terça-feira, 2 de março de 2021

Autarquias tentam novas soluções para estimular mercado de rendas acessíveis // Portugueses superam estrangeiros em dormidas pela primeira vez desde 1978

 



Autarquias tentam novas soluções para estimular mercado de rendas acessíveis

 

Estratégia do Governo e municípios de reconverter alojamento local em arrendamento acessível está a falhar. Câmaras admitem apoiar construção nova para entrar neste segmento.

 

Luísa Pinto

2 de Março de 2021, 6:30

https://www.publico.pt/2021/03/02/economia/noticia/autarquias-querem-dinheiro-alojamento-local-estimular-rendas-acessiveis-1951562

 

A fraca adesão dos proprietários de alojamento local (AL) aos programas municipais lançados para aumentar a oferta de habitação através de arrendamento a preço acessível levou a Câmara do Porto a indagar sobre a possibilidade de a comparticipação de 50% prevista pelo Governo neste programa poder estender-se a outros contratos de arrendamento, e não apenas àqueles que resultaram da reconversão do alojamento local. Trata-se de um sinal do fracasso desta estratégia do Governo, mas também uma pista para perceber como poderá vir a evoluir este programa.

 

A portaria que definiu a atribuição destes apoios, e que comporta também uma autorização de despesa dada ao Instituto de Habitação e de Reabilitação Urbana de nove milhões de euros para executar até 2022, entrou em vigor no dia 29 de Dezembro. As câmaras podem candidatar-se a uma comparticipação de metade da diferença entre o valor da renda mensal paga pelo município e o valor da renda mensal devida pelo subarrendatário no primeiro ano de contrato. Mas, “até à data”, conforme esclareceu fonte do Ministério da Habitação, “ainda não foi entregue nenhuma candidatura”. Mas, acrescenta, “já foi feito um pedido de esclarecimento por parte de um município ao IHRU”.

 

Trata-se do pedido de esclarecimento endereçado pelo município do Porto, através da sociedade Porto Vivo, como confirmou o PÚBLICO junto de fonte da autarquia. “É do nosso interesse que esta comparticipação sob a forma de apoio à renda seja atribuída relativamente a todos os imóveis abrangidos pelo programa Porto com Sentido, que não se direcciona apenas a imóveis afectos à exploração de alojamento local”, explicou a mesma fonte, acrescentando que durante o ano de 2020, e apesar das vantagens concedidas, apenas 20% dos imóveis afectos ao Programa Porto com Sentido são provenientes da actividade de alojamento local.

 

O programa de apoio a reconversão do alojamento local em arrendamento acessível é complementar aos apoios que os municípios podem obter através do 1.º Direito. Este programa destina-se aos municípios com programas específicos de conversão de arrendamento para subarrendamento a custos acessíveis, desde que os pedidos sejam apresentados até final deste ano.

 

Para além da Câmara do Porto, com o programa Porto com Sentido, também a Câmara de Lisboa tem o programa Renda Segura e a Câmara de Matosinhos tem o Matosinhos: Casa Acessível. Mas mesmo com a pandemia de covid-19 e a ausência de turismo a limitar o alojamento local, a verdade é que não houve muitos proprietários a fazerem a reconversão das suas unidades para o arrendamento dito tradicional, muito menos para arrendamento acessível.

 

Matosinhos, que lançou o seu programa apenas no final de 2020, teve o concurso aberto até 29 de Janeiro. Mas teve apenas dez contactos de eventuais interessados: oito proprietários de imóveis, dois de alojamento local e dois de mediadores imobiliários. Só dois proprietários avançaram com a candidatura, mas um deles desistiu a meio. A autarquia liderada por Luísa Salgueiro diz que, por enquanto, não vai solicitar apoios à reconversão do alojamento local, porque não tem nenhuma candidatura em curso. “Porventura os proprietários de AL estão esperançados numa retoma breve do sector, logo que a crise pandémica passe”, afirma fonte do município, que assegura que a autarquia contactou todos os proprietários de AL registados em Matosinhos.

