ALTERAÇÕES
CLIMÁTICAS
Emissões globais de metano dispararam
Dois artigos publicados esta terça-feira analisaram as
emissões de metano entre 2000 e 2017 e concluem que em 2017 a atmosfera da
Terra absorveu 600 milhões de toneladas deste gás. A Europa é a única região
que se destaca pela positiva no mapa.
Andrea Cunha
Freitas 14 de Julho de 2020, 22:01
O motor, dizem os
especialistas, são as actividades nas minas de carvão, produção de petróleo e
gás natural, criação de gado e aterros sanitários. E o resultado é a péssima
notícia de um aumento das emissões globais de metano no período entre 2000 e
2017, sendo que a Europa é a única região que se destaca pela positiva com uma
redução dos níveis das emissões. Em 2017 (o ano mais recente com dados disponíveis)
a atmosfera da Terra absorveu algo próximo das 600 milhões de toneladas deste
gás que retém o calor.
O preocupante
diagnóstico que coloca o planeta perigosamente perto de um mundo (mais) mais
quente é apresentado em dois artigos publicados esta terça-feira nas revistas
Earth System Science Data e Environmental Research Letters por investigadores
do Global Carbon Project, uma iniciativa liderada por um cientista da
Universidade de Stanford, Rob Jackson. “Os níveis do potente gás de efeito
estufa, registados entre 2000 e 2017, colocaram-nos num caminho que os modelos
climáticos sugerem que podem levar a um aquecimento de três a quatro graus
Celsius antes do final deste século”, anuncia um comunicado da Universidade de
Stanford sobre os artigos centrados nas emissões de metano no mundo.
É quase escusado
lembrar que este trilho nos apresenta um futuro negro, uma vez que este limiar
de temperatura tem sido apontado pelos cientistas como um gatilho para um
aumento de fenómenos como desastres naturais, incluindo incêndios, secas e
inundações, e rupturas sociais, como fome e migrações em massa.
“Em 2017, o ano
mais recente com dados globais completos sobre o metano disponíveis, a
atmosfera da Terra absorveu quase 600 milhões de toneladas do gás incolor e
inodoro que é 28 vezes mais poderoso do que o dióxido de carbono retendo o
calor por um período de 100 anos”, avisam os cientistas.
Mas, vamos a
números. “As emissões de metano da agricultura aumentaram para 227 milhões de
toneladas em 2017, um aumento de quase 11% em relação à média de 2000-2006. O
metano proveniente da produção e uso de combustíveis fósseis atingiu 108
milhões de toneladas em 2017, um aumento de quase 15% em relação ao período
anterior.”
A Europa surge
neste trabalho como a única região que registou uma diminuição das emissões de
metano nas últimas duas décadas. “Políticas ambientais e melhor gestão
conseguiram reduzir as emissões de aterros, adubos e outras fontes na Europa.
As pessoas estão também a comer menos carne e mais aves e peixes”, constata
Marielle Saunois, da Universidade de Versalhes Saint-Quentin, em França,
principal autora do artigo publicado na Earth System Science Data.
O mapa das
emissões de metano revela ainda que o aumento foi mais acentuado na África, no
Médio Oriente, China e Sul da Ásia e Oceânia (que inclui a Austrália e muitas
ilhas do Pacífico). “Cada uma dessas regiões aumentou as emissões em cerca de
dez a 15 milhões de toneladas por ano durante o período do estudo. Os Estados
Unidos seguiram de perto, aumentando as emissões de metano em 4,5 milhões de
toneladas, principalmente devido a mais exploração, distribuição e consumo de
gás natural”, indica o comunicado.
O maior salto (no
pior sentido) foi registado nas regiões tropicais e as zonas polares têm
desempenhado um papel bem menos importante segundo este trabalho, que conclui
ainda que não foram encontrados sinais que confirmem os receios de um grande
contributo do degelo do permafrost nas emissões de metano.
De novo, a velha
máxima
Rob Jackson,
professor de ciências do sistema terrestre na Escola de Ciências da Terra,
Energia e Ciências Ambientais de Stanford (Stanford Earth), confirma que as
fontes de combustível fóssil e a criação de gado são os dois principais dois
motores da perigosa escalada do metano. “As emissões de gado e outros
ruminantes são quase tão grandes quanto as da indústria de combustíveis fósseis
para o metano”, refere o cientista citado no comunicado, acrescentando que “as
pessoas brincam sobre os arrotos das vacas sem perceber o que isso realmente significa”.
