ENTREVISTA
David Justino: “O ‘congresso das direitas’ está a
reconhecer o Chega como uma força política importante”
David Justino, vice-presidente do PSD, não iria à
convenção promovida pelo Movimento Europa e Liberdade, da próxima semana, em
que participa o Chega. “Só não sei porque não convidam o PNR, já agora! Também
era bem-vindo, pelos vistos”, diz, na entrevista PÚBLICO- Rádio Renascença.
Ana Sá Lopes,
Eunice Lourenço (Renascença) e Nuno Ferreira Santos (Fotografia)
20 de Maio de
2021, 6:01
David Justino diz
que o PSD não tem metas quantificadas para as autárquicas, mas dá uma garantia:
Rui Rio fará uma leitura política dos resultados e não irá “efabular” ou “dizer
que ganhou as eleições”, se isso não acontecer. Pode ouvir a entrevista nesta
quinta-feira, às 23h na Rádio Renascença.
Na próxima semana
vai decorrer aquilo a que alguns chamam o “congresso das direitas”, em que vão
falar todos os líderes de partidos à direita e até participa um deputado do PS.
É um primeiro passo público para uma união das direitas, tendo em vista
eleições futuras?
Confesso que
tenho sempre algumas reservas em relação a estas soluções frentistas. Eu que
venho da esquerda nunca concordei com o frentismo de esquerda. O facto de me
ter tornado mais conservador, liberal e social-democrata não me permite deixar
de contrariar este frentismo de direita. E tenho reservas quer de base
ideológica e programática, quer de base táctica.
E que reservas?
Se olharmos para
os resultados das últimas eleições, mais do que uma vitória do PS, houve uma
vitória da esquerda sobre a direita. A direita tornou-se mais fragmentada com
algumas alterações – a queda do CDS, alguma redução do PSD, o aparecimento do
Chega e da Iniciativa Liberal e por pouco não era também a Aliança.
A esquerda, há
umas décadas, em vez de se desagregar, agregou-se no Bloco e o PCP manteve
aquela aliança, a chamada “aliança melancia”, com os Verdes. E o PS incorporou
muitos militantes isolados, de alguns movimentos, dentro da sua organização.
Nos últimos anos, à direita do PS, estamos a assistir ao movimento contrário.
Se não há uma base ideológica dessa frente unitária, dificilmente ela pode
existir a não ser para a defesa de interesses.
Para partidos que
estão na oposição, aquilo que menos interessa neste momento é a defesa de
interesses. O debate ideológico não tem acontecido tanto quanto eu entendo que
seria necessário à direita.
Sinceramente,
para mim, o Chega é um deputado, mais nada.
Então qual deve
ser a atitude do PSD em relação a esse frentismo?
Uma coisa é um
partido que tem um deputado representado na Assembleia e outro que tem 70 e
tal. A diferença está nisto. Não pode haver situação de igualdade em termos de
parceria ou em termos de entendimento entre grupos que têm um deputado e o
maior grupo parlamentar da oposição.
Acha que o
congresso beneficia o deputado André Ventura?
Quando se fala no
problema da normalização do Chega... O que o congresso está a fazer é
reconhecer o Chega como uma força política importante. E eu, sinceramente, para
mim, o Chega é um deputado, mais nada.
Disse que a
convenção do Movimento Europa e Liberdade, ao aceitar Ventura como um par, está
a normalizar o Chega.
Utilizando aquilo
que é o aferidor da normalização, aparentemente está... Eu só não sei porque é
que não convidam o PNR, já agora! Também era bem-vindo, pelos vistos.
Então também acha
mal que Rui Rio participe?
Não acho nada mal,
é uma decisão que lhe cabe a ele. É mais uma manifestação de boa vontade do
presidente do PSD do que uma posição radical. Ele nos dois primeiros não
participou e entendeu que agora sim, porque também tinham alargado o leque para
outros sectores que não estavam representados.
Se olharmos para
os resultados das últimas eleições, mais do que uma vitória do PS, houve uma
vitória da esquerda sobre a direita
Alargaram de
mais?
