segunda-feira, 3 de maio de 2021

SEF tem 32 inquéritos no Alentejo por tráfico de pessoas e auxílio à imigração ilegal

 


ALENTEJO

SEF tem 32 inquéritos no Alentejo por tráfico de pessoas e auxílio à imigração ilegal

 

Desde 2018 que no Alentejo foram detidos 11 suspeitos e constituídas arguidas 37 pessoas, 14 empresas e foram sinalizadas 134 vítimas de tráfico de pessoas para exploração laboral. Tráfico de seres humanos “tem sido particularmente visível” no recrutamento de trabalhadores estrangeiros agrícolas.

 

Joana Gorjão Henriques

3 de Maio de 2021, 19:42

https://www.publico.pt/2021/05/03/sociedade/noticia/sef-32-inqueritos-alentejo-trafico-pessoas-auxilio-imigracao-ilegal-1961035

 

O Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) tem 32 inquéritos-crime a decorrer em várias comarcas do Alentejo pelos crimes de tráfico de pessoas, auxílio à imigração ilegal e angariação de mão-de-obra ilegal.

 

Só em Março o SEF instaurou 15 inquéritos — seis em Odemira — contra 17 entidades patronais pela prática de indícios dos crimes de auxilio à imigração ilegal e falsificação de documentos, factos relacionados “com relações laborais fraudulentas que visam a regularização documental”, afirma o gabinete de imprensa do SEF ao PÚBLICO.

 

Segundo o SEF, desde 2018 que no Alentejo foram detidos 11 suspeitos e constituídas arguidas 37 pessoas, 14 empresas e foram sinalizadas 134 vítimas de tráfico de pessoas para exploração laboral.

 

O SEF afirma que o fenómeno do tráfico de seres humanos tem sido particularmente visível no recrutamento de trabalhadores estrangeiros para prestação de trabalho em campanhas agrícolas sazonais, como sejam a colheita da azeitona, tomate, fruta ou produtos hortícolas. Descreve que recrutam trabalhadores de países do Leste Europeu ou asiáticos através de empresas de trabalho temporário e a troco de trabalho prometem alojamento, alimentação, transporte e salário. Emitem contratos com referências a subsídios de alimentação, a folgas, férias e a horários de trabalho.

 

“Os trabalhadores recrutados são levados, na sua maioria, para casas arrendadas pelos empregadores, nas proximidades ou nas próprias explorações agrícolas e ficam na total dependência dos angariadores”, até em relação à alimentação. “São-lhes exigidos avultadas quantias, a troco de documentação diversa, nomeadamente contratos de trabalho e obtenção de número de contribuinte e de utente da Segurança Social, bem como para custos de acomodação, alimentação e transporte, por descontos abusivos nos vencimentos.”

 

Não é apenas o SEF que está a investigar crimes de tráfico de seres humanos na zona de Odemira. Como o PÚBLICO avançou no domingo, a Polícia Judiciária está a investigar vários casos de alegados crimes ligados ao auxílio à imigração ilegal, tráfico de pessoas e escravatura na zona de Odemira.

 

Há várias queixas feitas à PJ e esta polícia está na fase de recolha de provas no âmbito das investigações em curso. Esta é uma situação que a PJ está a monitorizar com preocupação, apurou o PÚBLICO, e tudo aponta para que se trate de casos avulsos e de pequenas redes: “aparentemente” não são grandes redes, adiantou a mesma fonte, ressalvando que “qualquer investigação é dinâmica”.

 

Também no domingo o presidente da Câmara de Odemira, José Alberto Guerreiro, afirmou à SIC ter feito queixa de várias situações há cerca de dois anos à PJ e que ele próprio já foi ouvido, diz a Lusa.

 

Descreveu que existem lojas em Odemira que “têm um conjunto de empregados que não é justificado pelo espaço”, nomeadamente “supermercados com 200 metros quadrados” de área e que “têm 30 ou 40 trabalhadores”. “Há espaços de venda ao público de bebidas que têm dez vezes mais empregados do que é normal”, mas também existem “outras questões muito estranhas”, em que “muitos dos negócios são em dinheiro”, disse.

 

José Alberto Guerreiro frisou que as empresas de trabalho temporário “são legais, têm alvará, têm condições de verificação da saúde dos seus trabalhadores e têm planos covid”, sublinhando que a sua actividade tem de ser valorizada. “Já não posso dizer o mesmo das chamadas ‘empresas de prestação de serviços’ que nascem e morrem todos os dias”, vincou, adiantando que situações identificadas pela Autoridade para as Condições do Trabalho (ACT) já “foram descritas a grupos parlamentares”. “Fogem ao IVA [imposto sobre o valor acrescentado] e não pagam milhões de IVA, porque as pessoas depois desaparecem e ninguém é responsável”, acusou.

 

CGTP fala em denúncia antiga

Entretanto, também a CGTP emitiu um comunicado a afirmar que já tinha denunciado por diversas vezes, incluindo junto da Organização Internacional do Trabalho, “a exploração de trabalhadores estrangeiros, sobretudo no sector da agricultura intensiva, em situações muito próximas de trabalho forçado”.

 

“Estes trabalhadores são aliciados para o nosso país por angariadores sem escrúpulos, frequentemente ligados a redes de tráfico humano, que actuam sob o disfarce de agências de trabalho temporário, sendo depois abusivamente constrangidos a viver e a trabalhar em condições infra-humanas, com poucos ou nenhuns direitos sociais e laborais, recebendo salários muito abaixo do que lhes foi prometido e do que lhes seria legalmente devido”, escrevem.

 

Referem ainda que se trata de casos com a “cumplicidade dos empregadores”, e lembram que em 2016 foi aprovada na Assembleia da República uma alteração legislativa para combater o trabalho forçado e outras formas de exploração laboral que prevê a responsabilização contra-ordenacional e a penalização de toda a cadeia de contratação e subcontratação.

 

“Aquilo que actualmente se está a passar no concelho de Odemira, nomeadamente as indignas condições de habitação potenciadoras da propagação do vírus, não devia espantar ninguém”, afirmam.

 

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