OPINIÃO
Saudades da luta de classes
Os espectros que actualmente ameaçam a paz em Portugal,
os vultos que rondam as ruas e os campos são as causas erradas. Não a pandemia,
não a desigualdade, não a pobreza, não a incerteza económica e social, mas sim
o fascismo e o antifascismo, o racismo e o anti-racismo.
António Barreto
20 de Fevereiro
de 2021, 8:10
https://www.publico.pt/2021/02/20/opiniao/opiniao/saudades-luta-classes-1951424
A pandemia e os
seus efeitos, assim como os processos de combate, a organização dos serviços e
a eficácia das medidas tomadas, ocupam os nossos dias, os jornais, as redes e o
espaço público. É normal. Fala-se de mais e surgem multidões com uma
competência médica e cientifica inesperada. Tanta gente tem tantas opiniões
definitivas sobre estes assuntos! Mesmo nestas circunstâncias é razoável que o
tema seja a principal preocupação de todos, pessoas, organizações e jornais.
Ainda por cima, com a acumulação de incerteza, de ineficiência e de erros, é
compreensível que quase não se discuta outra coisa.
Mesmo assim,
vivemos tempos em que novas polémicas se instalam, desenvolvem e sobem de tom.
Ou antes, velhos preconceitos e antigas irracionalidades renascem. Fascismo e
antifascismo, racismo e anti-racismo, antigas rivalidades, estão de novo
presentes. Mesmo estando hoje desadequados à sociedade portuguesa,
absolutamente fora de tempo e questão, sendo indignos disfarces para outras
lutas e infames pretextos para envenenar as relações sociais e políticas, estes
dilemas ocupam o espaço que deveria ser de razão e liberdade. Há fascistas em
Portugal? Certamente. De todas as condições. Há racistas em Portugal? Não há
dúvidas. De todas as cores. Devem a democracia, a razão e a liberdade combater
essas pessoas e esses valores? Seguramente e sem hesitação. Mas o que fazem os
que se classificam como antifascistas e anti-racistas é tão nefasto à liberdade
quanto os adversários. A peste não se combate com a cólera.
Quando as coisas
correm mal, mesmo muito mal, o pior vem ao de cima. Os espectros que
actualmente ameaçam a paz em Portugal, os vultos que rondam as ruas e os campos
são as causas erradas. Não a pandemia, não a desigualdade, não a pobreza, não a
incerteza económica e social, mas sim o fascismo e o antifascismo, o racismo e
o anti-racismo.
Em tempos de
crise, há quem culpe os estrangeiros. É sempre assim, há séculos. Doença ou
greve, fuga de capital ou conspiração, terrorismo ou desordem, tudo vem com os
estrangeiros. Porque eles tomam conta dos nossos empregos, casam com as nossas
mulheres, ficam com os nossos homens, ocupam as nossas casas, trazem valores
deles para as nossas escolas, não respeitam as nossas tradições nem as nossas
leis. São estrangeiros e abusam da nossa hospitalidade. Aprenderam a viver à
custa dos subsídios do Estado, não pagam impostos, só têm direitos, não querem
ter deveres. Se não se sentem bem, deveriam ir-se embora. Para o seu país.
E depois há os
que além de serem estrangeiros são negros, amarelos ou castanhos. Asiáticos ou
ameríndios. Árabes ou chineses. Sem falar nos judeus e nos muçulmanos. São
duplamente nocivos. Não respeitam as nossas tradições e querem impor as deles.
Desprezam as nossas leis e querem forçar as suas regras. Com os seus deuses, as
suas comidas, as suas famílias, as suas regras de casamento e educação, não
fazem esforços para se integrar. Forjam casamentos contratados, vendem crianças
e adolescentes, trocam pessoas por fortunas, tratam mal os animais, vivem
fechados nas suas comunidades, só tratam dos seus e sujam o espaço público de
todos e o nosso em particular. Oprimem os seus e não querem saber da
democracia.
Somos nós os
europeus verdadeiros, senhores de um passado, mestres da descoberta. Filhos e
herdeiros de uma longa história, de uma velha tradição, não podemos deixar que
nos destruam costumes, regras e crenças. Fomos generosos a ponto de deixar
entrar estrangeiros, minorias, negros e árabes, mas eles não se querem integrar
nem respeitar as nossas leis. Por isso temos de restaurar a nossa pátria,
reconsiderar as nossas tradições e exigir respeito, sem o que terão de ir
embora, até porque muitos vieram com mentira, não são refugiados, não são
exilados e não são perseguidos. Uns procuram trabalho, outros nem sequer,
entregam-se a actividades ilegais, a comércio ilícitos, conspurcam as ruas e as
instituições. Não é verdade que somos todos iguais. Quem não está bem que se
retire. Não sou racista. Até tenho amigos pretos.
É por isso que
combatemos os “supremacistas” brancos. Nós, portugueses de outra etnia,
imigrados, minoritários, africanos, estrangeiros, brancos solidários com as
minorias e que denunciamos a superioridade dos brancos, dos antigos
colonialistas, dos esclavagistas e dos nostálgicos do fascismo. São esses
brancos que nos exploram, abusam das nossas mulheres, tentam vender-nos droga,
não nos pagam a horas e quando pagam são salários de miséria. Não nos admitem
nas suas escolas nem nos seus hospitais, não cuidam dos nossos velhos, pagam
mal as pensões e quando as coisas não correm bem para eles, por causa deles, a
primeira coisa que lhes ocorre é dizer-nos “vão-se embora”. Nem sequer percebem
que muitos de nós, cada vez mais, nascemos aqui. Por isso, exigimos medidas
contra os racistas, contra os que, no espaço público, alimentam o ódio contra
os estrangeiros, querem restaurar as glórias do colonialismo, a força dos
conquistadores, os direitos ilimitados dos brancos e dos poderosos sobre os
trabalhadores. Exigimos que nos devolvam o património que nos roubaram durante
séculos. E que a história seja expurgada do racismo e do colonialismo.
Estes confrontos
envenenam a vida política portuguesa. Destroem a inteligência e o sentido de
comunidade solidária. Estes episódios fazem-nos ter saudades da luta das
classes! Dos tempos em que as lutas se desenrolavam à volta de questões
políticas, económicas e sociais de grande importância e de relevo para a
direcção de uma sociedade e para a afirmação de um poder! Dos debates em que
estavam em causa o poder político, as relações entre o capital e o trabalho, a
propriedade dos meios de produção e a repartição do produto e do rendimento.
Dos combates em redor da organização do Estado, da defesa nacional, da paz e da
guerra e da segurança colectiva. Saudades dos tempos em que se lutava por
valores essenciais da política, do trabalho e do emprego, dos direitos dos
trabalhadores e dos patrões, das obrigações e dos deveres de cada um e de
todos! Saudades das lutas pelos serviços de saúde e de educação e pelos
direitos e deveres dos idosos! Dos tempos em que a liberdade e a democracia
estavam no centro das discussões e das lutas e não eram consideradas, como
hoje, hábitos adquiridos e secundários ao lado da importância decisiva de
símbolos, da memória e da culpa.


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