OPINIÃO
O Ocidente ainda existe?
A democracia liberal tem de saber defender-se dos ataques
de que é alvo actualmente, vindos dos movimentos nacionalistas e populistas da
direita e da extrema-direita mas também do radicalismo esquerdista.
TERESA DE SOUSA
12 de Julho de
2020, 6:20
1. Passou quase
despercebida por cá uma carta aberta assinada por uma grande variedade de
intelectuais (153) chamando a atenção para os riscos da chamada “cancel
culture” – é difícil de traduzir em português, a não ser, talvez, pela ideia do
“politicamente correcto”. Chama-se “Uma Carta sobre Justiça e Debate Aberto”,
foi publicada originalmente na Harper's Magazine e reproduzida em jornais europeus
como o Monde. É um texto curto e sóbrio, sem afirmações grandiloquentes e
definitivas, pretendendo apenas ser um alerta. Fala dos “poderosos protestos
pela justiça racial e social”, que reivindicam “mais igualdade e inclusão nas
nossas sociedades”, mas também de um efeito secundário indesejável, que se
manifesta por “um conjunto de atitudes morais e compromissos políticos que
tendem a enfraquecer as normas do debate aberto e a tolerância das diferenças a
favor da conformidade ideológica”.
“A livre troca de
informação e de ideias, o sangue vital da uma sociedade liberal, está a
tornar-se cada dia mais limitada”, dizem os subscritores. E se estas limitações
seriam de esperar vindas da direita radical, elas hoje começam a impregnar o
ambiente cultural, acentuando a intolerância perante pontos de vista opostos, a
moda do ostracismo de quem pensa de maneira diferente, e “a tendência para
dissolver questões políticas complexas numa certeza moral cega”. As assinaturas
vão de Noam Chomsky até Fareed Zakaria, passando por escritores como Margaret
Atwood, J.K. Rowling ou Salman Rushdie, académicos como Mark Lilla, Steven
Pinker ou Francis Fukuyama, analistas como Ian Buruma ou David Brooks e
feministas como Gloria Steinem.
O movimento
“Black Lives Matter”, desencadeado pelo assassínio de George Floyd, foi uma
reacção espontânea, saudável, vigorosa, impressionante que percorreu a
sociedade americana, unindo todas as etnias numa vaga de protestos que foi
muito além do simples combate ao racismo que séculos de democracia não conseguiram
erradicar. O movimento foi também a expressão do repúdio cada vez mais
generalizado de Donald Trump, que chegou à Casa Branca com um discurso
abertamente xenófobo – visando, em primeiro lugar, a imigração hispânica, mas
roçando a defesa da “supremacia branca” que, de quando em vez, vem ao de cima
na história da democracia americana. Foi uma gigantesca lufada de ar fresco que
atravessou o Atlântico, mas que, como demasiadas vezes acontece, acabou por se
deixar aprisionar pela “ideologia do politicamente correcto”, que infecta hoje
as sociedades livres em que estamos acostumados a viver de forma aparentemente
inocente e imperceptível.
2. Quase em
simultâneo com a publicação do manifesto, a capa da última edição da Economist
punha o dedo na ferida. A raça, quando se transforma em ideologia, passa a ser
uma ameaça ao debate aberto das sociedades liberais, conduzindo-nos
directamente às políticas identitárias, que já aprisionaram uma parte do
Partido Democrata e que têm na Europa os seus “cultores” numa esquerda radical
que fez, em alguns momentos, das chamadas “questões fracturantes” o seu combate
essencial, conseguindo impor uma cultura de exclusão que já atingiu a própria
grande imprensa liberal. O derrube das estátuas foi a manifestação mais insólita
e evidente desta cultura, que acabou por contagiar muita gente, receosa de
dizer que Colombo ou o Infante D. Henrique agiram em conformidade com a época
em que viveram, ou se sentiram compelidas a reconhecer os inúmeros defeitos de
Churchill, para o poderem defender envergonhadamente. Claro que há sempre o
argumento de que este debate, mesmo imposto pelos excessos de alguns
movimentos, acaba por ser saudável, permitindo um conhecimento melhor do
passado e da identidade de cada povo e de cada nação, tantas vezes branqueado
por mitos e lendas, alguns deles “inventados” a posteriori para justificar o
nacionalismo mais agressivo. Está certo. Desde que não implique a autocensura
ou a imposição de limites ao que cada um possa pensar ou defender publicamente,
sem ser imediatamente acusado.
