OPINIÃO
Ninguém escapa: até Rui Tavares já é populista
Costa encara os debates parlamentares como um recreio de
dichotes e habilidades semânticas, onde se diverte a mandar bocas e boquinhas,
sem substância.
João Miguel
Tavares
João Miguel
Tavares
25 de Maio de
2023, 6:38
No debate
parlamentar desta quarta-feira, o deputado Rui Tavares atreveu-se a sugerir que
as coisas não andam a correr lá muito bem ao Governo, e que a maioria absoluta
do PS não está a ser tão dialogante quanto prometeu. Disse também que todos os
agentes políticos, a começar pelo primeiro-ministro, têm “um papel a
desempenhar” para “evitar que o país se transforme num lamaçal” e “num charco
cada vez mais pequeno”.
Isto foi
suficiente para António Costa acusar Rui Tavares de ter sido infectado pelo
“vírus” do populismo, que entrou no Parlamento através do Chega. Esse vírus,
disse Costa, “transmite-se pela palavra” e “contamina o vocabulário”, e por
isso “quando usamos [palavras como] ‘charco’ e ‘lamaçal’ estamos mesmo a ser
contaminados”. Concluiu com um conselho para o deputado do Livre: “Vacine-se
rapidamente!"
É uma resposta
extraordinária, tendo em conta que Rui Tavares costuma ser tão aprumado nas
suas intervenções que até ganhou fama de ser demasiado ingénuo para a
actividade política. No entanto, para António Costa, Rui Tavares é mais um que
agora é populista, e que está a ajudar a chocar o “ovo da serpente”. Para o nosso
caro primeiro-ministro, toda a gente é populista, excepto, claro, o próprio
primeiro-ministro.
E, no entanto,
como já terá percebido qualquer pessoa que tenha olhos, ouvidos e um cérebro
irrigado, a conversa do populismo transformou-se, na boca de António Costa, na
mais coçada desculpa e na mais ociosa das bengalas retóricas para responder a
todas as críticas que o incomodam e a todos os temas em relação aos quais opta
por esconder informação ao Parlamento.
Costa encara os
debates parlamentares como um recreio de dichotes e habilidades semânticas,
onde se diverte a mandar bocas e boquinhas, sem substância, sem esclarecer nada
que lhe pareça vagamente incómodo e sem aceitar seriamente o escrutínio da
Assembleia da República – e depois chama populistas aos outros.
Tão populista é aquele que aposta na gritaria e no
soundbite para o telejornal, como é aquele que se recusa responder a perguntas
directas sobre o comportamento de ministros
Convém esclarecer
o senhor primeiro-ministro: tão populista é aquele que aposta na gritaria e no
soundbite para o telejornal, como é aquele que se recusa responder a perguntas
directas sobre o comportamento de ministros, seja na Operação Tutti Frutti, seja
na intervenção do SIS na noite de 26 de Abril. Nenhuma das duas posturas é
séria. Nenhuma delas respeita o contrato entre eleitos e eleitores.
A certa altura,
António Costa acusou André Ventura de não ter interesse “nos factos”. Eis o
descarado populismo do antipopulista: 1) Costa recusou-se, durante quatro
horas, a esclarecer o mais básico dos factos sobre o conteúdo do telefonema
entre João Galamba e o secretário-adjunto do primeiro-ministro António Mendonça
Mendes; 2) Costa anda há dias a fugir à reconstituição das “horas e horinhas”
da noite fatídica, para que não se percebam as contradições do Governo e aquilo
que foi um evidente envolvimento abusivo do SIS no processo de recuperação do
computador de Frederico Pinheiro.
Rui Tavares, na
sua segunda intervenção, alertou para a história da “degradação democrática no
nosso país”. António Costa aconselhou-o a ser mais modesto, porque o debate
desta quarta-feira não iria ficar para a História. É verdade que não ficará
pelo seu conteúdo – mas poderia ficar pela forma. Os populismos não nascem de
geração espontânea. Eles são uma consequência da degenerescência política do
centro e da decadência das instituições. A postura de António Costa neste
debate explica muita dessa decadência e dessa degenerescência.
O autor é
colunista do PÚBLICO


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