domingo, 21 de maio de 2023

A influência da Expo-98 tarda em estender-se ao resto da zona oriental

 



LISBOA

A influência da Expo-98 tarda em estender-se ao resto da zona oriental

 

A regeneração de uma área de Lisboa votada ao opróbrio criou uma nova centralidade metropolitana. Apesar das promessas de requalificação por cumprir, 25 anos depois, sobram elogios e algumas críticas.

 


Samuel Alemão

21 de Maio de 2023, 7:00 actualizado a 20 de Maio de 2023, 17:30

https://www.publico.pt/2023/05/21/local/noticia/influencia-expo98-tarda-estenderse-resto-zona-oriental-2050274

 

Ricardo Lima lembra-se bem dos ralhetes que levava dos pais sempre que eles ficavam a saber que tinha ido brincar com os amigos lá para baixo, nos terrenos junto ao Tejo. “Naquela época, aquilo era um lamaçal e uma zona cheia de entulhos. Havia o perigo de ficarmos enterrados e não conseguirmos sair dali, se pisássemos onde não devíamos”, recorda o presidente da Junta de Freguesia de Moscavide e da Portela, no concelho de Loures. Na altura da Expo-98, que abriu faz nesta segunda-feira 25 anos, o actual autarca tinha 15 anos. A memória da total transformação do território que tão bem conhecia das aventuras de infância e adolescência é, por isso, fácil de evocar.

 

“O balanço que faço da Expo, passados estes anos, só pode ser positivo, porque melhorou muito a zona envolvente”, diz o edil. “Foi a melhor obra pública e de requalificação alguma vez feita em Portugal. A transformação foi radical e beneficiou-nos em muitos níveis, seja de mobilidade ou equipamentos. A única angústia tem que ver com a retirada de parte do nosso território, quando se criou a freguesia do Parque das Nações”, diz Ricardo Lima, referindo-se à alteração do estatuto administrativo, em 2013, do antigo recinto da última exposição internacional do século passado, feita com recurso a territórios dos concelhos de Lisboa e de Loures.

 

A dinâmica nascida do certame realizado há 25 anos é tão positiva, salienta Ricardo Lima, que hoje seria difícil imaginar a área de uma forma distinta. A mudança sente-se a todos os níveis, assegura. “Nota-se um enorme impacto na vida de Moscavide, com um assinalável ganho, por exemplo, para as actividades económicas. Os nossos restaurantes estão sempre cheios com as pessoas que frequentam o Campus da Justiça”, afirma, sem deixar de referir um dos custos desta atractividade. “A localização privilegiada faz com que os preços da habitação em Moscavide sejam mais elevados do que na Portela, o que não tem muita lógica”, diz.

 

Uma das razões para essa dinâmica tem que ver com a proximidade à zona ribeirinha. “Não há fronteiras, as pessoas descem a rua e vão até lá abaixo, não se sentem noutro concelho. É um território que nos é familiar”, refere o também deputado na Assembleia da República, sobre a forma como os seus fregueses agora vivem a relação com o espaço onde, durante quatro meses e uma semana, se realizou a Expo e aonde, na juventude, se deslocava com os amigos em audazes expedições. O contacto directo com o Tejo é um ganho irrefutável, não só para quem vive em Moscavide como também para a cidade de Lisboa.

 

Do mesmo não se pode gabar, porém, Silvino Correia. “Não conseguimos aceder directamente ao rio em nenhuma zona da freguesia, nem num centímetro que seja”, queixa-se o presidente da Junta da Freguesia do Beato, em Lisboa, lamentando que ali tardem em concretizar-se os ganhos que se fizeram sentir nas proximidades, através da enorme operação de requalificação urbana desencadeada com a exposição internacional que abriu portas a 22 de Maio de 1998. “Continuamos de costas voltadas para o Tejo. Era importante que isso mudasse e, pelo menos, algumas partes estivessem disponíveis para a população desfrutar”, diz o autarca, sem deixar de elogiar a “mudança radical” motivada pelo megaevento.

 

A apreciação contrastada prevalece, no momento em que se assinala um quarto de século sobre o certame convertido no acontecimento que mais mobilizou a sociedade portuguesa, durante a última década do século passado. Decorrido tanto tempo sobre a exposição e a sua recorrente evocação mediática a cada vez que se comemorava uma “data redonda”, tais como a passagem dos cinco, dos dez ou dos 20 anos da festa dedicada aos oceanos, há quem se interrogue sobre a sua herança. Afinal, o que ficou nos territórios em redor? A resposta depende de como se avalia.

