quinta-feira, 25 de maio de 2023

Ninguém escapa: até Rui Tavares já é populista

 



OPINIÃO

Ninguém escapa: até Rui Tavares já é populista

 

Costa encara os debates parlamentares como um recreio de dichotes e habilidades semânticas, onde se diverte a mandar bocas e boquinhas, sem substância.

 

João Miguel Tavares

João Miguel Tavares

25 de Maio de 2023, 6:38

https://www.publico.pt/2023/05/25/opiniao/opiniao/ninguem-escapa-ate-rui-tavares-ja-populista-2050923

 

No debate parlamentar desta quarta-feira, o deputado Rui Tavares atreveu-se a sugerir que as coisas não andam a correr lá muito bem ao Governo, e que a maioria absoluta do PS não está a ser tão dialogante quanto prometeu. Disse também que todos os agentes políticos, a começar pelo primeiro-ministro, têm “um papel a desempenhar” para “evitar que o país se transforme num lamaçal” e “num charco cada vez mais pequeno”.

 

Isto foi suficiente para António Costa acusar Rui Tavares de ter sido infectado pelo “vírus” do populismo, que entrou no Parlamento através do Chega. Esse vírus, disse Costa, “transmite-se pela palavra” e “contamina o vocabulário”, e por isso “quando usamos [palavras como] ‘charco’ e ‘lamaçal’ estamos mesmo a ser contaminados”. Concluiu com um conselho para o deputado do Livre: “Vacine-se rapidamente!"

 

É uma resposta extraordinária, tendo em conta que Rui Tavares costuma ser tão aprumado nas suas intervenções que até ganhou fama de ser demasiado ingénuo para a actividade política. No entanto, para António Costa, Rui Tavares é mais um que agora é populista, e que está a ajudar a chocar o “ovo da serpente”. Para o nosso caro primeiro-ministro, toda a gente é populista, excepto, claro, o próprio primeiro-ministro.

 

E, no entanto, como já terá percebido qualquer pessoa que tenha olhos, ouvidos e um cérebro irrigado, a conversa do populismo transformou-se, na boca de António Costa, na mais coçada desculpa e na mais ociosa das bengalas retóricas para responder a todas as críticas que o incomodam e a todos os temas em relação aos quais opta por esconder informação ao Parlamento.

 

Costa encara os debates parlamentares como um recreio de dichotes e habilidades semânticas, onde se diverte a mandar bocas e boquinhas, sem substância, sem esclarecer nada que lhe pareça vagamente incómodo e sem aceitar seriamente o escrutínio da Assembleia da República – e depois chama populistas aos outros.

 

Tão populista é aquele que aposta na gritaria e no soundbite para o telejornal, como é aquele que se recusa responder a perguntas directas sobre o comportamento de ministros

 

Convém esclarecer o senhor primeiro-ministro: tão populista é aquele que aposta na gritaria e no soundbite para o telejornal, como é aquele que se recusa responder a perguntas directas sobre o comportamento de ministros, seja na Operação Tutti Frutti, seja na intervenção do SIS na noite de 26 de Abril. Nenhuma das duas posturas é séria. Nenhuma delas respeita o contrato entre eleitos e eleitores.

 

A certa altura, António Costa acusou André Ventura de não ter interesse “nos factos”. Eis o descarado populismo do antipopulista: 1) Costa recusou-se, durante quatro horas, a esclarecer o mais básico dos factos sobre o conteúdo do telefonema entre João Galamba e o secretário-adjunto do primeiro-ministro António Mendonça Mendes; 2) Costa anda há dias a fugir à reconstituição das “horas e horinhas” da noite fatídica, para que não se percebam as contradições do Governo e aquilo que foi um evidente envolvimento abusivo do SIS no processo de recuperação do computador de Frederico Pinheiro.

 

Rui Tavares, na sua segunda intervenção, alertou para a história da “degradação democrática no nosso país”. António Costa aconselhou-o a ser mais modesto, porque o debate desta quarta-feira não iria ficar para a História. É verdade que não ficará pelo seu conteúdo – mas poderia ficar pela forma. Os populismos não nascem de geração espontânea. Eles são uma consequência da degenerescência política do centro e da decadência das instituições. A postura de António Costa neste debate explica muita dessa decadência e dessa degenerescência.

 

O autor é colunista do PÚBLICO

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