Não sei. Se
calhar alargaram de mais, quer mais para a esquerda, quer para a direita. O dr.
Rio aí sente-se muito mais confortável...
Mais confortável
por estar lá um deputado do PS?
É natural. Se ele
se sente mais confortável para o fazer, deve-o fazer. O presidente do PSD não
está sujeito a qualquer centralismo democrático. Tem um grau de liberdade que
lhe permite tomar opções.
O professor David
Justino não iria?
Eu não teria
grande interesse em lá ir. Não é nestes ‘happenings’ que se faz a reflexão em
torno dos grandes problemas do país. Às vezes é em pequenos grupos. Eu dou mais
importância a esses contributos do que a andarmos a forçar um contexto político
que, de todo em todo, não existe. Pode ser um desejo, pode ser uma vontade, mas
não é uma realidade.
Havendo essa
vontade de mudar [nos Açores], devemos fazer todos os esforços, mesmo que nos
tenhamos que revoltar por dentro, para concretizar isso
O PSD tem sido
acusado de promover essa normalização do Chega. O líder do Chega já disse que
se quer reunir com o líder do PSD para discutir alianças. Qual deve ser a
resposta do PSD?
Ele queria
reunir-se... Mas o PSD reúne-se com quem muito bem entender. Relativamente a
isso já dissemos o que tínhamos a dizer. Tudo está dito. E não há razão
objectiva nem mudança significativa que nos leve a pensar de forma diferente.
Não vão discutir
alianças com o Chega e, no entanto, já admitiram que, se o Chega mudar, pode
haver alianças. Por exemplo, para um apoio parlamentar, como aconteceu nos
Açores...
O caso dos Açores
é um caso específico após a governação do PS durante 24 anos. Vamos admitir que
não chegávamos a um entendimento. O PS iria governar mais quatro anos, não se
sabe como e em que condições! Num caso destes, temos de ser racionais e
pragmáticos. Era o primeiro sinal de que a população dos Açores queria mudar de
vida e deve ser respeitado. Havendo essa vontade de mudar, devemos fazer todos
os esforços, mesmo que nos tenhamos de revoltar por dentro, para concretizar
isso. O PSD-Açores encetou esse tipo de acordo, da parte do PSD dissemos: “Meus
senhores, têm autonomia, não vamos obstaculizar.”
Numas futuras
legislativas, o PSD vai revoltar-se por dentro e aceitar alianças com o Chega?
Eu não sei quando
vai haver legislativas, qual vai ser a repartição das forças políticas. A única
coisa que sei é que, perante a existência de um deputado, que é aquilo que o
Chega vale, tem de se fazer a aritmética. Nós temos uma relação muito mais
estreita com o CDS, que é o nosso principal aliado.
O CDS está a
desaparecer...
Isso é o que
dizem as sondagens. Até chegarmos às eleições muita coisa vai mudar. Às vezes
há determinados acontecimentos que têm um efeito desestruturante que leva a que
o eleitorado entenda que está na altura de mudar. Aquilo que as sondagens dizem
é que o eleitorado, maioritariamente, não está disponível para crises políticas
nem para mudar de governo neste quadro actual. Se o quadro mudar, vamos ver
qual vai ser a reacção das pessoas.
O que deve o PSD
fazer para ser alternativa?
Temos o programa
eleitoral de 2019 e a moção de estratégia do último congresso. Aquilo que
dizemos é que, após as autárquicas de 2021, o PSD tem de estar preparado para
assumir o poder. O nosso objectivo é reunir os contributos, ideias, propostas,
tudo o que andámos a fazer este tempo todo. Se o eleitorado quer ou não quer
dar-nos essa confiança, é um desafio para nós e para o eleitorado.
A garantia que eu
tenho da parte do dr. Rui Rio é que é uma pessoa retintamente honesta. Não
esperem dele que vá efabular, ou dizer que também ganhou as eleições...
O presidente do
PSD disse que as autárquicas seriam decisivas para a sua liderança. Qual é a
meta?