 

O que falta fazer

“As pessoas sabem que há ali um espaço que foi, em tempos, a Expo, até porque, durante muito tempo, a própria sinalética alusiva ali ficou. Mas há uma concepção mais ou menos mistificada em relação ao legado da exposição”, considera Vítor Matias Ferreira, professor emérito do ISCTE e que, logo em 1995, começou a estudar os efeitos daquela intervenção numa zona da cidade de Lisboa, até então, entregue ao abandono.

 

“A nível da festa urbana, a Expo foi brilhante. Mas o que estava em causa não era apenas isso. Foi um acontecimento muito importante, sem dúvida, mas também sinónimo de contradições”, diz o investigador, considerando que sempre houve uma “confusão” entre a festa e o projecto urbanístico. E se aquela foi cumprida na íntegra, este nem tanto, julga.

 

“A verdade é que a área continua a ser um pouco periférica, apesar de, só por si, funcionar como centralidade”, avalia o académico, confessando uma sensação de alguma estranheza quando circula naquela zona da cidade e a compara com a área central da capital. “Sinto que não é a mesma cidade em que cresci, que conheço, é algo diferente”, diz o investigador, que, em 1999, lançou, juntamente com Francesco Indovina, o livro A Cidade da Expo'98: uma reconversão na frente ribeirinha de Lisboa?. Interrogação que, afinal, se mantém. “O legado depende das expectativas de cada um”, enuncia, sem deixar de notar o papel simbólico do mesmo.

 

Vítor Matias Ferreira considera que “o projecto da Expo, na verdade, continua e não tem fim”, pois a expansão urbanística com ela iniciada se mantém. Ao longo das duas últimas décadas e meia, a operação de densificação do espaço urbano tem-se reforçado, através da construção de novos edifícios. A dinâmica, desencadeada mal a exposição fechou portas, a 30 de Setembro daquele ano, “intensificou-se muito mais do que estava previsto”, avalia. A edificação incessante, centrada no recinto da exposição e nas imediações, serve, aliás, para sublinhar dois dos aspectos mais críticos dessa herança, nota o ex-docente.

 

Um deles está relacionado com o que considera ser um dos “mitos” do evento, o de que os custos do mesmo seriam cobertos pelas mais-valias imobiliárias subsequentes. “É muito discutível”, diz. O outro está relacionado com o facto de “a promessa de requalificação da zona oriental de Lisboa estar ainda por cumprir”, considera, sem deixar de notar que, ainda assim, o local onde se realizou a exposição corresponde a um “projecto urbanístico de grande qualidade”.

 

Uma avaliação com a qual tende a concordar Silvino Correia. “A realização da Expo foi muito positiva. Quem se lembra desta área da cidade sabe que foi uma transformação radical. Mas as indefinições à sua volta mantêm-se”, diz o presidente da Junta do Beato, argumentando que “ficou por cumprir a promessa de se fazer aqui cidade”. Algo que atribui à falta de vontade política. “As questões financeiras, ao longo dos anos, tiveram um peso grande para que não se fizesse mais, mas, se não houver vontade política para fazer as coisas acontecerem, elas não acontecem.”

 

Silvino Correia está, todavia, longe de fazer um balanço negativo. “É verdade que passou um quarto de século, mas existe aqui uma expectativa muito grande. O Hub Criativo do Beato, por exemplo, traz uma esperança renovada de investimento e renovação”, diz o autarca. O que implica um maior empenho não apenas dos privados, avisa. “Isto não pode ser só prédios e carros. Um investidor não tem propriamente interesse em fazer um jardim. Do ponto de vista público, tem de haver um contraponto”, postula o presidente da junta, defendendo a abertura de zonas de fruição junto ao rio. O que implicaria o envolvimento tanto da câmara como da Administração do Porto de Lisboa.

 

Planear melhor

Essa necessidade de maior engajamento do poder político é também defendida por João Rafael Santos, docente na Faculdade de Arquitectura de Lisboa. “Tem havido uma dependência sistémica do imobiliário para levar por diante estas operações. O Estado afastou-se da decisão na zona oriental”, considera o coordenador do mestrado em Ordenamento do Território e Urbanismo, ministrado naquela faculdade, em parceria com o Instituto Superior Técnico e o Instituto de Geografia e Ordenamento do Território.

 

O académico vê as povoações vizinhas de Moscavide e Sacavém como das principais vítimas do que vê como falta de pensamento estratégico na área de influência da Expo. Ao contrário do que diz o presidente da Junta de Moscavide, que considera haver uma fluidez no relacionamento com o Parque das Nações, João Rafael Santos aponta a “continuidade de barreiras físicas” que impedem as populações da zona de circularem com facilidade naqueles territórios. Ainda assim, a apreciação sobre a dinâmica herdada da operação urbana de há um quarto de século é sobretudo positiva.

