quarta-feira, 15 de julho de 2020

Emissões globais de metano dispararam / ‘Green Deal’ na Europa. ‘Trouble in Paradise’ na Holanda por António Sérgio Rosa de Carvalho



ALTERAÇÕES CLIMÁTICAS
Emissões globais de metano dispararam

Dois artigos publicados esta terça-feira analisaram as emissões de metano entre 2000 e 2017 e concluem que em 2017 a atmosfera da Terra absorveu 600 milhões de toneladas deste gás. A Europa é a única região que se destaca pela positiva no mapa.

Andrea Cunha Freitas 14 de Julho de 2020, 22:01

O motor, dizem os especialistas, são as actividades nas minas de carvão, produção de petróleo e gás natural, criação de gado e aterros sanitários. E o resultado é a péssima notícia de um aumento das emissões globais de metano no período entre 2000 e 2017, sendo que a Europa é a única região que se destaca pela positiva com uma redução dos níveis das emissões. Em 2017 (o ano mais recente com dados disponíveis) a atmosfera da Terra absorveu algo próximo das 600 milhões de toneladas deste gás que retém o calor.

O preocupante diagnóstico que coloca o planeta perigosamente perto de um mundo (mais) mais quente é apresentado em dois artigos publicados esta terça-feira nas revistas Earth System Science Data e Environmental Research Letters por investigadores do Global Carbon Project, uma iniciativa liderada por um cientista da Universidade de Stanford, Rob Jackson. “Os níveis do potente gás de efeito estufa, registados entre 2000 e 2017, colocaram-nos num caminho que os modelos climáticos sugerem que podem levar a um aquecimento de três a quatro graus Celsius antes do final deste século”, anuncia um comunicado da Universidade de Stanford sobre os artigos centrados nas emissões de metano no mundo.

É quase escusado lembrar que este trilho nos apresenta um futuro negro, uma vez que este limiar de temperatura tem sido apontado pelos cientistas como um gatilho para um aumento de fenómenos como desastres naturais, incluindo incêndios, secas e inundações, e rupturas sociais, como fome e migrações em massa.

“Em 2017, o ano mais recente com dados globais completos sobre o metano disponíveis, a atmosfera da Terra absorveu quase 600 milhões de toneladas do gás incolor e inodoro que é 28 vezes mais poderoso do que o dióxido de carbono retendo o calor por um período de 100 anos”, avisam os cientistas.

Mas, vamos a números. “As emissões de metano da agricultura aumentaram para 227 milhões de toneladas em 2017, um aumento de quase 11% em relação à média de 2000-2006. O metano proveniente da produção e uso de combustíveis fósseis atingiu 108 milhões de toneladas em 2017, um aumento de quase 15% em relação ao período anterior.”

A Europa surge neste trabalho como a única região que registou uma diminuição das emissões de metano nas últimas duas décadas. “Políticas ambientais e melhor gestão conseguiram reduzir as emissões de aterros, adubos e outras fontes na Europa. As pessoas estão também a comer menos carne e mais aves e peixes”, constata Marielle Saunois, da Universidade de Versalhes Saint-Quentin, em França, principal autora do artigo publicado na Earth System Science Data.


O mapa das emissões de metano revela ainda que o aumento foi mais acentuado na África, no Médio Oriente, China e Sul da Ásia e Oceânia (que inclui a Austrália e muitas ilhas do Pacífico). “Cada uma dessas regiões aumentou as emissões em cerca de dez a 15 milhões de toneladas por ano durante o período do estudo. Os Estados Unidos seguiram de perto, aumentando as emissões de metano em 4,5 milhões de toneladas, principalmente devido a mais exploração, distribuição e consumo de gás natural”, indica o comunicado.

O maior salto (no pior sentido) foi registado nas regiões tropicais e as zonas polares têm desempenhado um papel bem menos importante segundo este trabalho, que conclui ainda que não foram encontrados sinais que confirmem os receios de um grande contributo do degelo do permafrost nas emissões de metano.

De novo, a velha máxima
Rob Jackson, professor de ciências do sistema terrestre na Escola de Ciências da Terra, Energia e Ciências Ambientais de Stanford (Stanford Earth), confirma que as fontes de combustível fóssil e a criação de gado são os dois principais dois motores da perigosa escalada do metano. “As emissões de gado e outros ruminantes são quase tão grandes quanto as da indústria de combustíveis fósseis para o metano”, refere o cientista citado no comunicado, acrescentando que “as pessoas brincam sobre os arrotos das vacas sem perceber o que isso realmente significa”.