Não temos metas
quantificadas. Nas legislativas é muito mais fácil quantificar. O número de
mandatos nas câmaras, nas assembleias municipais, nas assembleias de freguesia,
tudo isso vai ser importante. Agora, não vamos pôr todas as câmaras no mesmo
nível. Às vezes duas ou três câmaras pela carga simbólica que têm podem ser
mais importante do que ter dez.
Como aconteceu em
2001, quando o PS perdeu Lisboa e Porto...
Exactamente. Mas
hoje há uma rede de cidades, mesmo no interior, que têm uma posição estratégica
muito importante. A nossa preocupação não pode ser só ocupar e ganhar lugares.
Isso é próprio de máquinas de poder. O PSD não pode ser uma mera máquina de
poder. Tem de ser uma máquina de transformação de sociedade. O PS é uma máquina
de poder e, se o PSD se transformar nessa máquina de poder sem ter as ideias,
sem ter os projectos que a sociedade exige, deixo de me sentir retratado no
partido. Passo à clandestinidade. Não me interessa. O poder só tem sentido para
ser um instrumento de mudança na sociedade.
No caso das
autárquicas não temos meta quantificada – mas tem de haver uma leitura política
credível na noite das eleições sobre o que ganhámos e o que não conseguimos
ganhar. A garantia que eu tenho da parte do dr. Rui Rio é que é uma pessoa
retintamente honesta. Não esperem dele que vá efabular, ou dizer que também
ganhou as eleições...
De cada vez que a
dra. Suzana Garcia é atacada e decide defender-se, sobe na minha consideração
Perder Lisboa,
Porto e Coimbra ditaria o afastamento de Rui Rio?
Depende do resto.
As variáveis são tantas. Se calhar uma câmara ou duas pode ter um peso
simbólico tão importante. Não estamos a fugir a um compromisso, mas
reconhecemos que a leitura política que se faz tem de ter em conta o momento.
Mas estamos com expectativas muito razoáveis de que vamos conseguir boas
vitórias em vários sítios, quer em grandes, quer em pequenas câmaras.
Rui Moreira
acusou na Rádio Renascença Rui Rio de estar obcecado com as eleições no Porto e
de o julgar na praça pública. Rui Moreira tem condições para continuar à frente
da Câmara do Porto e ser candidato?
O que digo para o
dr. Rui Moreira é o que entendo para outros casos: havendo suspeição
relativamente ao exercício de um cargo, se fosse comigo, eu pedia a demissão.
Com uma suspeição fundamentada, era de bom-tom que suspendesse o mandato.
Demarcou-se do
Chega, mas a partir do momento em que o PSD aceita uma candidata à Câmara da
Amadora como Suzana Garcia, que defende a castração química e física de
pedófilos, o PSD e o Chega não estão hoje mais próximos?
De modo nenhum.
De cada vez que a dra. Suzana Garcia é atacada e decide defender-se sobe na
minha consideração. Ela publicou dois artigos e deu uma entrevista. Depois de
ter lido os artigos e a entrevista, devo dizer que acho que é uma mulher
extremamente inteligente, capaz, com garra e com vontade de dar uma volta no
município da Amadora. E isso merece-me um enorme respeito.
Mesmo com
castração?
Posso respeitar o
argumento que ela utilizou, eu não o defendo, mas a democracia também é um
bocadinho isto. Mas a identificação com o Chega não tem sentido nenhum. A dra.
Suzana Garcia é uma candidata independente, embora simpatizante do PSD. No
fundamental, é uma boa candidata, ou não? É. Respeita o fundamental dos valores
intrínsecos do PSD? Respeita. Para mim, isto é básico. Agora, não coincido com
a abordagem que ela faz. Há diferenças, mas isso faz parte da democracia.
Porque não
apoiaram Santana Lopes na Figueira da Foz?
O dr. Santana
Lopes, mais do que uma vez, mostra uma grande indecisão relativamente ao que
quer. Chegou-se a conversar sobre várias alternativas. Ele escolheu a Figueira,
para a Figueira já tínhamos um candidato escolhido, que é um excelente
candidato. Amigos, amigos, negócios à parte.


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