 

Recorde-se que, de acordo com a lei, o arrendamento acessível deve ser feito por um prazo mínimo de cinco anos e assentar numa renda que fique 20% abaixo da mediana apurada pelo INE nas rendas de mercado. As contrapartidas dadas aos proprietários são várias: a isenção de tributação dos rendimentos prediais; a suspensão da tributação de mais -valias sobre os imóveis que se reconvertam de alojamento local para arrendamento habitacional e a sua isenção quando tal ocorra por um período mínimo de cinco anos consecutivos; a aplicação da taxa reduzida de IVA de 6% aos investimentos de construção ou reabilitação para habitação a custos acessíveis, ao abrigo do regime de habitação a custos controlados.

 

Municípios tentam outras medidas

Uma vez que a reconversão dos imóveis em AL está num compasso de espera, tanto Governo como municípios encetaram antes outra “corrida” com o objectivo de aumentar o parque habitacional a custos acessíveis. E neste aspecto tanto pode entrar a reabilitação e readaptação de imóveis já existentes, como é o caso da anunciada Bolsa Pública de Imóveis, anunciada pelo Governo, como já se assume, por parte dos municípios, a possibilidade de arrendar casas para subarrendar em empreendimentos construídos de raiz para esse fim.

 

Nos últimos dias de Dezembro, o executivo de Matosinhos aprovou uma alteração ao regulamento do seu programa de forma a acrescentar às habitações já existentes (como as casas devolutas ou as que estavam em AL) também as “habitações a edificar para os fins previstos no regulamento”. A autarquia liderada por Luísa Salgueiro justifica a alteração do regulamento “com o interesse manifestado por alguns promotores imobiliários, nomeadamente através de construção de novos fogos, com o intuito de afectação a este fim”.

 

De acordo com as informações avançadas ao PÚBLICO pelo município, foram quatro os promotores imobiliários que contactaram a Câmara de Matosinhos a manifestarem a intenção de construir imóveis para os colocar neste programa. Nesta fase, há já dois promotores imobiliários com intenções concretas de construção até 2023 de mais de 150 habitações e em breve vão ser assinados os contratos-promessa com o município.

 

Um dos promotores interessados, apurou o PÚBLICO, é a Nexity, que tem um projecto para o loteamento dos terrenos da antiga Facar, em Leça da Palmeira. A Câmara de Matosinhos prepara-se para viabilizar a construção de 100 habitações. De acordo com o regulamento, o contrato terá um prazo de arrendamento superior aos cinco anos definidos na lei, e necessariamente inferior a 30 anos, para cumprir o articulado do Código Civil. E no contrato-promessa deverá constar que as rendas que se aplicam na data da assinatura, correspondente à localização e às tipologias, podem sofrer alterações por aplicação do coeficiente de actualização de rendas publicado anualmente para o efeito. Assim, no momento da contratualização dos contratos de arrendamento poderão ser diferentes os valores da renda, assume fonte da autarquia.

 

No caso da Câmara do Porto, o executivo liderado por Rui Moreira pretende arrendar até 500 imóveis ao abrigo do programa Porto com Sentido e está para isso a preparar um novo concurso, que terá como novidade, disse ao PÚBLICO fonte do município, “a possibilidade de proceder a um adiantamento de rendas”, para permitir ao proprietário a realização de pequenas intervenções de renovação e beneficiação dos imóveis. Uma tentativa que também já foi feita por Fernando Medina, na Câmara de Lisboa, prevendo a possibilidade de pagar até três anos de renda adiantada.

 

Rui Moreira está também a preparar outro concurso para celebração de contratos-promessa de arrendamento habitacional, de imóveis localizados em áreas de reabilitação urbana, os quais serão, após a conclusão das respectivas obras de reabilitação ou edificação, convertidos em contratos de arrendamento definitivos.

 

A Câmara do Porto está disposta a realizar até 200 contratos-promessa, desde que seja apresentado, no mínimo, como comprovativo, um projecto de arquitectura aprovado. “Esta modalidade é um incentivo para os investidores e promotores potenciarem a oferta de arrendamento acessível na cidade. A par deste impulso, está a ser estudado um regime de redução de taxas urbanísticas e de licenciamento”, explica fonte do executivo. No caso dos contratos-promessa de arrendamento, permite-se a celebração, findas as obras de edificação ou reabilitação, de contratos de arrendamento até um período de dez anos, o que “conferirá estabilidade à rentabilidade futura dos imóveis”.


TURISMO

Portugueses superam estrangeiros em dormidas pela primeira vez desde 1978

 

No ano passado houve uma queda superior a 60% em hóspedes e dormidas, tendo este último indicador regressado a valores que não eram vistos desde 1993. Turistas nacionais foram responsáveis pela maioria das dormidas, algo que não se verificava desde o final dos anos 70.

