ANÁLISE
Von der Leyen e a Invencível Armada
A presidente da Comissão, que fez da vacina a sua imagem
de marca e que tinha trabalho para apresentar, delapidou desnecessariamente o
crédito acumulado, ao não reconhecer os erros e ao responder às criticas com
ataques a terceiros em todas as direcções.
Teresa de Sousa
7 de Fevereiro de
2021, 0:00
https://www.publico.pt/2021/02/07/opiniao/analise/von-der-leyen-invencivel-armada-1949619
1. A União
Europeia teve uma semana má. Navega à vista em algumas questões essenciais –
das vacinas às relações com os outros grandes pólos de poder, dos EUA à China,
passando pela Rússia. Reage quase sempre na defensiva ou de acordo com o
interesse de curto prazo dos seus países maiores. Vê inimigos onde não devia
ver e amigos onde só tem inimigos. Preocupa-se mais em disfarçar os erros em
vez de corrigi-los, recorrendo a meias verdades e a uma espécie de
“nacionalismo europeu”, que pode funcionar no imediato, mas que se pode revelar
um desastre no futuro.
O caso mais
evidente, do ponto de vista do seu impacte mediático, é o das vacinas, embora
não seja o único. A Comissão cometeu alguns erros de avaliação no processo de
aquisição conjunta das vacinas a várias farmacêuticas que as poderiam vir a
produzir. Esses erros traduzem-se hoje na falta de abastecimento e na lentidão
do processo de vacinação na maioria dos países europeus. Uma coisa boa –
comprar as vacinas em conjunto, para utilizar o músculo financeiro e a dimensão
da União – corre o risco de transformar-se num processo lento e deficiente,
sobretudo quando comparado com o Reino Unido e com os Estados Unidos.
Já sabemos quais
foram os erros da Comissão: querer comprar mais barato e fechar os contratos
com as farmacêuticas mais tarde. Por mais que barafuste junto das empresas que
as produzem e que ameace levá-las a tribunal, isso não resolve o problema. Em
vez de encontrar formas de ultrapassá-lo, a Comissão e alguns dos governos
europeus preferem apontar o dedo e as responsabilidades aos outros. O Reino
Unido é o alvo ideal.
Se o “Brexit” foi
uma coisa má, então nada de positivo pode vir do Reino Unido. A tentativa de
bloquear as exportações das farmacêuticas com fábricas na Europa continental
para o Reino Unido, EUA ou Canadá já deu maus resultados. Primeiro, quando
resolveu impor uma fronteira entre as duas Irlandas, depois de ter passado três
anos defender a sua inexistência, para salvar o acordo de paz. O erro só durou
48 horas. Depois, com os protestos veementes de países terceiros, afectados
indirectamente por esta tentativa europeia de resolver o problema das suas
vacinas na secretaria, levantando unilateralmente barreiras às exportações.
Finalmente, com as próprias farmacêuticas a terem de explicar a complexidade
das cadeias de abastecimento que lhes permitem fabricar o produto final, que
vão das matérias-primas às embalagens e que chegam dos mais variados pontos do
mundo.
Quanto ao Reino
Unido, esta decisão arbitrária podia ter colocado em risco a segunda dose de
milhões de vacinados, revelando a falta de discernimento das decisões tomadas
em Bruxelas. A OMS juntou-se ao coro, apelando à Europa para não cair num
“catastrófico” “nacionalismo das vacinas”, fechando as portas à vacinação dos
outros, sobretudo daqueles que dispõem de muito menos meios. Até à data e
apesar da COVAX, a União ainda não enviou uma única vacina para esses países.
Fala agora em começar a exportar gratuitamente ou ao preço de custo no final
deste ano. Entretanto, China, Rússia e a própria Índia fazem da vacina uma nova
arma geopolítica, procurando ser os primeiros a chegar aos países que não
possuem nem a tecnologia nem o dinheiro para adquiri-las.
