OPINIÃO
O filho de Sérgio Figueiredo e a inconsciência do privilégio
Não duvido por um minuto que Sérgio Ribeiro se tenha
matado a trabalhar para concretizar o seu sonho. Mas achar que se o filho do
padeiro de Portalegre se tivesse matado da mesma forma teria alcançado o que
ele alcançou é pura e simplesmente ridículo.
João Miguel
Tavares
22 de Agosto de
2022, 22:13
A polémica em
torno da contratação de Sérgio Figueiredo por Fernando Medina atingiu na semana
passada Sérgio Jacob Ribeiro, CEO e fundador da Planetiers, e filho de Sérgio
Figueiredo. O semanário Novo escreveu um artigo sobre o Planetiers World
Gathering, um evento criado por Sérgio Ribeiro cuja primeira edição decorreu em
Outubro de 2020 em Lisboa, na Altice Arena. Segundo o jornal, a câmara liderada
por Fernando Medina atribuiu ao evento um patrocínio de 350 mil euros, e a TVI
foi a estação responsável pela sua promoção.
O acordo com a
TVI foi fechado quando o pai de Sérgio Ribeiro ainda era director do canal, e
embora Sérgio Figueiredo tenha garantido ao Novo que a estação de Queluz de
Baixo recebeu um valor “considerável” pela promoção do evento, o montante
exacto não foi divulgado. Sabe-se apenas que o principal patrocinador foi o
Turismo de Portugal, contribuindo com mais de um milhão de euros.
Sérgio Ribeiro,
que no Linkedin se apresenta como “Planetiers CEO & Co Founder,
International Speaker e Serial Entrepreneur”, cometeu um erro elementar de
comunicação: decidiu responder à notícia com uma carta aberta intitulada
Culpado de ser filho do meu pai, que o Observador publicou durante o
fim-de-semana. Essa carta tem um problema grave e que muito me encanita: a
inconsciência do seu privilégio.
Sérgio Ribeiro
indigna-se por ter sido “arrastado” para uma “discussão” que não lhe diz
respeito, já que aquilo que viabilizou a Planetiers World Gathering 2020 foi o
“esforço”, a “dedicação” e o “trabalho” de muita gente e de muitos
patrocinadores. E pergunta: “Serei culpado por ser filho do Sérgio Figueiredo?
Nunca tentei, por isso, ter algum tipo de vantagem ou ser mais do que qualquer
outro. Mas também não posso ser penalizado.”
Vamos lá ver. É
muito difícil acreditar que antes de 20 de Agosto de 2022, quando o Novo
pespegou a cara de Sérgio Ribeiro na primeira página do jornal, ele tenha sido
algum dia prejudicado por ser filho de Sérgio Figueiredo. O CEO & Co
Founder da Planetiers conseguiu, com menos de 30 anos de idade, organizar um
evento orçamentado em três milhões de euros, levar ao palco da Altice Arena o
presidente da Câmara de Lisboa, a secretária de Estado do Turismo, o CEO da
Altice e vários outros patrocinadores, para cumprir um sonho que parece
bastante cristalino para quem se tenha dado ao trabalho de assistir aos vários
vídeos do evento (eu dei): criar uma Web Summit portuguesa em tons de verde, um
ambicioso “hub internacional para a sustentabilidade”, com todos os truques
pirotécnicos celebrizados por Paddy Cosgrove.
Mas se até para
Paddy Cosgrove começa a faltar paciência, não admira que passados dois anos a
Planetiers World Gathering tenha encolhido da Altice Arena para o Pavilhão
Carlos Lopes, e a Câmara de Lisboa tenha informado que não vai conceder
qualquer apoio financeiro à nova edição, que acontece daqui a dois meses.
Note-se: não duvido por um minuto que Sérgio Ribeiro se tenha matado a
trabalhar para concretizar o seu sonho. Mas achar que se o filho do padeiro de
Portalegre se tivesse matado da mesma forma teria alcançado o que ele alcançou
é pura e simplesmente ridículo.
Sérgio Ribeiro
quer realmente mostrar o que vale? É muito simples: para a próxima tente fazer
o mesmo sem o apoio do amigo do pai e da estação onde o pai trabalha. Até lá,
estará sempre sujeito a que lhe aconteça o que aconteceu: apanhar por tabela
por ser filho de quem é.
O autor é
colunista do PÚBLICO



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