Talvez nem toda a
gente brinque com este assunto e muito menos desta forma, mas a parte que deve
mesmo ser levada a sério diz-nos que, segundo este trabalho, entre 2000 e 2017
a agricultura foi responsável por aproximadamente dois terços de todas as
emissões de metano ligadas às actividades humanas. Os combustíveis fósseis
contribuíram com a maior parte do terço que resta.
E, de novo, surge
a velha máxima que acompanha as más notícias sobre os indicadores ambientais:
“Mais de metade de todas as emissões de metano é proveniente de actividades
humanas.” As emissões anuais de metano aumentam 9%, ou 50 milhões de toneladas
por ano, desde o início dos anos 2000, quando as concentrações de metano na
atmosfera eram relativamente estáveis, concluem os investigadores. E para que
não restem dúvidas sobre a dimensão do prejuízo esclarece-se que “em termos de
potencial e aquecimento” o acrescento desta factura extra de metano na
atmosfera é o mesmo que “colocar mais 350 milhões de carros nas estradas do
mundo ou duplicar as emissões totais da Alemanha ou da França”. E nada indica
que as coisas melhorem nos tempos mais próximos.
Olhando para os
tempos que vivemos, o cenário não parece ser melhor. Tem sido notícia a
previsível melhoria de alguns indicadores ambientais por causa desta pandemia
da covid-19. Assim, à custa das limitações nos transportes e indústria, as
emissões de gases com efeito de estufa terão sofrido um corte que anima muitos
especialistas. Mas Rob Jackson não parece muito optimista no que se refere ao
metano: “Não há hipótese de as emissões de metano caírem tanto quanto as
emissões de dióxido de carbono por causa do vírus”, admite Rob Jackson.
No final do mês
de Março, cientistas da Universidade de Columbia, em Nova Iorque, defendiam em
declarações à BBC que era expectável que esta pandemia provocasse uma queda do
monóxido de carbono produzido sobretudo pelos veículos automóveis da cidade, de
50% em alguns dias desta semana, uma diminuição de dióxido de carbono entre 5 e
10% e também “uma queda sólida de metano”.
E na Alemanha,
sem avançar com números, o responsável pela agência germânica do ambiente, Dirk
Messner, disse ainda, na mesma altura, que o coronavírus pode ajudar o país a
atingir a meta de redução de emissões de gases com efeito de estufa em 40%,
comparando com os valores de 1990. “Vamos assistir a uma redução por causa do
coronavírus. Isso é óbvio”, afirmou alertando, no entanto, para a hipótese
deste benefício ser apenas temporário e de tudo voltar a ser com antes (da
pandemia) dentro de pouco tempo.
Para os
cientistas, a redução das emissões de metano é possível e a forma de o
conseguir é clara. E, mais uma vez, não há aqui nada de novo: “Precisamos de
comer menos carne, reduzir as emissões associadas à criação de gado e arroz, e
substituir o petróleo e o gás natural nos nossos carros e casas”, lembra Rob
Jackson.
CLIMATE CHANGE
Global methane
emissions skyrocketed
Two papers published on Tuesday analyzed methane
emissions between 2000 and 2017 and conclude that in 2017 the Earth's
atmosphere absorbed 600 million tons of this gas. Europe is the only region
that stands out for the positive on the map.
Andrea Cunha Freitas
July 14, 2020, 22:01
The engine,
experts say, is activities in coal mines, oil and natural gas production,
cattle ranching and landfills. And the result is the bad news of an increase in
global methane emissions between 2000 and 2017, with Europe being the only
region that stands out for the positive with a reduction in emissions levels.
In 2017 (the most recent year with available data) the Earth's atmosphere
absorbed something close to 600 million tons of this gas that retains heat.
The troubling
diagnosis that puts the planet dangerously close to a (more) warmer world is
presented in two articles published Tuesday in the journals Earth System
Science Data and Environmental Research Letters by researchers at the Global
Carbon Project, an initiative led by Stanford University scientist Rob Jackson.
"The levels of the potent greenhouse gas, recorded between 2000 and 2017,
have put us on a path that climate models suggest could lead to warming of
three to four degrees Celsius before the end of this century," announces a
Stanford University communiqué on articles focusing on methane emissions in the
world.
It goes without
saying that this trail presents us with a dark future, since this temperature
threshold has been pointed out by scientists as a trigger for an increase in
phenomena such as natural disasters, including fires, droughts and floods, and
social disruptions such as hunger and mass migration.
