segunda-feira, 3 de maio de 2021

PJ investiga várias queixas de tráfico de pessoas e escravatura em Odemira

 



ODEMIRA

PJ investiga várias queixas de tráfico de pessoas e escravatura em Odemira

 

PÚBLICO apurou que há várias queixas feitas à PJ e que esta polícia está na fase de recolha de provas no âmbito de investigações de vários crimes que envolvem trabalhadores imigrantes explorados ou enganados.

 

Joana Gorjão Henriques

2 de Maio de 2021, 18:05

https://www.publico.pt/2021/05/02/sociedade/noticia/pj-investiga-varias-queixas-trafico-pessoas-escravatura-odemira-1960886

 

A Polícia Judiciária está a investigar vários casos de alegados crimes ligados ao auxílio à imigração ilegal, tráfico de pessoas e escravatura na zona de Odemira.

 

O PÚBLICO apurou que há várias queixas feitas à PJ e que esta polícia está na fase de recolha de provas no âmbito das investigações em curso. Esta é uma situação que a PJ está a monitorizar com preocupação. Tudo aponta para que se trate de casos avulso e de pequenas redes: “aparentemente” não são grandes redes, adiantou a mesma fonte, ressalvando que “qualquer investigação é dinâmica”.

 

Estes casos não têm apenas a ver com o denunciado pelo presidente da Câmara Municipal de Odemira, José Alberto Guerreiro, que afirmou à SIC ter feito queixa de várias situações. Este domingo, no final de uma reunião da task force do concelho para a situação sanitária que ali se vive, o autarca esclareceu aos jornalistas que denunciou suspeitas “há cerca de dois anos” à PJ e que ele próprio já foi ouvido, diz a Lusa.

 

De resto, este tipo de investigações não é inédito. Algumas operações do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) identificaram vítimas de tráfico de seres humanos de origem estrangeira, em várias regiões, na agricultura. Em 2019 a maioria das vítimas de tráfico de seres humanos identificadas foi para exploração na agricultura, em Beja — foram 44 ao todo, revelou o Relatório Anual de Segurança Interna (RASI). Há anos que existem referências nos relatórios do Observatório de Tráfico de Seres Humanos de exploração laboral de imigrantes.

 

Também há vários anos que a delegação de Beja da associação Solidariedade Imigrante (Solim) faz queixas sobre abusos em relação a trabalhadores no concelho, refere ao PÚBLICO Alberto Matos. Este dirigente da Solim diz que já fizeram participação de situações análogas a tráfico de seres humanos por causa de trabalhadores que os contactam queixando-se de patrões que retêm os seus documentos ou que ficam com as passwords do sistema de acesso ao Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF), onde fazem o pedido de autorização de residência, impedindo-os de entrar no mesmo. “Tivemos essas situações em Odemira e noutros sítios”, afirmou.

 

Só em 2020, diz, denunciaram pelo menos cinco situações de pessoas na agricultura que se foram queixar à Solim, mas são casos sobre os quais não obteve mais informação por o SEF estar a investigar. As situações não são necessariamente todas de Odemira, sublinha, porque “muitas vezes as pessoas estão em trânsito”. Os trabalhadores estrangeiros “recusam-se a falar a não ser ao SEF”, refere, quando o PÚBLICO pede para ouvir os seus testemunhos. O PÚBLICO aguarda informação do SEF sobre as investigações em curso.

 

O PÚBLICO tem também noticiado abusos nesta região ao longo de anos, mas esta semana a situação tornou-se dominante na agenda por causa da situação pandémica na região. Odemira foi um dos concelhos onde o desconfinamento não chegou e para duas freguesias onde se regista uma maior concentração de trabalhadores migrantes por causa da agricultura, São Teotónio e Almograve, foi decretada cerca sanitária.

 

O próprio primeiro-ministro António Costa disse recentemente sobre os imigrantes em Odemira que “alguma população vive em situações de insalubridade habitacional inadmissível, com hipersobrelotação das habitações”, relatando situações de “risco enorme para a saúde pública, para além de uma violação gritante dos direitos humanos”.

 

Este domingo o Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa afirmou que espera que seja possível apurar se os direitos dos trabalhadores rurais em Odemira são respeitados e agir se necessário, até para que seja quebrada a cadeia de transmissão do vírus.

 

Entretanto, o Governo afirmou que embora desconheça as necessidades de habitação no concelho de Odemira, inclusive dos trabalhadores das explorações agrícolas, existem 299 contentores de alojamento e “todos cumprem com as condições de higiene e saúde obrigatórias”.

 

Autarca descreve lojas com trabalhadores fantasma

Em Beja, segundo a Lusa, o autarca de Odemira referiu aos jornalistas que quando fez a denúncia descreveu tudo o que sabia: “As entidades públicas terão que avaliar” as situações denunciadas, acrescentou.

 

Descreveu que existem lojas em Odemira que “têm um conjunto de empregados que não é justificado pelo espaço”, nomeadamente “supermercados com 200 metros quadrados” de área e que “têm 30 ou 40 trabalhadores”. “Há espaços de venda ao público de bebidas que têm dez vezes mais empregados do que é normal”, mas também existem “outras questões muito estranhas”, em que “muitos dos negócios são em dinheiro”, disse.

 

José Alberto Guerreiro frisou que as empresas de trabalho temporário “são legais, têm alvará, têm condições de verificação da saúde dos seus trabalhadores e têm planos covid”, sublinhando que a sua actividade tem de ser valorizada. “Já não posso dizer o mesmo das chamadas empresas de prestação de serviços que nascem e morrem todos os dias”, vincou, adiantando que situações identificadas pela Autoridade para as Condições do Trabalho (ACT) já “foram descritas a grupos parlamentares”. “Fogem ao IVA [imposto sobre o valor acrescentado] e não pagam milhões de IVA, porque as pessoas depois desaparecem e ninguém é responsável”, acusou.

 

Para José Alberto Guerreiro o país necessita de “uma regulamentação clara, objectiva e actualizada sobre a permanência de trabalhadores agrícolas numa habitação”, uma vez que “não faz muito sentido” ser a delegada de saúde a determinar se “uma habitação é salobra ou não”. A ACT “queixa-se de não ter capacidade de intervenção em matéria de regulamentação para a habitação colectiva de trabalhadores”, referiu, considerando que têm de existir “regras claras e tem que ser definido quem é que pode intervir”.

 

Questionado pela Lusa sobre a Estratégia Local de Habitação (ELH) de Odemira, o autarca indicou que “uma das grandes dificuldades” deste trabalho, que está em curso, “foi em perceber qual é a dimensão deste problema” no concelho. “A agricultura e ministérios vários nunca foram capazes de dizer que a dimensão do trabalho que se perspectiva aqui é X, nem ao menos um valor que fosse aproximado”, adiantou.

 

De acordo com o autarca, “não há entendimento possível”, uma vez que a câmara pretende que os trabalhadores permanentes vivam “dentro dos aglomerados” e os de mão-de-obra temporária vivam nas quintas, enquanto os agricultores têm pretensão contrária.

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