OPINIÃO
O insolúvel problema dos aventais
Todos os políticos que fazem parte da Maçonaria deviam
declarar de livre vontade que o avental faz parte da sua indumentária. Mais do
que responsável, seria uma atitude decente. Mas, com excepção de um ou outro
político, ninguém irá por aí. Os amigos secretos são menos dados a
inconveniências.
Manuel Carvalho
19 de Março de
2021, 21:09
https://www.publico.pt/2021/03/19/politica/opiniao/insoluvel-problema-aventais-1955227
As suspeitas e as
insinuações existem há anos e nos últimos dias deixaram de ser um ruído de
fundo para criarem um problema que intoxica o debate público. As irmandades
fundadas em princípios de fé ou em credos de natureza filosófica e política,
como o Opus Dei ou a Maçonaria são apenas espaços de partilha e de comunhão de
ideias, valores e experiências de vida? Ou sob esse pano de fundo construíram
uma rede de cumplicidades e de influências que promove o nepotismo e corrói a
democracia? Os seus membros jamais se cansarão de apregoar que nada de daninho
existe nas suas organizações. Mas, mesmo que esta seja a mais pura das
verdades, é indiscutível que uma parte dos cidadãos as olha como templos onde
compadres se reúnem para, sob a égide de bons princípios, da discrição ou do
secretismo se protegerem e favorecerem mutuamente.
Chegámos por isso
a um momento perigoso. E ainda mais perigoso porque não se vislumbram receitas
capazes de o superar. Pedir publicidade ao rito secreto é como jogar à cabra-cega
sem uma venda nos olhos – não tem graça. Acreditar que, como propõe o PAN, o
problema se resolveria com o incentivo a uma declaração voluntária de pertença
à Maçonaria é pura inocência. Pensar, como reclama o PSD, que se pode forçar um
deputado ou um ministro a declarar contra a sua vontade a que organização
pertence é ainda pior. Numa democracia, as ameaças às liberdades individuais
são inaceitáveis, mesmo quando feitas em nome de interesses tidos como
superiores. A perseguição aos maçons é uma prática das ditaduras.
A iniciativa do
PSD podia ainda assim ter o mérito de abrir a discussão, mas acaba por ter o
demérito de não a fechar. Com um chumbo garantido na Assembleia da República,
seguiu-se de imediato a acusação de que quem recusa a declaração obrigatória de
pertença a associações faz o jogo da Maçonaria. A suspeita, larvar e genérica
até agora, aterrou na Assembleia da República.
Com a
perturbadora suspeita de que a vida política está amarrada a teias de
fidelidades cúmplices que fomentam o nepotismo e a desigualdade de
oportunidades, só haveria uma solução: todos os políticos que fazem parte da
Maçonaria declararem de livre vontade que o avental faz parte da sua
indumentária, como propõe o PAN e o líder do Grande Oriente Lusitano. Mais do
que responsável, seria uma atitude decente – a democracia que garante a
liberdade dispensa o secretismo e as fraternidades sombrias. Mas, com excepção
de um ou outro político, ninguém irá por aí. Os amigos secretos são menos dados
a inconveniências. É isso que irrita Rui Rio e, de alguma forma, boa parte dos
portugueses.
tp.ocilbup@ohlavrac.leunam


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