"In 2017,
the most recent year with complete global methane data available, the Earth's
atmosphere absorbed nearly 600 million tons of colorless and odorless gas that
is 28 times more powerful than carbon dioxide retaining heat for a period of
100 years," the scientists warn.
But we're going
to numbers. "Methane emissions from agriculture increased to 227 million
tons in 2017, an increase of almost 11% over the 2000-2006 average. Methane
from the production and use of fossil fuels reached 108 million tons in 2017,
an increase of almost 15% over the previous period."
Europe emerges in
this work as the only region that has experienced a decrease in methane emissions
in the last two decades. "Environmental policies and better management
have succeeded in reducing emissions from landfills, fertilisers and other
sources in Europe. People are also eating less meat and more poultry and
fish," notes Marielle Saunois of the University of Versailles
Saint-Quentin in France, lead author of the paper published in Earth System
Science Data.
The methane
emissions map also reveals that the increase was more pronounced in Africa, the
Middle East, China and South Asia and Oceania (which includes Australia and
many Pacific islands). "Each of these regions increased emissions by about
ten to 15 million tons per year during the study period. The United States
followed closely, increasing methane emissions by 4.5 million tons, mainly due
to more exploration, distribution and consumption of natural gas," the
statement said.
The biggest jump
(in the worst sense) has been recorded in tropical regions and polar areas have
played a much less important role according to this work, which also concludes
that no signs have been found to confirm fears of a major contribution of
permafrost defrost in methane emissions.
Again, the old
maxim
Rob Jackson,
professor of terrestrial system sciences at Stanford Earth's School of Earth,
Energy and Environmental Sciences( Stanford Earth), confirms that fossil fuel
sources and livestock are the two main two engines of the dangerous methane
climb. "Emissions from livestock and other ruminants are almost as large
as those in the fossil fuel industry for methane," said the scientist
quoted in the statement, adding that "people joke about cow burping
without realizing what it really means."
Perhaps not
everyone plays with this issue, let alone this way, but the part that should be
taken seriously tells us that, according to this work, between 2000 and 2017
agriculture accounted for approximately two-thirds of all methane emissions
linked to human activities. Fossil fuels have contributed most of the remaining
third.
And again, the
old maxim that accompanies the bad news about environmental indicators emerges:
"More than half of all methane emissions come from human activities."
Annual methane emissions have increased by 9%, or 50 million tons per year,
since the early 2000s, when methane concentrations in the atmosphere were
relatively stable, the researchers conclude. And so that there is no doubt
about the extent of the damage it is clarified that "in terms of potential
and heating" the addition of this extra methane bill in the atmosphere is
the same as "putting another 350 million cars on the world's roads or
doubling the total emissions of Germany or France". And there's nothing to
indicate that things will get better in the near future.
Looking at the
times we live in, the scenery doesn't seem to be better. The foreseeable
improvement of some environmental indicators has been reported because of this
pandemic of covid-19. Thus, at the expense of limitations in transport and
industry, greenhouse gas emissions will have suffered a cut that animates many
experts. But Rob Jackson doesn't seem too optimistic about methane:
"There's no way methane emissions will drop as much as carbon dioxide emissions
because of the virus," admits Rob Jackson.
At the end of
March, scientists at Columbia University in New York argued in statements to
the BBC that it was expected that this pandemic would cause a drop in carbon
monoxide produced mainly by the city's motor vehicles, 50% on some days this
week, a decrease in carbon dioxide between 5 and 10% and also "a solid
drop in methane methane".
And in Germany,
without going ahead with figures, dirk Messner, head of the German environment
agency, also said at the same time that coronavirus can help the country reach
its goal of reducing greenhouse gas emissions by 40%, compared to 1990 figures.
"We will see a reduction because of coronavirus. This is obvious," he
said, however, warning that the hypothesis of this benefit being only temporary
and everything is back with before (the pandemic) in a short time.
For scientists,
reducing methane emissions is possible and the way to achieve it is clear. And
once again, there's nothing new here: "We need to eat less meat, reduce
emissions associated with cattle and rice, and replace oil and natural gas in
our cars and homes," Recalls Rob Jackson.
OPINIÃO
‘Green Deal’ na Europa. ‘Trouble in Paradise’ na Holanda
A Holanda encontra-se em grande tumulto social com acções
permanentes de bloqueio e manifestações por parte dos agricultores. Estamos,
portanto, no turbilhão do confronto real entre intenções urgentemente
formuladas e os efeitos concretos das mudanças imperativas.
