OPINIÃO
A demolição ideológica do pensamento científico
Joana Cabral tem todo o direito de defender que “o
racismo não existe de negros para brancos”. Mas chamar ignorante a quem não
partilha da sua visão não é só ridículo – é uma ofensa a quem faz ciência a
sério.
João Miguel
Tavares
2 de Março de
2021, 0:01
https://www.publico.pt/2021/03/02/opiniao/opiniao/demolicao-ideologica-pensamento-cientifico-1952618
Joana Cabral é
professora de Psicologia na Universidade Lusófona do Porto e dirigente da SOS
Racismo. Há dias, escrevi em tom crítico sobre uma intervenção sua na TVI24,
onde defendeu que “o racismo não existe de negros para brancos”, mas apenas de
brancos para negros, com o argumento de que o racismo é um “sistema político e
económico” e não uma “atitude interpessoal”. Entretanto, Joana Cabral respondeu
às minhas críticas num artigo intitulado “De branca para brancos: rigor e
justiça”. Regresso ao tema por causa de um detalhe que considero demasiado
importante para ser ignorado, e que já tinha denunciado no meu artigo original:
a promoção, por parte de uma professora universitária, de uma confusão
inaceitável entre ideologia e ciência. Invocar pergaminhos académicos para
credibilizar a sua posição nesta matéria é uma fraude intelectual.
No referido
debate na TVI, Joana Cabral afirmou que iria discutir a questão do racismo “do
ponto de vista científico”. Segundo ela, “todos somos um bocadinho ignorantes
em relação a este tema”, e por isso devemos “aproveitar estas oportunidades
para aprendermos qualquer coisa”. Poder-se-ia dizer que este tom maternalista
teria surgido a despropósito no calor do debate. Mas não: ele volta a ser
utilizado no artigo do PÚBLICO. Joana Cabral invoca o “entendimento científico”
sobre a matéria e declara que seria “de esperar que intelectuais e responsáveis
políticos não se opusessem à informação que permite superar esta ignorância”.
Joana Cabral não
se limita a defender uma tese – ela classifica como mal informados aqueles que
não a partilham. E que tese é essa? É a tese de que uma coisa são “os fenómenos
de preconceito e discriminação étnico-racial”, que Joana Cabral reconhece serem
“universais e praticados também de não-brancos para brancos” (ufa); outra coisa
é o “racismo”, que é um “projecto político e económico”. E este “racismo”, para
existir, necessita de uma série de condições que são elencadas no seu artigo,
entre as quais se inclui a “escala transatlântica”, as campanhas de “propaganda
científica” ou o cultivo de “imaginários de inferiorização” que tenham durado
até ao século XX. Isso – e só isso – é o racismo, e quem achar que o racismo
pode ser outra coisa é um negacionista da ciência.
Vamos cá ver:
assim é fácil. Se eu definir “mamífero” como um animal que tem a cauda em
espiral, o nariz parecido com uma tomada eléctrica e um certo gosto por
chafurdar na lama, é óbvio que a partir daí só os porcos são mamíferos. Do
mesmo modo, se para haver racismo é necessário escala atlântica, frenologia e
apartheid, então não há dúvida: nem chineses, nem indianos, nem africanos têm
oportunidade de ser racistas, mesmo que queiram muito.
Só que há um
outro branco, bem mais considerado do que eu, que embirra com esta tese de
Joana Cabral: chama-se Karl Popper, e propôs um princípio, hoje universalmente
aceite por quem leva a sério o método científico, chamado da refutabilidade (ou
da falseabilidade), que de forma muito simples diz isto: uma teoria que não
oferece a possibilidade de ser refutada não pode ser considerada científica. É
mito. É ideologia. É pseudociência.
A história do
racismo exclusivamente branco não é outra coisa senão isso. Joana Cabral tem
todo o direito a defendê-la, como eu tenho o direito de defender a existência
do Eldorado. Mas chamar ignorante a quem não partilha da sua visão não é só
ridículo – é uma ofensa a quem faz ciência a sério.


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