Talvez nem toda a gente brinque com este assunto e muito menos desta forma, mas a parte que deve mesmo ser levada a sério diz-nos que, segundo este trabalho, entre 2000 e 2017 a agricultura foi responsável por aproximadamente dois terços de todas as emissões de metano ligadas às actividades humanas. Os combustíveis fósseis contribuíram com a maior parte do terço que resta.

E, de novo, surge a velha máxima que acompanha as más notícias sobre os indicadores ambientais: “Mais de metade de todas as emissões de metano é proveniente de actividades humanas.” As emissões anuais de metano aumentam 9%, ou 50 milhões de toneladas por ano, desde o início dos anos 2000, quando as concentrações de metano na atmosfera eram relativamente estáveis, concluem os investigadores. E para que não restem dúvidas sobre a dimensão do prejuízo esclarece-se que “em termos de potencial e aquecimento” o acrescento desta factura extra de metano na atmosfera é o mesmo que “colocar mais 350 milhões de carros nas estradas do mundo ou duplicar as emissões totais da Alemanha ou da França”. E nada indica que as coisas melhorem nos tempos mais próximos.

Olhando para os tempos que vivemos, o cenário não parece ser melhor. Tem sido notícia a previsível melhoria de alguns indicadores ambientais por causa desta pandemia da covid-19. Assim, à custa das limitações nos transportes e indústria, as emissões de gases com efeito de estufa terão sofrido um corte que anima muitos especialistas. Mas Rob Jackson não parece muito optimista no que se refere ao metano: “Não há hipótese de as emissões de metano caírem tanto quanto as emissões de dióxido de carbono por causa do vírus”, admite Rob Jackson.

No final do mês de Março, cientistas da Universidade de Columbia, em Nova Iorque, defendiam em declarações à BBC que era expectável que esta pandemia provocasse uma queda do monóxido de carbono produzido sobretudo pelos veículos automóveis da cidade, de 50% em alguns dias desta semana, uma diminuição de dióxido de carbono entre 5 e 10% e também “uma queda sólida de metano”.

E na Alemanha, sem avançar com números, o responsável pela agência germânica do ambiente, Dirk Messner, disse ainda, na mesma altura, que o coronavírus pode ajudar o país a atingir a meta de redução de emissões de gases com efeito de estufa em 40%, comparando com os valores de 1990. “Vamos assistir a uma redução por causa do coronavírus. Isso é óbvio”, afirmou alertando, no entanto, para a hipótese deste benefício ser apenas temporário e de tudo voltar a ser com antes (da pandemia) dentro de pouco tempo.

Para os cientistas, a redução das emissões de metano é possível e a forma de o conseguir é clara. E, mais uma vez, não há aqui nada de novo: “Precisamos de comer menos carne, reduzir as emissões associadas à criação de gado e arroz, e substituir o petróleo e o gás natural nos nossos carros e casas”, lembra Rob Jackson.

CLIMATE CHANGE
Global methane emissions skyrocketed

Two papers published on Tuesday analyzed methane emissions between 2000 and 2017 and conclude that in 2017 the Earth's atmosphere absorbed 600 million tons of this gas. Europe is the only region that stands out for the positive on the map.

Andrea Cunha Freitas July 14, 2020, 22:01

The engine, experts say, is activities in coal mines, oil and natural gas production, cattle ranching and landfills. And the result is the bad news of an increase in global methane emissions between 2000 and 2017, with Europe being the only region that stands out for the positive with a reduction in emissions levels. In 2017 (the most recent year with available data) the Earth's atmosphere absorbed something close to 600 million tons of this gas that retains heat.

The troubling diagnosis that puts the planet dangerously close to a (more) warmer world is presented in two articles published Tuesday in the journals Earth System Science Data and Environmental Research Letters by researchers at the Global Carbon Project, an initiative led by Stanford University scientist Rob Jackson. "The levels of the potent greenhouse gas, recorded between 2000 and 2017, have put us on a path that climate models suggest could lead to warming of three to four degrees Celsius before the end of this century," announces a Stanford University communiqué on articles focusing on methane emissions in the world.

