IMAGENS DE OVOODOCORVO
OPINIÃO
Sabemos bem o que estamos a fazer?
Com a necessidade de isolar a Rússia, todos os cuidados ocidentais
com regimes como o da Arábia Saudita, ainda mais questionáveis do que o russo,
têm sido abandonados.
Maria João
Marques
24 de Agosto de
2022, 6:53
https://www.publico.pt/2022/08/24/opiniao/opiniao/sabemos-bem-2018106
Devo talvez
começar com uma declaração de interesses: a minha posição face à invasão da
Ucrânia pela Rússia não mudou um centímetro. Não sou partidária de sonsos apelos
à paz que mais não fazem que exigir uma rendição incondicional ucraniana. Não
faço victim blaming com a Ucrânia, referindo todas as falhas e malefícios do
seu regime, ou a evidente megalomania do seu presidente (vista por exemplo numa
peça para a Vogue com casal presidencial Zelensky, fotografada por Anne
Leibovitz, onde se romantizava e estetizava a guerra de um modo indecoroso),
para sugerir mais ou menos subliminarmente que não merece solidariedade e a
Rússia, calhando, até esteve bem em invadir. A Ucrânia merece a solidariedade
europeia e americana, com tudo o que isso significa de ajuda humanitária e,
sobretudo, financeira e – ainda mais – militar.
Mais: sou
partidária da ideia de a Rússia putinista (que, infelizmente, parece ser
maioritária) dever ser punida pelo atentado ao seu vizinho e à paz europeia.
Claro que devem existir negociações para um armistício, julgo que ninguém vai
insistir numa Crimeia ucraniana, porém sanções de vários tipos, que enfraqueçam
a Rússia militarmente e economicamente (donde, também a sua capacidade de
sustentar nova guerra), terão de ser mantidas enquanto Putin ou um seu herdeiro
governar o país.
Além disso,
enquanto a guerra durar, a Ucrânia tem toda a legitimidade para fazer ataques
subversivos quer na Crimeia quer na Rússia contra os seus inimigos políticos e
militares. A minha questão destas linhas não é para abandalhar este princípio
do que deve ser a convivência pacífica entre os países, que a Rússia torpedeou.
Se a Ucrânia deve
ser acudida e a Rússia punida, também me preocupo com os monstros que União
Europeia e Estados Unidos estão a criar enquanto buscam fornecedores que
compensem o petróleo e o gás que não se vão comprar à Rússia. Por exemplo a
Arábia Saudita, esse país conhecido pelo cadastro impecável no respeito pelos
direitos humanos, sobretudo os da metade feminina da população. E que,
ocasionalmente, literalmente tritura jornalistas hostis ao regime monárquico
ditatorial.
Com a guerra na
Ucrânia, a Arábia Saudita em junho aumentou a produção de barris de petróleo
para máximos de dois anos (para antes da pandemia, portanto). Em março, graças
ao crescente preço de todos os produtos energéticos, o valor das exportações
sauditas de crude ficou em máximos de seis anos, ganhando mil milhões de
dólares a cada dia. Foi um crescimento homólogo de 123% face a 2021. Como
prémio de bom comportamento na hora de suprir a escassez vinda da Rússia, e na
expetativa de comportamento futuro (em termos petrolíferos) ainda mais
promissor, Joe Biden fez uma visita de Estado à Arábia Saudita, da qual o
príncipe Mohammed bin Salman, o alegado cérebro do assassinato do jornalista
saudita radicado nos Estados Unidos Jamal Khashoggi, saiu com a reputação
lavada com lixívia.
Ora a Arábia
Saudita – cujo referido príncipe havia sido chamado de “pária” por Biden na sua
campanha eleitoral e cujas relações com os Estados Unidos já viveram melhores
dias – mostra com frequência a sua natureza. O último sintoma do seu regime
malsão foi a condenação a trinta e quatro anos de prisão de uma mulher xiita,
Salma al-Shehab, pelo que escrevia enquanto ativista dos direitos das mulheres
(e, também, dentro do eterno conflito entre xiitas e sunitas).
Porém os
malefícios do regime saudita não se restringem à política interna ou, sequer, à
influência regional no Médio Oriente. Desde os anos 60/70 do século passado que
os sauditas têm financiado mesquitas e instituições de ensino na Europa. Não é
dinheiro oferecido desinteressadamente nem somente com objetivos sociais e
educacionais. Em 2013, um relatório do Parlamento Europeu concluía que o
financiamento de organizações educacionais e sociais em vários países pelo
mundo por grupos salafistas e wahabitas (ambas formas extremistas islâmicas)
tinha objetivos políticos. De facto, nos países europeus, o financiamento
saudita wahabita a mesquitas e a instituições de ensino contribuiu para o
crescimento do islamismo radical e conservador dentro das nossas portas.
Em 2018, após
vários atentados terroristas por radicais islâmicos na Europa, a Arábia Saudita
aceitou cortar o financiamento à mesquita de Bruxelas, acusada de espalhar uma
visão radical do Islão. Contudo, os financiamentos continuam a instituições de
ensino que promovem extremismo. Várias muito tradicionais escolas privadas
britânicas têm aberto filiais na Arábia Saudita. As mais prestigiadas
universidades britânicas recebem financiamento saudita, sobretudo para
departamentos de estudos islâmicos. Também têm aberto polos universitários nos
países da Península Arábica.
Estas expansões
garantem a escolas e universidades o acesso a mercados endinheirados e
lucrativos. Mesmo se não promove o wahabismo conservador, este financiamento
explica como a academia internacional, sempre lesta em críticas ao Ocidente,
consegue tantas vezes isentar-se de críticas à organização política e religiosa
do mundo muçulmano.
Regressemos ao
ponto inicial. A promoção de países como a Arábia Saudita e o estreitamento de
laços culturais e económicos é um perigo para o mundo ocidental. Porém, com a
necessidade de isolar a Rússia, todos os cuidados ocidentais com estes regimes,
ainda mais questionáveis que o russo, têm sido abandonados. Recordemos que
promover grupos e países com objetivos hostis porque são momentaneamente úteis
para combater inimigos que, à altura, se arvoram como mais perigosos, não tem
trazido bons resultados. Os taliban são porventura o paradigma disso.
Não tenho
respostas para este desafio. A Europa precisa de gás e de petróleo, que servem
não só para cozinharmos, tomarmos banho, aquecermo-nos e enchermos o depósito
do carro, como estão também na cadeia de produção (e distribuição) de todos os
demais produtos. A inflação da zona euro estava em 8,9% em julho, sobretudo
devido à subida de preços da energia. A necessidade energética europeia é
urgente. Soluções sustentáveis – politicamente e ambientalmente – demoram a
construir. Pode bem suceder que a Europa, enquanto promove países com
ideologias hostis que renegam todos os nosso valores democráticos e humanistas,
termine ainda assim com uma crise económica aguda proveniente da escassez
energética. O pior dos dois mundos. E então Rússia contará novamente com o
general Inverno para a ajudar militarmente.
A autora é
colunista do PÚBLICO e escreve segundo o novo acordo ortográfico
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