Não estranhem. É apenas o velho PS de Sócrates. Outra vez
O Portugal que hoje critica as tristes figuras de Galamba
ou de Medina é o mesmo Portugal que tem mostrado uma complacência estapafúrdia
para com a presença de antigos socratistas na esfera do poder.
João Miguel
Tavares
2 de Maio de
2023, 6:45
https://www.publico.pt/2023/05/02/opiniao/opiniao/nao-estranhem-apenas-velho-ps-socrates-2048086
Durante vários
anos escrevi obsessivamente sobre a vergonha que era ter José Sócrates como
primeiro-ministro, e durante outros tantos anos escrevi obsessivamente sobre a
vergonha que era fingir que José Sócrates não tinha sido primeiro-ministro. O
mantra de António Costa “à justiça o que é da justiça, à política o que é da
política”, que ele repete incessantemente desde Novembro de 2014, teve como
única função erguer uma cerca sanitária entre o PS e Sócrates, para depois
Costa poder fingir que tudo o que se passou entre 2005 e 2011 – não apenas a
corrupção, mas o atentado ao Estado de Direito, com a tentativa de controlo de
empresas, banca, comunicação social, reguladores, justiça e serviços secretos –
era responsabilidade de um único homem, e tinha sido feito sem a cumplicidade
do Partido Socialista.
Não tinha, claro.
A cumplicidade do PS sempre existiu. E é por ter existido que transformar os
seis anos de socratismo num grande impensado é uma tragédia. Nunca houve uma
reflexão séria sobre esse período. Nunca se apuraram responsabilidades, nem se
afastaram os seus homens de mão. Nunca se avaliaram métodos nem tácticas. E,
pelo andar da carruagem, nem Sócrates irá a julgamento. É este grande impensado
que explica que os dois maiores socratistas de então – Augusto Santos Silva e
Pedro Silva Pereira – sejam hoje presidente da Assembleia da República, com
aspirações a presidente da República, e vice-presidente do Parlamento Europeu.
E é este grande impensado que faz com que alguns dos jovens turcos que lhe eram
mais caninamente fiéis – como João Galamba, o homem que ajudava a alimentar o
blogue Câmara Corporativa e que avisou Sócrates um mês antes de ser detido de
que ia “ser feito qualquer coisa contra ele muito rapidamente” – sejam hoje
ministros da República.
Na conferência de
imprensa de João Galamba ficámos a saber duas coisas extraordinárias. 1) Que
ele se reuniu com a CEO da TAP dois dias antes da sua audição no Parlamento e
aconselhou-a a ir à reunião de preparação com quem a iria inquirir,
contrariando tudo o que já tinha afirmado. 2) Que chamou o SIS para recolher o
computador do seu adjunto por sugestão do gabinete do primeiro-ministro e da
ministra da Justiça, um pedido claramente ilegal, que faz o SIS passar por
polícia secreta do governo, uma suspeita que era comum no tempo de Sócrates.
Qualquer um
destes factos é gravíssimo. Galamba não tem quaisquer condições para permanecer
no lugar, e há apenas duas escapatórias para o governo: ou António Costa faz
uma remodelação profunda, ou é obrigado por Marcelo a estrear uma modalidade
constitucional, talvez a mais adequada ao momento – convidar o primeiro-ministro
a formar um novo governo sem dissolver o Parlamento.
Mas convém notar
que o Portugal que hoje critica as tristes figuras de Galamba ou de Medina,
enrolados numa teia patética de mentiras descabeladas, é o mesmo Portugal que
tem mostrado uma complacência estapafúrdia para com a presença de antigos
socratistas na esfera do poder. Os tempos socráticos foram um teste de stress à
democracia portuguesa. Não faltaram alertas para o que se estava a passar. Quem
permaneceu com ele até ao fim, e calado depois do fim, não deveria ter lugar na
política. Quando tudo corre bem, fingem ser gentlemen. Mas quando tudo começa a
correr mal, logo emerge a velha natureza, sem carácter nem princípios. Este é o
pecado original de António Costa. Esta é a principal causa da erosão do regime.


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