligadas aos mercados
globais e à lógica económica privada, e aqueles que sofrerem sobretudo os seus
impactos negativos.
Embora sem lhe
chamar globalização — e oficialmente ser uma crítica cáustica desta —, na sua
faceta de fluxos globais de pessoas, desde migrantes económicos a refugiados, a
globalização foi também muito estimulada e impulsionada pela Nova
Esquerda/multicultural. (Isto, claro, a par do interesse material-empresarial
lucrativo, de dispor de uma mão-de-obra abundante e barata). Quanto à esquerda,
viu aí um novo terreno para pôr em prática o seu programa de defesa de grupos
minoritários e de causas humanitárias. E viu também aí um interessante ganho
político, pois os fluxos migratórios poderiam aumentar-lhe a clientela
política, o que dava muito jeito numa altura em que o proletariado — no sentido
marxista do conceito — cada vez mais escasseava no Ocidente.
5. Como
resultado, a acalmia ideológica instalada desde os anos 1990 — na realidade,
mais uma paz podre ideológica, pelas razões apontadas —, a qual parecia trazer
consigo harmonia social, progresso e de bem-estar económico, está a
desintegrar-se. É talvez um resultado inesperado para muitos. Todavia, olhando
com mais atenção, não é um resultado muito surpreendente. Como notado, quer as
políticas económicas e comerciais impulsionadoras da globalização (ao gosto do
ideário liberal e/ou neo-liberal da direita); quer as políticas também
impulsionadoras da globalização, mas de abertura aos fluxos migratórios globais
(agora ao gosto da Nova Esquerda/esquerda multicultural), para além dos seus
méritos, trouxeram inúmeras tensões sociais e políticas que hoje estamos a
sentir em pleno.
O resultado foi
fazerem explodir as contradições do mix de ideias que triunfou após a
Guerra-Fria. A direita, agora especialmente numa versão de direita radical e/ou
populista, contesta, entre outras coisas, a esfera de influência (hegemonia) da
esquerda no terreno cultural e dos valores, abrindo uma nova frente política —
a guerra cultural. Fá-lo de uma forma agressiva que a direita
convencional-tradicional, concentrada na economia e imbuída de ideias liberais
/ neo-liberais, nunca fez, seja por concessão (in)voluntária ou por
incapacidade de entrar nesse terreno.
Quanto à
esquerda, para além de se sentir ameaçada na sua esfera de influência natural —
e de retaliar usando a sua primazia no terreno mediático e intelectual —, volta
agora a dar sinais de querer entrar no campo da economia-política que tinha
abandonado desde o final da Guerra-Fria. Vê nos efeitos desastrosos da pandemia
da covid-19 sobre a economia (privada) e no regresso do Estado-interventor, uma
oportunidade para afastar o liberalismo económico e reciclar as antigas ideias
de uma economia sob controlo público. É este o confronto político-ideológico
que está em marcha e vai marcar uma globalização em retrocesso a que já estamos
a assistir.
Investigador do
IPRI-NOVA - Universidade NOVA de Lisboa

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