 

“A avaliação faz-se sempre a várias escalas. Mas uma das marcas principais da intervenção foi uma certa reconfiguração da área metropolitana em torno do Tejo e das zonas ribeirinhas”, avalia o investigador, lembrando ainda como legado dessa época a importância a que, a partir de então, se passou a dar no país à qualificação do espaço público, à pedonalidade, aos espaços verdes, à ligação com a água e à relação das áreas urbanas com os sistemas de transportes. O que depois se veio a verificar, através do programa Pólis, criado para regenerar núcleos urbanos degradados. “De certa forma, o Pólis foi um filho da Expo”, diz.

 

Opinião partilhada por Gonçalo Byrne, bastonário da Ordem dos Arquitectos, para quem toda a operação veio criar uma “nova Lisboa, com um antes e um depois da Expo”, passando-se então a encarar a vida urbana, não apenas na capital, mas em todas as cidades portuguesas, de uma forma diferente. “Para além de criar uma nova centralidade de uma força inacreditável na área metropolitana, aquele momento foi precursor de uma série de preocupações agora centrais, como a qualidade do espaço público, a mobilidade e a sustentabilidade”, destaca o arquitecto, frisando o impulso regenerador nascido do desmantelar uma zona altamente poluída.

 

Apesar de admitir que a propagação desse espírito renovador à área circundante “foi mais lenta do que seria expectável”, assistindo-se a um maior impulso em Marvila e Beato só nos últimos anos, Gonçalo Byrne não tem dúvidas em qualificar a intervenção de há 25 anos como “plenamente conseguida”. “A Expo abriu, de facto, Lisboa e Portugal à Europa e ao mundo do ponto de vista turístico. E isso trouxe uma dinâmica de reabilitação urbanística enorme”, diz o arquitecto, apontando a Praça do Oriente, junto à gare homónima, como exemplo acabado de descerramento de uma nova realidade. Byrne fala, por isso, numa “lição magistral”.

 

O mesmo pensa Rute Afonso, da Associação Portuguesa de Urbanistas, confessando o “grande orgulho” no trabalho desenvolvido pelos colegas. “O que ali foi feito é único a nível nacional, inimitável. É um exemplo incrível de criação de um pedaço de cidade. Consegue-se perceber a importância do trabalho de planeamento feito por urbanistas”, diz a especialista, evidenciando os efeitos que a operação teve na área envolvente. “Zonas como Olivais e Moscavide deixaram de ser periféricas, ganhou-se ali uma nova centralidade urbana. E tudo isto não aconteceu por acaso, foi fruto de planeamento”, diz a urbanista.

 

Olhar o futuro com optimismo

Simonetta Luz Afonso, comissária do Pavilhão de Portugal na Expo-98, faz um balanço largamente positivo do que ficou dessa época. “É verdade que o projecto supunha também contaminar as imediações com um espírito de regeneração e isso ficou por fazer. Foi a única coisa que falhou e teve que ver sobretudo com a crise verificada nos anos seguintes e sucessivas mudanças de tutela do Parque das Nações. Mas está-se a cumprir agora, com um impulso novo, sobretudo com o Hub Criativo do Beato”, diz, sublinhando o imenso potencial da zona oriental de Lisboa.

 

“Os objectivos da Expo-98 foram todos cumpridos, é preciso lembrar que se transformou num bairro da cidade, e de forma sustentável, o que antes era uma lixeira”, diz Simonetta, para quem importa olhar agora para os bairros circundantes. “É uma área muito interessante, de quintas e património industrial. Tem ainda vida própria e é importante que assim se mantenha, sem gentrificação”, diz, referindo-se ao processo de substituição de populações originais por classes privilegiadas financeiramente.

 

A mesma preocupação tem o presidente da Junta de Freguesia de Marvila, embora também sublinhe o carácter regenerante da Expo-98. “Para as pessoas da zona oriental, foi a construção de uma nova centralidade, com melhoria acentuada da qualidade de vida e equipamentos como a Gare do Oriente”, comenta José António Videira, lamentando, porém, a demora na prometida reconversão.

 

“É importante não haver descaracterização do ponto de vista da vivência de bairro, de associativismo. No fundo, isto continua a ser uma grande aldeia”, diz, salientando a importância de se manter a coesão social da freguesia. Videira mostra-se satisfeito com projectos como a urbanização Braço de Prata, desenhada pelo arquitecto Renzo Piano, mas deixa o aviso: “Aquilo não é para o cidadão normal. Só pela simbiose é que se faz o caminho.”

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