EDITORIAL
Novo Banco: será apenas uma questão semântica?
Na insuportável lengalenga do Novo Banco, que nos tende a
considerar demasiado impreparados para entender a alta arte da negociação
financeira, a perda de 328,8 milhões de euros que, mais tarde, lá acabaram tapados
pela almofada do Fundo de Resolução, não é nada do outro mundo.
MANUEL CARVALHO
12 de Julho de
2020, 5:30
Definição de “desconto”
no Dicionário Priberam da Língua Portuguesa: dedução (numa quantia a receber);
quantia que se desconta; abate, ágio. Ora, o Novo Banco tinha registado no seu
balanço um conjunto de imóveis com o valor de 487, 5 milhões de euros e
vendeu-os ao fundo norte-americano Cerberus por 159 milhões. Mas, fez saber a
administração do banco, a diferença entre um valor e o outro não foi um
“desconto” equivalente a 70% do valor inicial: foi, apenas, “o efeito da
diferença entre o preço do mercado e o valor de avaliações que seguem o método
de custo ou que assumem diferentes estimativas de capacidade construtiva [de
parte dos imóveis em causa]”.
Traduzindo esta
declaração da insuportável lengalenga do Novo Banco, que nos tende a considerar
demasiado impreparados para entender a alta arte da negociação financeira, a
perda de 328,8 milhões de euros que, mais tarde, lá acabaram tapados pela
almofada do Fundo de Resolução, não é nada do outro mundo: é apenas uma questão
de mercado, ou de método. A administração inventou um número para pôr no
balanço? Equacionou a possibilidade de adiar o negócio face à miséria das
propostas apresentadas? Pensou em dividir o bloco de imóveis em partes mais
pequenas? Nada se sabe.
Até porque, neste
caso, mais do que referir uma perda (já conhecida), a notícia assinada pela
jornalista Cristina Ferreira dá nota de uma particularidade do negócio que não
consta no comunicado do Novo Banco: quem comprou os imóveis a preços de
“mercado” foi um fundo para o qual o seu chairman trabalhou, quando dirigiu o
banco Bagaw na Áustria. Diz o Novo Banco que recebeu cinco propostas para
adquirir os imóveis e que duas estiveram em negociação final, até o fundo
Cerebrus ser declarado vencedor. Não nos garante que, nessas negociações, Byron
Haines se absteve de participar por evidente conflito de interesses.
Já é hora de o
Novo Banco e o seu principal accionista, o fundo Lone Star, perceberem uma
evidência: os contribuintes portugueses não estão apenas cansados de tantas
imparidades, de tantos problemas de mercado quando o mercado imobiliário se
valoriza, de tanta facilidade com que torram a garantia de 3,9 mil milhões de
segurança que um Estado aflito, crédulo e voluntarista lhes concedeu. Têm todas
as razões para começar a suspeitar que são tratados como cidadãos de uma
república das bananas onde a alta finança faz o que quer. Desconto ou não
desconto, é apenas uma questão semântica. O que é real é a história de um banco
com a prodigiosa capacidade de insultar a nossa inteligência a cada dia que
passa.

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