OPINIÃO
Aquilo que falta – e sempre faltou – às elites
portuguesas
Não pretendo que as elites sejam abolidas – pelo
contrário, desejo que sejam transformadas, para que um dia possam estar à
altura do seu nome.
João Miguel
Tavares
25 de Agosto de
2022, 0:31
https://www.publico.pt/2022/08/25/opiniao/opiniao/falta-faltou-elites-portuguesas-2018227
Peguemos no
exemplo de um dos mais admirados políticos do século XX: Winston Churchill. Há
um par de anos li a magnífica biografia que Andrew Roberts escreveu sobre ele,
e lembro-me de ficar espantado com a forma destemperada como Churchill exibia
os seus privilégios e a convicção de que caminhava pelo mundo alguns metros
acima do comum dos mortais. No livro havia uma bela citação de Lord Birkenhead,
que tratei de anotar: “Estava mentalmente escudado da incerteza sobre si
mesmo.” Churchill era um membro da elite britânica e assumia ostensivamente o
seu elitismo.
A assunção do privilégio vinha acompanhada de uma
profunda dimensão moral, que se traduzia em deveres claros para com o povo como
um todo, e para a pátria em particular. O império britânico tinha o direito de
esperar uma vida de serviço dessa aristocracia
À partida, isso
tinha tudo para me irritar. Odeio narizes empinados e não tenho a menor
paciência para quem se julga acima dos outros. Mas, de caminho, a biografia de
Roberts traçava um retrato da aristocracia inglesa do século XIX, no pináculo
do império britânico, e fazia uma distinção muito precisa acerca do significado
da palavra “privilégio”. Sim, a superioridade social era aceite sem pudor –
aliás, ela está inscrita nas casas dos bairros ricos, com a famosa divisão
upstairs/downstairs –, só que esse elitismo, na sua melhor expressão, não
atirava pela janela os deveres para ficar apenas a usufruir dos direitos. A
assunção do privilégio vinha acompanhada de uma profunda dimensão moral, que se
traduzia em deveres claros para com o povo como um todo, e para a pátria em
particular. O império britânico tinha o direito de esperar uma vida de serviço
dessa aristocracia, e homens como Churchill e tantos outros serviram, de facto,
muitas vezes até à morte, em inúmeras batalhas do século XIX, e depois nos
campos da Primeira e Segunda Guerras Mundiais.
Os que defendem, como eu, a existência de um elevador
social justo e eficaz, têm de acreditar também num lugar para onde as pessoas
se elevem
Sempre que
resmungo contra as elites portuguesas, como já resmungavam no século XIX muitos
dos que escreviam nos jornais, o meu protesto e frustração são sinceros, mas
não gostava que fossem confundidos com qualquer espécie de populismo – como se
de um lado estivesse o povo “puro” e do outro a elite “impura”, condenados a um
conflito destrutivo. Quem acredita nisso é marxista. Os que defendem, como eu,
a existência de um elevador social justo e eficaz, têm de acreditar também num
lugar para onde as pessoas se elevem. Esse lugar chama-se “elite”, e idealmente
deveria acolher aqueles que, pela força do trabalho e do seu mérito, conseguem
ascender até ela. Não pretendo que as elites sejam abolidas – pelo contrário,
desejo que sejam transformadas, para que um dia possam estar à altura do seu
nome, e comecem a fabricar os seus Churchill.
O grande problema
das elites nacionais é não produzirem esse modelo de gente, ou não o produzirem
em suficiente número, ou produzirem-no apenas para exportação, desde logo
porque nada têm a ver com o ideal aristocrático que Andrew Roberts descreve no
seu livro. É uma elite de privilégios que não se traduz em deveres para com a
sociedade, e que procura barricar-se dentro do pequeno círculo familiar e das
amizades íntimas, de forma despudoradamente endogâmica e através de uma cultura
de compadrio. É, digamos assim, uma elite de vistas curtíssimas, que produz uma
sociedade civil fraca, pouco dinâmica, cheia de dependências e altamente
resistente ao mérito alheio – já que ele é visto como uma ameaça ao statu quo,
em vez de um criador de capital social capaz de resgatar o país ao seu
recorrente ciclo de falência e pobreza. Tudo isto já foi dito e redito mil
vezes. Ainda assim, vale sempre a pena repeti-lo, na esperança de que um dia a
mudança aconteça.


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