António Sérgio
Rosa de Carvalho
22 de Dezembro de
2019, 4:49
Com a
apresentação do marcante, ambicioso e urgentemente necessário ‘Green Deal’,
Ursula von der Leyen perfila o início de um novo ciclo na Comissão Europeia e
acentua a vontade da Europa em liderar a acção na urgentíssima questão do
Clima/Ambiente.
Ora, estamos
habituados a que seja a Europa Central/Leste, que inclui os países com maior
dependência económica e social do carvão, a oferecer a maior resistência às tão
necessárias mudanças no insustentável modelo de crescimento económico baseado
nos combustíveis fósseis e crescimento ilimitado.
Mas, quando se
passa à implementação de medidas reais destinadas a alterar o modelo, o
conceito de produção e a mentalidade ligada ao crescimento ilimitado, aí, somos
confrontados com uma explosão ilustrativa de ‘trouble in paradise’. Isto está a
acontecer na “progressiva” Holanda.
Aqui, o ‘paraíso’
refere-se à imagem enganadora de uma Holanda constituída por serenos prados,
bucólicas vaquinhas e pitorescos agricultores com tamancos nos pés e queijos
nas mãos.
Em 2013, uma
iniciativa por parte de 900 cidadãos pôs o Governo (e com ele a classe
política) em tribunal, exigindo, em nome dos tratados de Direitos Humanos
assinados pela Holanda, que obrigam o Governo a proteger os cidadãos de ameaças
que ponham em perigo o direito à vida e segurança, que o Governo se
comprometesse a garantir os 25% de redução de gases de efeito de estufa em
2020.
Em 2015, este
grupo denominado Urgenda ganhou a acção em tribunal, para surpresa do Governo.
O Governo apelou e perdeu de novo em tribunal em 2018. Esta sentença foi
confirmada a 20 de Dezembro de 2019 pelo Supremo Tribunal de Justiça holandês.
Entretanto, o
Governo perdeu três anos neste processo no que respeita às urgentes medidas a
tomar para garantir os 25%. O mesmo anunciou que só poderá garantir entre 19% e
21%, embora tenha afirmado que irá fazer o necessário para responder às
exigências do tribunal.
Ora, a Holanda
assinou o Acordo de Paris a 21 de Abril de 2016. Nesta perspectiva, os partidos
políticos com consciência ambiental pressionaram o Governo, o que levou com um
consenso maioritário à adopção de uma Lei do Ambiente (Klimaatakkoord/ redução
em 49% dos gases em 2030/ neutralidade carbónica em 2050) nos finais de Junho
de 2019.
E é aqui que
chegamos ao aparente e enganador ‘paraíso agrário’ holandês. Os agricultores
holandeses produzem seis vezes mais do que o necessário para o consumo interno
da Holanda. Estas cinco parcelas excedentes são para exportação. Os efeitos na
fertilidade dos solos desta produção intensiva são desastrosos. Acidez,
poluição química e alteração dos níveis freáticos assustadores e
insustentáveis.
E, quanto às
vaquinhas, estas constituem pelo seu número desmesurado fonte permanente de
gases de efeito de estufa, através do amoníaco produzido pela mistura de fezes
e urina e pela libertação de metano na respiração, além do óxido nitroso
produzido pelas fezes e os nitratos e fósforos infiltrados nos solos.
Em resumo, a
produção agrícola tem que ser reduzida a metade e o número de vacas também além
do número de porcos. Isto implica uma recusa de um modelo de crescimento e
exploração agrícola e de um ‘certo’ perfil de agricultor.
A Holanda
encontra-se em grande tumulto social com acções permanentes de bloqueio e
manifestações por parte dos agricultores, e não só. Também o sector da
construção, que tem que definitivamente mudar. Na Alemanha desenvolve-se o
mesmo fenómeno.
Estamos,
portanto, no turbilhão do confronto real entre intenções urgentemente
formuladas e urgentissimamente necessárias e os efeitos concretos das mudanças
imperativas.
O mais curioso é
que, no caso da vitória jurídica da iniciativa cívica Urgenda, o que foi
ilustrado foi uma vitória nítida do princípio de que “é preciso ambientalizar a
política” em lugar de que “é preciso politizar o ambiente”.
Historiador de Arquitectura



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