It goes without saying that this trail presents us with a dark future, since this temperature threshold has been pointed out by scientists as a trigger for an increase in phenomena such as natural disasters, including fires, droughts and floods, and social disruptions such as hunger and mass migration.

"In 2017, the most recent year with complete global methane data available, the Earth's atmosphere absorbed nearly 600 million tons of colorless and odorless gas that is 28 times more powerful than carbon dioxide retaining heat for a period of 100 years," the scientists warn.

But we're going to numbers. "Methane emissions from agriculture increased to 227 million tons in 2017, an increase of almost 11% over the 2000-2006 average. Methane from the production and use of fossil fuels reached 108 million tons in 2017, an increase of almost 15% over the previous period."

Europe emerges in this work as the only region that has experienced a decrease in methane emissions in the last two decades. "Environmental policies and better management have succeeded in reducing emissions from landfills, fertilisers and other sources in Europe. People are also eating less meat and more poultry and fish," notes Marielle Saunois of the University of Versailles Saint-Quentin in France, lead author of the paper published in Earth System Science Data.

The methane emissions map also reveals that the increase was more pronounced in Africa, the Middle East, China and South Asia and Oceania (which includes Australia and many Pacific islands). "Each of these regions increased emissions by about ten to 15 million tons per year during the study period. The United States followed closely, increasing methane emissions by 4.5 million tons, mainly due to more exploration, distribution and consumption of natural gas," the statement said.

The biggest jump (in the worst sense) has been recorded in tropical regions and polar areas have played a much less important role according to this work, which also concludes that no signs have been found to confirm fears of a major contribution of permafrost defrost in methane emissions.

Again, the old maxim
Rob Jackson, professor of terrestrial system sciences at Stanford Earth's School of Earth, Energy and Environmental Sciences( Stanford Earth), confirms that fossil fuel sources and livestock are the two main two engines of the dangerous methane climb. "Emissions from livestock and other ruminants are almost as large as those in the fossil fuel industry for methane," said the scientist quoted in the statement, adding that "people joke about cow burping without realizing what it really means."

Perhaps not everyone plays with this issue, let alone this way, but the part that should be taken seriously tells us that, according to this work, between 2000 and 2017 agriculture accounted for approximately two-thirds of all methane emissions linked to human activities. Fossil fuels have contributed most of the remaining third.

And again, the old maxim that accompanies the bad news about environmental indicators emerges: "More than half of all methane emissions come from human activities." Annual methane emissions have increased by 9%, or 50 million tons per year, since the early 2000s, when methane concentrations in the atmosphere were relatively stable, the researchers conclude. And so that there is no doubt about the extent of the damage it is clarified that "in terms of potential and heating" the addition of this extra methane bill in the atmosphere is the same as "putting another 350 million cars on the world's roads or doubling the total emissions of Germany or France". And there's nothing to indicate that things will get better in the near future.

Looking at the times we live in, the scenery doesn't seem to be better. The foreseeable improvement of some environmental indicators has been reported because of this pandemic of covid-19. Thus, at the expense of limitations in transport and industry, greenhouse gas emissions will have suffered a cut that animates many experts. But Rob Jackson doesn't seem too optimistic about methane: "There's no way methane emissions will drop as much as carbon dioxide emissions because of the virus," admits Rob Jackson.

At the end of March, scientists at Columbia University in New York argued in statements to the BBC that it was expected that this pandemic would cause a drop in carbon monoxide produced mainly by the city's motor vehicles, 50% on some days this week, a decrease in carbon dioxide between 5 and 10% and also "a solid drop in methane methane".

And in Germany, without going ahead with figures, dirk Messner, head of the German environment agency, also said at the same time that coronavirus can help the country reach its goal of reducing greenhouse gas emissions by 40%, compared to 1990 figures. "We will see a reduction because of coronavirus. This is obvious," he said, however, warning that the hypothesis of this benefit being only temporary and everything is back with before (the pandemic) in a short time.

For scientists, reducing methane emissions is possible and the way to achieve it is clear. And once again, there's nothing new here: "We need to eat less meat, reduce emissions associated with cattle and rice, and replace oil and natural gas in our cars and homes," Recalls Rob Jackson.


