Oil Dorado: o retrato de um Alentejo desfigurado pelas
monoculturas intensivas
Ao longo de quatro anos, num Alentejo descaracterizado
pelas monoculturas intensivas e superintensivas de olival e amendoal, o
geógrafo e fotógrafo André Paxiuta desenvolveu o projecto Oil Dorado.
"Hoje, a homogeneidade de culturas domina numa região que está, em mais de
70%, na mão de grupos estrangeiros. Sem respeito pela paisagem ou tradição dos
locais, os custos para a região são imensos.”
Ana Marques Maia
24 de Novembro de 2021, 8:45
©ANDRÉ PAXIUTA
“Qualquer pessoa
que conheça minimamente o território alentejano percebe que, de há vários anos
a esta parte, a paisagem se alterou de forma abismal.” Hoje, refere o fotógrafo
e geógrafo André Paxiuta em entrevista ao P3, as culturas intensivas e
superintensivas de olival e amendoal imperam sobre todas as outras. “Antes
existia grande variedade de culturas de sequeiro e de prados. Hoje, a
homogeneidade de culturas domina numa região que está, em mais de 70%, na mão
de grupos estrangeiros. Sem respeito pela paisagem ou tradição dos locais, os
custos para a região são imensos.” E é sobre esses custos que versa o projecto
Oil Dorado, com enfoque no olival, que procura financiamento para a sua
materialização em formato de fotolivro na plataforma de crowdfunding IndieGogo.
O projecto de Paxiuta descreve "a mutação silenciosa" do
"território prometido do Alqueva". "Regado a partir do maior
lago artificial da Europa, onde crescem oliveiras aos milhares, azeitonas aos
milhões, enriquecem-se pioneiros e abrilhanta-se o orgulho da nação", pode
ler-se na introdução do livro. "Na sombra desta corrida, encontrei a morte
anunciada da paisagem alentejana que um dia conheci."
Num ano
excepcional para a produção de azeite – a maior produção da história do país
devido à rentabilidade dos olivais superintensivos plantados a sul do Tejo, que
são geridos, em 65%, por seis grupos financeiros estrangeiros ou
luso-estrangeiros – “faz sentido olhar atentamente para o que está a
acontecer”. “Visto de longe, um olival acabado de plantar parece um cemitério
americano”, observa Paxiuta. “Ele domina o manto de verde em quilómetros e
quilómetros até perder de vista. Esta é a nova realidade no Alentejo, sobretudo
em Beja, Serpa, Moura, Ferreira do Alentejo.”
De forma sucinta,
quais as implicações deste tipo de culturas para a região? São inúmeras e tocam
as vertentes ambientais, económicas e demográficas. Paxiuta começa por referir
a transformação dos terrenos em olival, que “implica a remoção de tudo o que
pudesse lá estar anteriormente” e a “reformulação tendo em vista o
favorecimento da plantação, do funcionamento das máquinas e da apanha”. As
culturas anteriores são substituídas por monocultura, eliminando a
biodiversidade, alterando o habitat de inúmeras espécies animais. “Vegetação e
comunidades de aves vêem os seus habitats destruídos.”
A proximidade
dessas culturas de núcleos habitacionais, de aldeias e conjuntos de casas,
obriga as populações ao convívio regular com fitofármacos e química correctora
desses olivais, que contaminam as águas. “Há famílias que abandonam as suas
casas quando sabem que vão existir pulverizações, não querem estar presentes.”
As implicações para a saúde, as consequências directas do convívio com estes
agentes químicos, ainda carecem de avaliação. Porém, Paxiuta afirma que “a
qualidade de vida das populações é afectada”. Não apenas pela proximidade das
culturas per se, mas também pela proximidade de unidades fabris de
transformação do excedente da azeitona – cascas de resíduos da polpa e
fragmentos do caroço da azeitona – em óleo de bagaço de azeitona e biomassa.
“No processo de transformação, estas unidades utilizam o próprio bagaço seco
como combustível, emitindo das suas chaminés gases particulosos gordurentos,
altamente poluentes, com cheiro muito intenso, nauseabundo”, pode ler-se no
interior do livro Oil Dorado.
Em Fortes, no
concelho de Ferreira do Alentejo, os 100 habitantes, maioritariamente idosos,
vivem a cerca de 300 metros da fábrica de queima de bagaço de azeitona Azpo,
que pertence ao grupo espanhol Migaza. A fábrica trabalha ininterruptamente, 24
sobre 24 horas, sete dias por semana. “Isto significa que os habitantes da
aldeia e redondezas sofrem com o cheiro e fumo poluente desde a sua abertura,
em 2009”, lê-se no livro. “Certas condições atmosféricas trazem o fumo (…) que
irrita os olhos e a garganta, provoca tosse, lacrimejar e falta de ar.” Rosa
Dimas, habitante da aldeia de Fortes, disse a Paxiuta que a chegada dessa
indústria destruiu o seu modo de vida. “Fui obrigada a desistir de semear as
minhas culturas, de onde obtinha a minha factura para o ano inteiro de feijão,
batata, nabiças, couves, melancia. Tudo se acabou.”
A monocultura de
olival no baixo Alentejo, alavancada pela construção da barragem do Alqueva e
pelos inúmeros fundos europeus destinados a este tipo de negócio, produziu
mudanças também ao nível demográfico. Mas não da forma que seria desejável. “Os
censos de 2020 foram claros”, refere o geógrafo. “O desenvolvimento do Alentejo
que se seguiu à construção da Barragem do Alqueva não contribuiu para a fixação
da população na região.” Contribuiu, sim, para a importação de mão-de-obra. “O
interior de Portugal está desprovido de população activa para trabalhar no
campo”, argumenta o fotógrafo lisboeta. “Os portugueses não querem realizar
esses trabalhos porque os salários são muito baixos, as jornadas de trabalho
são muito longas e duras e não querem submeter-se a estas novas formas de
escravatura.”
Há, no entanto,
quem não tenha outra opção. “O conceito de importação de mão-de-obra que já
existia em Espanha foi adaptado à realidade portuguesa – através das empresas
espanholas sediadas em Portugal – e trabalhadores da Europa de Leste,
inicialmente, e mais tarde da Índia, do Paquistão, do Bangladesh, do Nepal,
começaram a realizar estes trabalhos. “Alguns trabalham com todas as condições,
têm bons empregadores.” Ao longo de quatro anos de desenvolvimento do projecto,
André Paxiuta viu um pouco de tudo. “Há uma fatia que se queixa de excesso de
carga horária, de más condições de trabalho, documentos sequestrados, ameaças
de denúncias junto do SEF, de contratos anulados. Uma das queixas mais
recorrentes está relacionada com a habitação.” O fotógrafo faz referência à
existência de casas sobrelotadas e armazéns agrícolas sem condições de
habitabilidade onde 40 a 50 trabalhadores imigrantes dormem em colchões no
chão. Os seus testemunhos estão incluídos nas páginas do livro, que aguarda
impressão.
Qual a factura a
pagar, no futuro, pela “revolução” em curso no Alentejo? “Estamos a falar de
culturas intensivas que dependem grandemente do consumo de água”, realça o
fotógrafo. “Existe um ponto de interrogação sobre a sua escassez no futuro, o
que poderá colocar em causa a sua sustentabilidade.” Paxiuta acredita que a
presente corrida ao “oil dorado” deixará marcas permanentes na região. “Poderá
levar ao esvaziamento da riqueza ambiental e cultural do território (...) e ao
colapso dos sistemas que o suportam.”
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