sábado, 20 de maio de 2023

Cinco maiores bancos renegociaram 30 mil créditos à habitação até Março

 


EURIBOR

Cinco maiores bancos renegociaram 30 mil créditos à habitação até Março

 

Montante de crédito renegociado superou 1500 milhões de euros no primeiro trimestre. Taxas Euribor continuam a subir, agravando os encargos com a casa.

 

Rosa Soares

20 de Maio de 2023, 11:45

https://www.publico.pt/2023/05/20/economia/noticia/cinco-maiores-bancos-renegociaram-30-mil-creditos-habitacao-ate-marco-2050313

 

Os pedidos de renegociação de empréstimos à habitação para reduzir o valor das prestações, que se têm agravado com as fortes subidas das taxas Euribor, aumentaram significativamente no primeiro trimestre, e deverão continuar a subir nos próximos meses, tendo em conta que o custo do dinheiro para as famílias ainda não parou de subir. Até Março, os cinco maiores bancos renegociaram 30.452 contratos, o que representa mais de 2% do total de créditos à habitação a taxas variáveis, ou seja, associados às Euribor, existentes em Portugal.

 

O número de contratos que sofreram alterações – como alargamento do prazo, criação de períodos de carência de capital ou diferimento de parte da dívida para o fim do contrato, entre outras – contrastam com os 513 empréstimos renegociados ao longo de 2022, segundo dados do Banco de Portugal (BdP).

 

O número bem mais reduzido nas operações registadas no ano passado é explicado pelo facto de as taxas Euribor terem começado a subir de forma expressiva a partir do Verão, e de o seu reflexo nos contratos existentes ser feito a cada três, seis ou 12 meses, conforme a taxa Euribor a que estão associados. Mas essencialmente, deve-se ao facto de o Decreto-lei 80-A, que veio facilitar as renegociações de créditos até 300 mil euros, para devedores com taxa de esforço igual ou superior a 36%, só ter entrado em vigor a 25 de Novembro do ano passado, justificando a concentração de processos no arranque de 2023.

 

Até agora, e de acordo com dados das instituições de crédito, a Caixa Geral de Depósitos registou o número mais elevado de renegociações regulares, num total de oito mil contratos. O banco público é seguido de muito perto pelo Banco Santander, com 7900 empréstimos revistos. Junta-se o BCP, com 6500, o Novo Banco, com 6152, e ainda os 1900 do BPI.

 

As instituições em causa não revelaram o montante total de crédito renegociado, mas os dados do BdP relativos ao crédito concedido nos primeiros três meses do ano mostram que o montante relativo a renegociações ascendeu a 1559 milhões de euros. Este crédito renegociado representou 34,4% do total do crédito à habitação concedido no período, que ascendeu a 4528 milhões de euros.

 

É importante esclarecer que quando um crédito é renegociado ou ocorre uma transferência para outra instituição é contabilizado como uma nova concessão de crédito.

 

Montante do crédito renegociado representou 34,4% do total do crédito à habitação concedido no primeiro trimestre

 

A fatia de crédito renegociado cresceu de 31,6% em Janeiro para 33,6% em Fevereiro e para 38,3% em Março. Neste último mês, este tipo de crédito (661 milhões de euros) explica boa parte do forte aumento de empréstimos, que ascendeu a 1795 milhões de euros (1386 milhões em Janeiro e 1347 milhões em Fevereiro). O peso de 38,3% de Março compara-se ainda com apenas 5,9% no mesmo mês de 2022, período em que o total de crédito concedido foi de 1691 milhões de euros.

 

No último trimestre do ano passado, as renegociações representaram 19,3% do crédito concedido, que totalizou 3879 milhões de euros.

 

Renegociações vão aumentar

Entretanto, o número de renegociações deverá continuar a aumentar, porque as taxas de juro ainda não pararam de subir e há uma fatia de contratos com Euribor a 12 meses que ainda não foi revista com as taxas positivas, havendo outros casos (associados aos prazos a três e a seis meses) que já foram actualizados mas em que as taxas continuam em valores mais baixos.

 

No Relatório de Estabilidade Financeira, de Maio, o BdP dá conta de que, “de acordo com as expectativas de mercado, o aumento das prestações deverá manter-se até Setembro de 2023, ainda que mais acentuado para os empréstimos indexados à Euribor a 12 meses e mais moderado nos indexantes com prazos inferiores, sobretudo no caso da Euribor a três meses”.

 

Esta sexta-feira, a Euribor a 12 meses fixou-se em 3,878%, a de seis meses em 3,707%, e a de três meses em 3,415%. Em Abril, a taxa de juro implícita no conjunto dos contratos à habitação atingiu 3,110%, o valor mais elevado desde Junho de 2009, e a taxa média dos empréstimos contratados no primeiro trimestre ascendeu a 3,675%, de acordo com dados do Instituto Nacional de Estatística.

 

Por outro lado, alguns particulares têm estado a aguardar outra medida de apoio às famílias. Trata-se da bonificação de parte do aumento de juros a partir de um determinado patamar da taxa, os 3%, podendo ser mais alta em alguns casos. Este apoio só abrange famílias com rendimentos até 38.632 euros brutos anuais, taxa de esforço igual ou superior a 35% do seu rendimento anual, valor do crédito inicial até 250 mil euros, sem património financeiro superior a 29.786 euros.

 

As candidaturas a este apoio arrancaram na semana passada, dispondo as instituições de um prazo de 10 dias para responder aos clientes se têm ou não direito ao apoio. Mas as contas apresentadas pelo próprio Governo apontam para apoios modestos em termos financeiros.

 

Novos empréstimos a encolher

Com a junção do crédito renegociado e ainda com o que resulta de transferências entre instituição, torna-se mais difícil avaliar a evolução dos empréstimos efectivamente novos para a compra de habitação.

 

De acordo com o BdP, as novas operações de crédito à habitação, excluindo renegociações, apresentam uma tendência de redução desde Março de 2022, com taxas de variação homólogas negativas a partir de Julho, mantendo-se, no entanto, ainda acima do valor registado no final de 2019 (período pré-pandémico). A contracção no terceiro e quarto trimestre do ano passado foi, em termos homólogos, de 5,3% e 14,7% respectivamente. No primeiro trimestre de 2023, a redução acentuou-se para 23,1%, em termos homólogos.

 

Curiosamente, na área do euro, a contracção das novas operações de crédito à habitação na segunda metade do ano foi mais acentuada, com quedas no terceiro e quarto trimestre do ano passado de 13,3% e 25,3%, respectivamente.

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