OPINIÃO
‘Green Deal’ na Europa. ‘Trouble in Paradise’ na Holanda

A Holanda encontra-se em grande tumulto social com acções permanentes de bloqueio e manifestações por parte dos agricultores. Estamos, portanto, no turbilhão do confronto real entre intenções urgentemente formuladas e os efeitos concretos das mudanças imperativas.

António Sérgio Rosa de Carvalho
22 de Dezembro de 2019, 4:49

Com a apresentação do marcante, ambicioso e urgentemente necessário ‘Green Deal’, Ursula von der Leyen perfila o início de um novo ciclo na Comissão Europeia e acentua a vontade da Europa em liderar a acção na urgentíssima questão do Clima/Ambiente.

Ora, estamos habituados a que seja a Europa Central/Leste, que inclui os países com maior dependência económica e social do carvão, a oferecer a maior resistência às tão necessárias mudanças no insustentável modelo de crescimento económico baseado nos combustíveis fósseis e crescimento ilimitado.

Mas, quando se passa à implementação de medidas reais destinadas a alterar o modelo, o conceito de produção e a mentalidade ligada ao crescimento ilimitado, aí, somos confrontados com uma explosão ilustrativa de ‘trouble in paradise’. Isto está a acontecer na “progressiva” Holanda.

Aqui, o ‘paraíso’ refere-se à imagem enganadora de uma Holanda constituída por serenos prados, bucólicas vaquinhas e pitorescos agricultores com tamancos nos pés e queijos nas mãos.

Em 2013, uma iniciativa por parte de 900 cidadãos pôs o Governo (e com ele a classe política) em tribunal, exigindo, em nome dos tratados de Direitos Humanos assinados pela Holanda, que obrigam o Governo a proteger os cidadãos de ameaças que ponham em perigo o direito à vida e segurança, que o Governo se comprometesse a garantir os 25% de redução de gases de efeito de estufa em 2020.

Em 2015, este grupo denominado Urgenda ganhou a acção em tribunal, para surpresa do Governo. O Governo apelou e perdeu de novo em tribunal em 2018. Esta sentença foi confirmada a 20 de Dezembro de 2019 pelo Supremo Tribunal de Justiça holandês.

Entretanto, o Governo perdeu três anos neste processo no que respeita às urgentes medidas a tomar para garantir os 25%. O mesmo anunciou que só poderá garantir entre 19% e 21%, embora tenha afirmado que irá fazer o necessário para responder às exigências do tribunal.

Ora, a Holanda assinou o Acordo de Paris a 21 de Abril de 2016. Nesta perspectiva, os partidos políticos com consciência ambiental pressionaram o Governo, o que levou com um consenso maioritário à adopção de uma Lei do Ambiente (Klimaatakkoord/ redução em 49% dos gases em 2030/ neutralidade carbónica em 2050) nos finais de Junho de 2019.

E é aqui que chegamos ao aparente e enganador ‘paraíso agrário’ holandês. Os agricultores holandeses produzem seis vezes mais do que o necessário para o consumo interno da Holanda. Estas cinco parcelas excedentes são para exportação. Os efeitos na fertilidade dos solos desta produção intensiva são desastrosos. Acidez, poluição química e alteração dos níveis freáticos assustadores e insustentáveis.

E, quanto às vaquinhas, estas constituem pelo seu número desmesurado fonte permanente de gases de efeito de estufa, através do amoníaco produzido pela mistura de fezes e urina e pela libertação de metano na respiração, além do óxido nitroso produzido pelas fezes e os nitratos e fósforos infiltrados nos solos.

Em resumo, a produção agrícola tem que ser reduzida a metade e o número de vacas também além do número de porcos. Isto implica uma recusa de um modelo de crescimento e exploração agrícola e de um ‘certo’ perfil de agricultor.

A Holanda encontra-se em grande tumulto social com acções permanentes de bloqueio e manifestações por parte dos agricultores, e não só. Também o sector da construção, que tem que definitivamente mudar. Na Alemanha desenvolve-se o mesmo fenómeno.

Estamos, portanto, no turbilhão do confronto real entre intenções urgentemente formuladas e urgentissimamente necessárias e os efeitos concretos das mudanças imperativas.

O mais curioso é que, no caso da vitória jurídica da iniciativa cívica Urgenda, o que foi ilustrado foi uma vitória nítida do princípio de que “é preciso ambientalizar a política” em lugar de que “é preciso politizar o ambiente”.

Historiador de Arquitectura

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