 

Luís Villalobos

1 de Fevereiro de 2021, 22:30

https://www.publico.pt/2021/02/01/economia/noticia/portugueses-superam-estrangeiros-dormidas-primeira-desde-1978-1948834

 

Os alojamentos turísticos registaram 10,5 milhões de hóspedes e 26 milhões de dormidas no ano passado, o que representa quedas de 61,2% e de 63% face a 2019, respectivamente, causadas pelo efeito da pandemia de covid-19.

 

De acordo com a estimativa rápida publicada esta segunda-feira pelo INE, é preciso recuar a 1993 para se encontrar um número de dormidas mais reduzido (23,6 milhões). Olhando para o número de hóspedes, o recuo é até 2003, com 10,4 milhões, de acordo com a série histórica do INE.

 

Os números do ano passado, que começaram a cair em Março (depois de um ciclo de vários anos de crescimento), só não foram piores porque o mercado interno não caiu tanto como o mercado externo. De acordo com os dados do INE, os portugueses foram responsáveis por 13,6 milhões de dormidas (-35,3%) e os mercados externos por 12,3 milhões de dormidas (-74,9%). É primeira vez, desde 1978, que os portugueses superam os estrangeiros neste indicador.

 

Nesse ano, segundo o INE, os estrangeiros representaram 48% do total de dormidas. Desde então, passaram a ser maioritários, com um peso da ordem dos 70% nos últimos anos, período em que o sector foi batendo novos recordes. Já em 2020, este indicador voltou a cair, com os não residentes a pesarem 47% no número global de dormidas.

 

Alentejo resiste melhor

No caso dos principais mercados externos, o Reino Unido foi o que teve a pior performance, com menos 78,5% dormidas face a 2019, cabendo a Espanha a evolução menos negativa, mas que ainda assim foi de -65,9%. Outros mercados com grande expressão, a França e a Alemanha, caíram 70,6% e 69,5%, respectivamente. Já o Brasil e os EUA, que vinham a ganhar peso, tiveram uma queda de 76% e de 87,7%.

 

O Alentejo foi a região que melhor resistiu ao choque, com menos 37,3% de dormidas (para 1,84 milhões), cabendo as maiores quedas à Área Metropolitana de Lisboa, com -71,5% (para 5,3 milhões), e aos Açores, com -71,1% (para 659 mil). A Madeira teve uma descida de 67,2% (para 2,4 milhões), seguindo-se o Algarve com -62,1% (7,9 milhões), o Norte com -59,1% (para 4,4 milhões) e o Centro com -52,6% (para 3,4 milhões).

 

Desde que estes dados são contabilizados pelo INE houve duas quebras de série, com alterações no universo analisado. A última foi em 2013, quando se incluíram as unidades de alojamento local (AL) com dez ou mais camas (os outros AL ainda estão fora da análise) e de turismo rural.

 

Os números relativos a Dezembro do ano passado mostram, no entanto, uma ligeira melhoria face a Novembro, com 462,5 mil hóspedes e 972,7 mil dormidas, o que, nota o INE, corresponde a variações de -70,7% e -72,3%, respectivamente (-76,8% e -76,9% em Novembro, pela mesma ordem).

 

Nesse mês, 50% dos estabelecimentos de alojamento turístico encerraram ou não tiveram hóspedes. Aliado a medidas do Governo como o layoff simplificado, esta tem sido uma das formas de as empresas reagiram à queda da procura. Em 2019, e perante um sector em crescimento, estavam contabilizados 6833 estabelecimentos turísticos, mais 20% do que no ano anterior e o dobro do que se verificava em 2013.

 

Novos receios

Questionada sobre o recente anúncio de novas restrições, e a perspectiva de que o novo confinamento possa ser mais longo do que inicialmente estimado, Cristina Siza Vieira, vice-presidente executiva da Associação de Hotéis de Portugal (AHP), fala de uma “preocupação crescente”.

 

Para já, diz, “estas novas restrições impactam pouco, até porque mais de 80% dos hotéis estão encerrados” mas, e depois de perder o fim-de-semana de Carnaval e o Dia dos Namorados, “com a situação descontrolada da pandemia, o encerramento das fronteiras e as férias escolares mais reduzidas”, o sector também já deixou de contar com a Páscoa.