2. A presidente
da Comissão, que fez da vacina a sua imagem de marca e que tinha trabalho para
apresentar, delapidou desnecessariamente o crédito acumulado, ao não reconhecer
os erros e ao responder às criticas com ataques a terceiros em todas as
direcções. Contou com o apoio dos principais líderes europeus, a começar por Merkel
e Macron, que validaram totalmente a sua estratégia – antes e agora. Nos seus
encontros com os jornalistas nos últimos dias, Von der Leyen lembrou que a
Comissão reservou 2,3 mil milhões de doses junto de seis laboratórios (Moderna,
Pfizer-BioNTech, AstraZeneca, Johnson&Johnson, CureVac e Sanofi). Voltou a
felicitar-se por ter obtido melhores condições que o Reino Unido e Estados
Unidos nos preços e na responsabilização dos laboratórios no caso de vir a
haver problemas. Confirmou que o objectivo é ter 70% da população europeia
vacinada no fim do Verão. Apenas admitiu um erro: a Comissão não teve em conta
tanto quanto devia as eventuais dificuldades de produção, transmitindo aos
europeus uma ideia de facilidade que não existia. Ou seja, para a Comissão o problema
não é de estratégia, é de comunicação.
Mas a presidente
da Comissão foi mais longe, chegando a pôr em causa a fiabilidade da agência
britânica que valida os medicamentos, em comparação com o rigor da agência
europeia. Quase em simultâneo com o último encontro da presidente da Comissão
com os jornalistas, o seu vice-presidente e chefe da diplomacia europeia, Josep
Borrell, dizia em Moscovo que a União esperava que a EMA validasse rapidamente
a vacina russa. Este foi apenas um dos “pontos altos” do total desastre
diplomático a que assistimos quase de boca aberta, protagonizado por Borrell em
Moscovo, numa visita que coincidiu com a condenação de Alexei Navalny em
tribunal e à repressão violenta sobre os seus milhões de apoiantes. No mesmo
dia em que Borrell manifestava a sua boa vontade para dialogar com a Rússia ao
lado de um nada diplomático Lavrov, Moscovo expulsava três diplomatas europeus
(da Alemanha, Suécia e Polónia) por alegadamente estarem a interferir no caso
Navalny.
Em que ficamos?
Os britânicos desleixam a qualidade das vacinas que administram aos seus
cidadãos, mas a União faz fé na qualidade da vacina russa Sputnik V,
transformada em tábua de salvação para a escassez das vacinas?
Esta tentativa de Bruxelas de querer fazer do país da Europa
com o maior desenvolvimento científico um país sem credibilidade só porque saiu
da União é, no mínimo, ridícula. Oxford continua a ser Oxford, com ou sem
“Brexit”, com ou sem Boris Johnson. E o resto também. Ontem, 90% dos britânicos
maiores de 75 anos já estavam vacinados
3. A questão não
é que a Rússia não possa ter a capacidade científica de produzir uma vacina. A
questão é sobre a transparência do processo e a credibilidade de um regime
político em que as instituições não têm autonomia própria, fazendo o que o
Governo lhes manda. Entretanto, apesar de a EMA ter validado a vacina de Oxford
sem limitações (tal como a agência britânica), vários governos europeus
decidiram que não era adequada a pessoas com mais de 65 anos ou mesmo 55,
alegando não ter havido testes suficientes nessa faixa etária. A questão até
podia ser legítima, não fora a EMA aceitar a vacina sem ressalvas e os
britânicos estarem a usá-la desde meados de Dezembro, até agora sem qualquer
problema. Os últimos estudos feitos em Oxford demonstram que ela é efectiva
para algumas das novas variantes, o que é uma excelente notícia. Tem ainda duas
outras vantagens, do ponto de vista do mundo que não é rico: o seu preço é
muito mais baixo do que o das outras que já estão no mercado e a sua armazenagem
muito mais simples.
Esta tentativa de
Bruxelas de querer fazer do país da Europa com o maior desenvolvimento
científico um país sem credibilidade só porque saiu da União é, no mínimo,
ridícula. Oxford continua a ser Oxford, com ou sem “Brexit”, com ou sem Boris
Johnson. E o resto também. Ontem, 90% dos britânicos maiores de 75 anos já
estavam vacinados.
Na sua última
entrevista a jornais europeus, Von der Leyen encontrou uma fórmula para
explicar a maior rapidez britânica no processo de vacinação: a União é “um
tanque”, os britânicos são “uma lancha rápida”. No fim, o tanque é a arma mais
poderosa. Ainda é cedo para saber como vai acabar esta corrida pela vacinação.
Mas, manifestamente, a presidente da Comissão desconhece o que aconteceu à
Invencível Armada.
tp.ocilbup@asuos.ed.aseret


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