3. A questão
essencial que o manifesto, a Economist e múltiplos artigos de opinião e de
análise colocam é simples: a democracia liberal tem de saber defender-se dos
ataques de que é alvo actualmente, que não vêm apenas dos movimentos
nacionalistas e populistas da direita e da extrema-direita. Que podem vir
também do radicalismo esquerdista, cuja visão do mundo é, na sua essência,
igualmente autoritária e discriminatória sob o manto diáfano das boas
intenções. Para estas correntes, um branco é, por natureza, racista, mesmo que
se declare anti-racista. Tal como, no tempo do comunismo, um intelectual seria
sempre um “burguês”, por melhor que quisesse servir a classe operária.
Na génese das
duas “ideologias” está a noção de identidade. De cor da pele ou de classe ou
até de género. O indivíduo não conta ou, se conta, é para aceitar que a sua
identidade determina a sua individualidade. É, portanto, a negação do
liberalismo que nasceu das Luzes e que faz de cada indivíduo, desde que nasce,
um ser simultaneamente autónomo e igual a todos os outros. Este princípio
definidor das democracias liberais não foi uma revelação divina (embora tenha
algumas das suas raízes no cristianismo). Foi obra do pensamento dos homens e,
por consequência, a sua aplicação ao longo de mais de dois séculos foi
evolutiva e esteve longe da perfeição. Houve, como lembra a revista britânica,
liberais “imperialistas” ou “racistas”, que justificaram o colonialismo europeu
com a imposição do bom governo a quem não se sabia governar. Nos Estados
Unidos, os pais-fundadores excluíram os escravos do direito de cada um à
felicidade a partir da liberdade.
A história das
democracias liberais é a história dos seus altos e baixos, das suas virtudes e
dos seus erros, da sua capacidade de compatibilizar a liberdade individual com
o combate e a correcção das injustiças sociais mais gritantes. Tem um princípio
inquestionável: a liberdade de expressão sobre a qual assenta o debate livre,
cujas limitações devem ser mínimas, reservadas à defesa da integridade física
de cada um e à proibição do incitamento à violência. É isto que é fundamental
preservar, para além das modas ou dos radicalismos, sejam eles de direita ou de
esquerda. E mais ainda num momento em que as democracias liberais estão na
defensiva perante a emergência de regimes autoritários que ganham força à
escala mundial e os analistas prevêem, talvez demasiado depressa, o inexorável
declínio do Ocidente, minado, entre outras coisas, pelos seus próprios
problemas internos.
O Ocidente
implica também que a política externa dos seus governos não abdique da defesa
dos seus valores nas relações internacionais. São duas faces da mesma moeda
cujo brilho não podemos deixar que se apague
4. A noção de
Ocidente não é apenas uma constatação geográfica ou a tradução de uma aliança
política e militar entre os dois lados do Atlântico, que se consolidou com a
luta contra o fascismo e contra o comunismo – os dois totalitarismos que
marcaram o século XX e que foram vencidos pelas democracias liberais. A noção
de Ocidente resistiu ao fim da ameaça soviética e à globalização dos mercados e
das ideias, porque representa a partilha de um conjunto de valores que
sobreviveram a todas as adversidades, a todas as crises da relação
transatlântica durante e depois da Guerra Fria, a todos os Presidentes
americanos e a todos os “particularismos” europeus. Por uma razão fundamental.
As sociedades democráticas e liberais que o integram permitem à generalidade
dos indivíduos realizar o melhor possível as suas aspirações, garantindo-lhes a
igualdade de oportunidades para alcançá-las, que não encontrou paralelo em
qualquer outra forma de organização das sociedades humanas. Mas deu-lhes também
a oportunidade de serem cidadãos com a capacidade única de corrigirem erros e
injustiças através do debate livre entre ideias diferentes e a livre escolha de
quem os governa em cada momento. Com todos os seus enormes defeitos, continuam
a ser as sociedades mais livres, mas também mais justas, à escala global.
Valem a pena as
grandes manifestações contra o racismo, como valeriam a pena as grandes
manifestações contra a repressão brutal que se abateu sobre Hong Kong ou a
tragédia inumana que vivem hoje os uigures de Xinjiang, a região pretensamente
autónoma da China onde habita uma minoria predominantemente muçulmana. O
Ocidente implica também que a política externa dos seus governos não abdique da
defesa dos seus valores nas relações internacionais. São duas faces da mesma
moeda cujo brilho não podemos deixar que se apague.

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