 

Assim, afirma esta responsável, “os dois habituais ‘balões de oxigénio’ da hotelaria do primeiro quadrimestre estão perdidos”. “Nestas circunstâncias”, refere Cristina Siza Vieira, “com a hotelaria encerrada e a pouca que está aberta na prática a desempenhar um verdadeiro serviço público”, estas empresas “devem ter acesso ao layoff simplificado e à isenção do pagamento da taxa social única e de encargos fixos com os estabelecimentos”. “É fundamental reduzir os custos das empresas e manter os postos de trabalho”, sublinha.

 

Eduardo Miranda, presidente da Associação do Alojamento Local em Portugal (ALEP), refere que a evolução da pandemia “está a ir ao encontro dos piores cenários que tinham sido imaginados no ano passado”.

 

Este domingo, a TAP anunciou que, devido às novas restrições, a redução da oferta em Fevereiro vai ser da ordem dos 93% face a idêntico período de 2020, acima dos 73% que se previa até agora.

 

“A prioridade é, sem dúvida, resolver o problema de saúde, mas não há dúvida que vai levar a economia, em especial o turismo, a uma crise sem precedentes que deve ser acompanhada de um reforço das medidas de apoio”, diz o dirigente da ALEP.

 

Apesar de considerar que as novas linhas de apoio trazem “um alívio importante”, realça que “há muitos segmentos fragilizados que ficam de fora ou a resposta é muito limitada”, como os empresários em nome individual e alguns grupos de micro e pequenas empresas. Isso é algo, diz, que é preciso ser corrigido “com urgência”.

 

Este ano pode ser “tão difícil como foi 2020”

“No final do ano passado estimávamos que a operação da hotelaria poderia iniciar-se no final do primeiro trimestre e neste momento sabemos que isso não irá acontecer. Agora estamos a navegar à vista”, adianta Cristina Siza Vieira. E se o primeiro semestre vai ser diferente do esperado pela AHP, “ainda é cedo para perspectivar o que irá acontecer” na segunda metade do ano, apesar de as pessoas “terem muita vontade de voltar a viajar”.

 

“Sabemos que essa decisão está dependente da aceleração do processo de vacinação, quer nacional quer internacional”, destaca, considerando que este ano “as viagens serão sobretudo locais e regionais, pelo que estamos muito longe de poder falar na recuperação do turismo internacional”.

 

Do lado da ALEP, Eduardo Miranda constata que a projecção “de um início de recuperação significativa a partir da Páscoa já está posta de lado”. Olhando um pouco mais para a frente, destaca também a importância da vacinação, perspectivando que a retoma “antes imaginada para o Verão deve ser muito mais lenta do que se esperava, pois depende da evolução da vacinação nos países de origem e em Portugal” e “já há sinais de que o processo vai atrasar”.

 

“Só com uma vacinação mais significativa da população nos principais países europeus, o mercado das viagens vai começar a estabilizar e permitir a retoma, e isto só está previsto mais para o fim do ano”, acrescenta. Para Eduardo Miranda, este ano pode ser “tão difícil para o turismo como foi 2020”.

 

Receitas do turismo afundam

Os dados do INE sobre os proveitos totais do sector do alojamento turístico só serão conhecidos no próximo dia 15 deste mês. Mas, olhando para o acumulado até Novembro, estes foram de 1404 milhões de euros, menos 65,7% face a idêntico período de 2019.

 

Já ao nível das exportações de serviços de viagens e turismo (ou seja, o dinheiro que entrou em Portugal devido aos turistas estrangeiros), contabilizadas pelo Banco de Portugal, verifica-se uma queda de 55,8% para 7679 milhões de euros nos primeiros 11 meses do ano.

 

O saldo entre exportações e importações continua a ser positivo, mas “encolheu” 61% para 4847 milhões de euros (com efeitos negativos ao nível do saldo do total da balança comercial).

 

Em 2019, o turismo representou a entrada de 18.431 milhões de euros, mais 8% do que em 2018, atingindo assim mais um novo recorde e ajudando a manter a balança comercial positiva.

 

Olhando apenas para os alojamentos turísticos contabilizados pelo INE, em 2019 os mercados externos contribuíram com 49 milhões de dormidas (uma subida de 3,3%, superior à de 2018) e os proveitos totais aumentaram 7,3% para 4276,6 milhões.


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